Nothing silly about this season

A silly season está quase aí. Na língua portuguesa, creio que o conceito nunca conseguiu tradução consensual. Mas nem por isso deixou de ter expressão no nosso quotidiano, no nosso entretenimento e no nosso jornalismo. É claro que a silly season não é bem o que era (já nada no mundo é). As alterações climáticas trouxeram um novo paradigma à vida humana, com as mudanças recorde a nível da temperatura e os novos fenómenos climáticos mais extremados que, em conjunto, deram origem a ecossistemas mais inflamáveis. O aumento da intensidade dos incêndios florestais trouxe-nos também a consciência de que o verão se tornou mais do que praia e romarias e de que, nas notícias, não aparecem já só festas, festivais e vedetas, mas também dor, sofrimento e perda. Os meses estivais são agora algo que já não pode mesmo ser encarado apenas de forma ligeira. No verão, a urgência de responsabilidade no entretenimento, na segurança, na saúde e no jornalismo veio mesmo para ficar. As questões ambientais espelham as mudanças físicas do nosso planeta e materializam a exigência de uma nova atitude perante as mesmas.

Dizer que o mundo está em permanente evolução é lugar-comum e já não é de agora. Não há ninguém, é certo, que nunca tenha tido a sensação do "já nada é o que era". Mas isso não é necessariamente negativo. Até porque, em democracia, quer a nostalgia por ideologias e coisas passadas quer o ultrapassar da mera constatação da mudança são opções de qualquer cidadão. Já a cidadãos com responsabilidades políticas não caberá entender a promoção da tolerância proativa como um requisito? Na atitude de negação inerente ao requerimento entregue recentemente ao Tribunal Constitucional por parte de deputados do PSD e do CDS, a propósito da identidade e da expressão de género no ensino público e privado, não se percebe ao certo de que é que se pede a fiscalização.

A história tem-nos demonstrado que aplicar ao género uma noção de "correto" tem resultado em nada mais do que discriminação. O objetivo do que se quer ver fiscalizado é ou não apenas a desconstrução do "correto" enquanto noção aplicada ao género? Garantir a todos o direito à autodeterminação da identidade e defender a particularidade dentro da diversidade precisa assim tanto de fiscalização pelo TC?

Trump (negacionista das alterações climáticas) e Bolsonaro também apelam à normatização da rejeição da diferença, como quem quer trancá-la novamente num armário e disfarçar a sua indiferença ao que é diverso. Combater a ideologia da intolerância é evitar que ela se torne mainstream. É, sobretudo, reconhecer que a sociedade nunca avançou pela promoção de um tabu e que, entre todos os advérbios do "correto", só o "democraticamente" se aplica ao género.

Deputada do PS

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