Dinamarca. Havemos de voltar!

Mala de viagem (50). Um retrato muito pessoal da Dinamarca

Ela despediu-se de mim no Aeroporto de Lisboa. Tínhamos namorado em meses antecedentes, os primeiros que tiveram uma maior descoberta para ambos. De partida para Copenhaga, essa foi a minha primeira grande viagem e esse foi o voo batismal. Na capital dinamarquesa, o hotel onde pernoitei fica no centro da cidade e, desde a sua construção, passou a ser um ícone da hotelaria e da arquitetura. O Astoria é um exemplar notável do modernismo na arquitetura escandinava. O edifício foi projetado como um hotel de estação, pelo arquiteto Johannes Oluf Ole Falkentorp, e construído inovadoramente em betão armado, em 1934 e 1935, como o primeiro hotel de luxo da capital dinamarquesa. As portas giratórias foram as primeiras do país e, durante a minha estada, ainda havia quartos requintados de origem, mas o meu já fora modernizado. O hotel consiste numa longa ala, assemelhando-se a uma locomotiva, com uma fachada estreita voltada para Vesterbrogade e encimada por um elemento em forma de roda alada com coroa, ou seja, uma representação escultórica do antigo logótipo do Estado dinamarquês. Enquanto eu tomava o pequeno-almoço, observava o corrupio de pessoas junto à estação e, ainda, os inúmeros ciclistas e o bom sentido cívico de quem não passava o vermelho na passadeira do peão, mesmo que não houvesse carros por perto. Esta história da viagem à Dinamarca podia ter muitos protagonistas e locais que visitei, mas, para além do icónico hotel, relevo o Museu de Arte Moderna da Louisiana, localizado na costa de Øresund, em Fredensborg, 35 quilómetros a norte de Copenhaga. Afinal, ambos são ícones das artes escandinavas que tanto admiro. Viajei de comboio por uma paisagem serena. Já na época, era o museu de arte mais visitado da Dinamarca, tendo uma extensa coleção de arte moderna e contemporânea, desde os tempos da Segunda Guerra Mundial. Tem um jardim de esculturas, numa simbiose entre a arte, a arquitetura e o paisagismo, muito provavelmente um dos exemplos inspiradores do parque da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, construído na década seguinte. Aquele museu dinamarquês foi fundado, em 1958, por Knud W. Jensen e projetado pelos arquitetos Wilhelm Wohlert e Jørgen Bo. Marcadamente filantropo, Jensen foi um mecenas de arte e de literatura, dirigiu o Luisiana até 1991; portanto, estava no exercício das funções aquando da minha visita. Ele acabara de editar o seu repositório de memórias "Mit Louisiana-liv". Justamente, o museu está incluído no livro "1,000 Places to See Before You Die", de Patricia Schultz, como um dos mil lugares para ver durante uma vida. Porém, o reino da Dinamarca não se deve visitar uma só vez, porque, por meu dever de amor, é para repetir, até a fazer fé no poema que lhe dediquei: "Copenhaga/ Rostos de beleza percorrem ruas/ planas, cicláveis, limpas e regradas/ - cidade que em tudo à vista se asseia./ Traços de realeza em toda a parte,/ festas, praças, jardins e toda a arte/ - e quando nos encanta uma sereia." À chegada a Lisboa, a minha "sereia" já não me esperava no aeroporto. Nunca mais soubemos um do outro, até passadas três décadas, quando o decurso das vidas nos juntou de novo e para sempre, tal como as memórias desta minha primeira grande viagem, que poderá ser uma das próximas àquele lugar dentre mil para voltar, mas agora acompanhado por quem deveria ter estado comigo naquela primeira vez. O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu que "viajar é viver" e eu sinto que viver é viajar.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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