Papelinhos e papelada

Passei a última semana em Itália, com italianos, como o nome indica, brasileiros, alguns americanos. E passam os dias a falar, e a ter de falar, dos seus presidentes. Muitas vezes desculpam-nos, noutras defendem-nos, poucas, a maior parte das vezes riem. Mas não devem rir, rir por dentro, porque por dentro ninguém gosta de ter uma presidente de quem se ri. Claro que mais vale rir do que chorar e claro também que os presidentes são apenas isso, presidentes. Mas mesmo assim.

Quanto ao primeiro ponto, mais vale rir do que chorar, depende muito do rir, e depende do chorar, e da causa do rir e do chorar. Porque há um choro que é riso, e um riso que é choro, por si só, sem ter em conta a causa. Choro de alegria, riso de tristeza, são coisas muito importantes, a que se não dá a mesma atenção de outras. E não há muito mais desta tamanha contradição em nós, o corpo raramente envia ao cérebro mensagens de estar-cheio-com-fome ou cansado-com-muita-energia. Mas chorar a rir, chorar de alegria e sorrir de tristeza já aconteceu a todos.

Mas a maior contradição do corpo é o espreguiçar, como ela ontem na esplanada, enquanto esperava por ele, a rever umas plantas lá do ateliê, sem muita convicção, porque o que fazia ali era esperar por ele, mas tem uma coisa, que é não ter movimento mais bonito que uma mulher possa fazer. Espreguiço com bocejo, só de corpo, uma doce pirueta em câmara lenta suave e violenta ao mesmo tempo. Ou mesmo espreguiço de bocejo abafado, ou mesmo sem bocejo, espreguiço só. Um riso choro do torso e braços, os músculos.

Turim, onde estou agora, ou melhor não estou, porque Turim está lá fora, com quarenta graus e eu estou protegido pelo ar condicionado a terminar este texto, num quarto de hotel, igual a quase todos os outros (não será tudo um sonho e os quartos de hotel, sempre o mesmo, e o que muda é tudo lá fora?), mas como dizia, Turim é também contradição, como o espreguiço e o choro riso. Foi bem visto isso por Italo Calvino, que se caracterizava por ver bem as coisas, e ser de Turim, que Turim é uma cidade que convida à lógica, e através da lógica abre as portas à loucura. E assim é, pelo menos a parte da lógica, que a loucura ainda não vi, mas pressente-se. Geométrica e desarrumada, imperial e porca, melancólica e segura.

Vim a Turim dar aulas, numa Summer School da Universidade de Turim, falar a alunos dos quatro cantos do mundo (ou seriam dos cinco?) dos desafios da economia da partilha e que respostas regulatórias dos países e das cidades às novas formas de mobilidade, logística urbana e distribuição. Gente inteligente, interessante e interessada, rara combinação das três valências nas mesmas duas pernas, que fez perguntas e deu respostas daquelas que abrem a mais perguntas, ou que são mais bem respondidas com outras e novas e mais irrespondíveis perguntas.

Mas ficou por responder uma coisa. Na sala, ao fundo, estava um cartaz com um aviso, daqueles permanentes. É assim por todo o mundo, em todas as universidades há sempre os serviços, e os serviços têm por função encher as salas, e os corredores, com regras e avisos, papelada por todo o lado, não se corra o risco de serem sítios bonitos os lugares onde se aprende. E nesta universidade os serviços proíbem que se coma e que se beba. A proibição de comer e beber numa sala de aulas é absurda, em todo o lado onde dei aulas incentivei ao incumprimento, sim já sei, não és tu que limpas depois, um absurdo. Mas aqui os serviços foram mais longe e proíbem os papelinhos. Não se pode lançar papelinhos. Não proíbem mais nada, nem sexo (consentido ou não), nem armas (brancas ou pretas), nem extração de rins (com ou sem anestesia), nem cocaína (pura ou cortada), nem nada. Papelinhos de qualquer cor. Não se pode lançar papelinhos, confetti, nada, niente. E foi quando li Calvino que percebi porquê, tem que ver com aquela coisa da lógica que abre a parte à loucura. Porque havia o risco, estarmos ali todos numa argumentação jurídica muito lógica, muito linear, muito rigorosa, e no fim de tudo, o matulão canadiano levantar-se e fazer um gesto circular com os braços, lançando uma chuva de cor e folia no que era outrora apenas rigor branco. E o mundo podia acabar. E os serviços protegem-nos disso.

Advogado

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