"Aprendi mais a falar com a minha família durante as refeições do que na escola"

Craig Mello, laureado com nobel da Medicina em 2006 e bisneto de açorianos, está de volta às ilhas para umas férias. E revela as suas preocupações com a falta de literacia científica, lembrando que as decisões políticas têm consequências no futuro.

O nobel da Medicina Craig Mello, descendente de açorianos, defende em entrevista ao Açoriano Oriental que só uma sociedade constituída por pessoas com cultura científica será capaz de tomar decisões informadas. "Comunicar com as outras pessoas sobre ciência é muito importante, em especial agora que a atividade humana está a causar problemas como o aquecimento global. Estamos num ponto da civilização em que temos de ser inteligentes na forma como vivemos e como planeamos o nosso futuro", argumenta Craig Mello, lamentando que "muitas pessoas não compreendam, por exemplo, a ciência que explica as mudanças de clima".

"Quando se vive em democracia e são os eleitores que decidem, estes também têm de ter formação", disse.

Craig Mello frisou em entrevista ao Açoriano Oriental a sua preocupação com a atual situação política no seu país, os Estados Unidos da América.

"Nós estamos a ter esse problema nos Estados Unidos, onde temos um governo muito anti-intelectual, que na minha opinião não valoriza a educação e em consequência está a tomar decisões que vão ao encontro dos seus interesses políticos, mas que não têm em consideração o que será melhor para o futuro do nosso país ou da humanidade."

E para se ultrapassar este problema, Craig Mello defende a aposta na educação e na comunicação em ciência. O que, na opinião do vencedor do Nobel, deve começar em casa.

"Eu acho que os pais devem aproveitar as refeições com os filhos para falar sobre o que se passa nos noticiários, sobre artigos ou ciência. Faço esta sugestão, porque enquanto criança eu aprendi mais a falar com a minha família durante as refeições do que na escola", sugeriu, acrescentando: "Eu encorajo as pessoas a perseguirem os seus interesses e a sua curiosidade. Há muita informação sobre biologia, história da terra, ou astronomia, por exemplo."

Mesmo nas famílias que não têm formação académica, Craig Mello considera que isso não deve ser um fator de impedimento, dando o exemplo dos seus avós.

"O meu avô não tinha formação académica, não acabou o liceu, mas era curioso, lia os jornais, por isso estava bem informado, tinha bons conhecimentos e daí boas conversas, apesar de não ter uma licenciatura. Por isso, eu acho que qualquer adulto deve ter estas conversas com os seus filhos", afirmou.

Craig Mello, bisneto de açorianos, regressou aos Açores pela terceira vez para melhor conhecer o arquipélago e passar tempo com a família.

"Viemos para ver os primos, de forma a mantermos os laços à família e à nossa herança. É também uma oportunidade para renovar as nossas relações aqui."

Questionado sobre se sente que os açorianos reconhecem os seus feitos científicos, Craig Melo assentiu.

"São muito especiais os sentimentos demonstrados pelas pessoas dos Açores e na Maia, em São Miguel, são ainda maiores do que sinto da parte de familiares que tenho em Itália ou na Escócia, com os quais não há uma relação tão grande. Talvez por viverem numa ilha, que é mais pequena e em que toda a gente se conhece, os laços que ligam as pessoas sejam mais fortes do que seriam se morassem num local com mais habitantes", descreveu.

Da sua experiência nos Açores destacou ainda que por vezes é reconhecido como o Prémio Nobel que tem origens nos Açores, mas que na maior parte dos casos pode passear pelas ilhas sem ser abordado. Realçando, nesse sentido, que mesmo as pessoas que não o reconhecem e o tratam como qualquer outro turista são "fantásticas". "Fizemos amigos em todas as ilhas onde estivemos", frisou.

Craig Mello contou ainda algumas aventuras desta estada nos Açores e de como resultaram em mais amizades. Um dos episódios passou-se durante a viagem entre São Miguel e a ilha do Pico, onde estava previsto escalar a montanha com a família. Segundo Craig Mello, a intenção era viajarem de avião até à Horta e depois seguirem de barco para o Pico.

Com esse objetivo embarcaram em São Miguel e desembarcaram assim que o avião aterrou, indo de imediato de táxi para o porto onde continuariam a viagem de barco. No entanto, depois de estarem no porto, o barco não chegava, nem havia outras pessoas à espera de barco, pelo que foram indagar o que se passava. E foi nessa altura que perceberam que tinham desembarcado na ilha errada.

"Éramos seis pessoas e nenhum de nós reparou que estava a fazer uma paragem na ilha Terceira. Não fez mal, alugámos um barco a motor e fomos na mesma para o Pico", contou, rindo-se e explicando que o único revés deste engano foi que já não puderam escalar a montanha do Pico, mas que foi "uma aventura fantástica", que ainda permitiu que travassem amizade na Terceira com o taxista que os ajudou depois de verificarem que se tinham enganado.

O Google das células

Em entrevista ao Açoriano Oriental, o nobel da Medicina explicou ainda em que consistiu a investigação que lhe garantiu este galardão, que reparte com o investigador Andrew Z. Fire.

De uma forma simples, o investigador explicou que as células que formam todos os organismos vivos usam pequenas peças de informação genética para encontrar dados e desta forma fazer a sua regulação.

"Imagine que quer encontrar uma informação na internet. Eu gosto do exemplo da peça Hamlet, de Shakespeare. Se não se lembra do nome da peça mas sabe a frase "Ser ou não ser" ainda assim encontra o texto completo. Para isso usa um motor de pesquisa como o Google. As células, que vivem com toneladas de informação há biliões de anos, têm um Google que usa pequenas peças de informação genética para encontrar informação que combine e a regule", afirmou, acrescentando: "A linguagem das células é muito simples e todos os organismos são compostos por células que usam o mesmo mecanismo."

"Desta forma podemos encontrar um gene e regulá-lo, usando uma parte da informação que é carregada no motor de pesquisa da célula. O que nós descobrimos em 1998 foi esse mecanismo. Ninguém sabia que as células faziam essas pesquisas."

Sobre a importância desta descoberta para a medicina destacou: "Agora que temos essa informação e que a podemos programar artificialmente, podemos fazer um questionário sintético para que a célula faça essa pesquisa e encontre o gene-alvo que nós queremos regular. Esta foi a grande descoberta."

"Há doenças que estão relacionadas com a informação celular porque as células funcionam com informação. Quando há um problema com a informação podemos ficar doentes", destacou.

Ainda sobre a sua investigação, Craig Mello revelou que já está a dar frutos, tendo já permitido a criação de um tratamento para a amiloidose, doença caracterizada pelo depósito de proteína amiloide, que resulta de uma sequência de alterações no seu desdobramento, sendo que o depósito de fibrilhas amiloides insolúveis ocorre principalmente nos espaços extracelulares de órgãos e tecidos; ou as Porfírias, que resultam da deficiência de certas enzimas na via biossintética do heme - composto químico que dá a cor vermelha ao sangue e é fundamental para várias proteínas do corpo, entre elas a hemoglobina -, levando ao acumular dos precursores de heme que causam crises intermitentes de dor abdominal e sintomas neurológicos.

"A Biologia da vida foi alterada com o conhecimento do genoma. A genética e a medicina entraram numa nova era em que podemos fazer medicamentos baseados na informação e o nosso motor de pesquisa pode-nos ajudar a regular os genes", advogou, explicando: "Usando o mecanismo natural das células fazemos um medicamento que tem uma peça de informação genética artificial, que é feita em laboratório, a qual vai encontrar o gene e regulá-lo. Estas são as chamadas terapias de precisão porque encontram e regulam exatamente o gene que queremos."

Artigo publicado originalmente na edição de 23 de julho do Açoriano Oriental

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.