Merecer

Andei na faculdade num tempo em que ir às aulas era uma festa. Depois de anos de um ensino categórico e papagueante, parecia que todas as portas se tinham finalmente aberto para podermos arejar as nossas cabeças. Longe de se cingirem à bibliografia das respectivas disciplinas, os professores mandavam-nos ir ao teatro e ver exposições, ler romances e assistir a concertos, e de vez em quando até nos propunham trocar as suas aulas por um programa que consideravam igualmente edificante.

Como então havia greve de transportes quase todos os meses, era também comum sermos apenas meia dúzia de alunos numa aula (os que podiam ir a pé, como era o meu caso); e essas conversas com os mestres en petit comité geravam uma cumplicidade que nos fazia sentir privilegiados e, simultaneamente, mais responsáveis.

Na geração seguinte, talvez um entendimento enviesado do que era a liberdade tenha feito perder o entusiasmo a muitos universitários pelo acto de aprender. Uma rapariga minha conhecida, que estudara sempre no estrangeiro por ser filha de um diplomata, veio para Portugal frequentar o ensino superior e ficou pasmada: não só os colegas não tinham o hábito de ir às aulas, como saíam todas as noites, deitando-se às tantas, e só pegavam nos livros na véspera dos exames.

O meu irmão, que deu aulas nos Estados Unidos - onde a universidade custa os olhos da cara e muitos pais contraem empréstimos avultados para os filhos poderem tirar um curso -, contou-me que lá ninguém brincava e os alunos passavam noites a estudar na biblioteca, que, aliás, estava aberta vinte e quatro horas por dia. Mas em Portugal ouço dizer que as coisas têm vindo a piorar todos os anos; e, em certas faculdades, chega-se ao cúmulo de os professores só conhecerem os alunos quando há teste...

Li que um rapaz de 14 anos oriundo do Mali morreu num dos muitos naufrágios que acontecem hoje no Mediterrâneo. Vinha em busca de uma vida mais digna na Europa e trazia consigo uma preciosidade: cosida ao interior da algibeira do casaco e protegida por uma bolsa de plástico estava a sua caderneta escolar, com notas excelentes a todas as disciplinas, escritas em árabe e em francês. Não queria perder tempo quando chegasse.

Há quem, de facto, mereça estudar gratuitamente. Mas porque devem ser oferecidas propinas aos estudantes que passeiam diariamente os traseiros pelas cadeiras das esplanadas e ainda se indignam quando não têm as notas que acham merecer? Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.