Premium A Europa nunca foi fascista

Como chegámos aqui? O que nos tem trazido de um mundo liberal, de reforço democrático, desde a queda das ditaduras do sul e do Muro de Berlim, a um mundo em que o discurso do mal se banaliza?

Quanto mais migrantes vierem, mais diluídos serão os nossos valores cristãos", afirmou o bispo de Szged, uma cidade no sul da Hungria. O bispo falava também em nome do seu primeiro-ministro, Viktor Orbán, mentor de várias medidas antidemocráticas, contra a imprensa, os juízes ou a universidade. Ideia semelhante foi lançada em Portugal, há uns dias. Como chegámos aqui? O que nos tem trazido de um mundo liberal, de reforço democrático, desde a queda das ditaduras do sul e do Muro de Berlim, a um mundo em que o discurso do mal se banaliza? Em vez de respondermos diretamente a estas perguntas e assim ceder à agenda política de quem as causa, recordemos do que falamos quando falamos da Europa. O resultado, como veremos, é altamente positivo. A Europa nunca teve donos e não será desta que os terá. A Europa é de quem nela vive e ninguém tem o poder de decidir quem tem esse direito. Procuremos ver o todo através de algumas partes.

Corria o ano de 711 quando uma estirpe de seguidores de Maomé, vindos de onde hoje é a Síria, aportou às costas da Península Ibérica, onde, organizados politicamente, ficaram durante mais de quatro séculos; e para sempre no sangue, na cultura, na ciência ou na tecnologia. Ficaram simplesmente porque trouxeram coisas novas que a todos beneficiou e porque assim funcionava o mundo. Esta troca não foi apanágio do sul, pois a Europa cruzou influências com o exterior em todos os quadrantes. Os reinos árabes peninsulares seriam derrotados por reinos cristãos. Seguiram-se séculos de afirmação dos poderes centrais - e isso em toda a Europa. Todavia, a religião que serviu como distinção perante o exterior cedo se transformou na base da guerra dentro de fronteiras. Desses confrontos religiosos resultaram reinos ou impérios cada vez mais fortes, divididos pelas diferentes faces do cristianismo. A leste manteve-se o espectro da fronteira muçulmana.

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