A lixeira do mundo na luta pelo ambiente

Enquanto a Europa e os EUA traçam planos ambiciosos para proteger o ambiente - uma urgência que não é discutível -, a China e a Índia sozinhas conseguem manter a procura mundial de carvão estável, mesmo com as quebras de produção que a pandemia trouxe ao mundo. E mesmo com todos os esforços do Ocidente para eletrificar e limpar as suas economias. São dois terços da procura mundial de carvão concentrados em dois países. Alimentar estes dois gigantes em franca expansão significa, de acordo com a Agência Internacional da Energia, que tão cedo o mundo não se livra destas centrais e das consequentes emissões, com Pequim a liderar o consumo, apesar do compromisso recentemente assumido por Xi Jinping de se juntar à luta pela descarbonização.

São os maus da fita? Há um lado negro na evolução tecnológica que permitiu ao Ocidente mas também a uma parte crescente da Ásia não só atingir a qualidade de vida de que gozamos como evoluir para ambiciosos objetivos de descarbonização. E se é verdade que a China é também o maior produtor de lixo eletrónico do mundo - 10 milhões de toneladas por ano -, resíduos que em menos de duas décadas ameaçam ser responsáveis por um sexto de todas as emissões de CO2, também é verdade que os EUA e a Europa não ficam muito atrás. Quer nos níveis de consumo - que se traduzem na exploração de recursos naturais necessários a toda a produção eletrónica e tecnológica, em constante atualização e substituição - quer na utilização de países subdesenvolvidos como depósitos de lixo, muito dele tóxico, que dela resulta.

O que nos leva à questão africana, continente que concentra na região subsariana 42% da população a viver abaixo do limiar de pobreza. São mais de 780 milhões de pessoas com menos de 1,90 dólar por dia, sem condições básicas, cujos governos estão muitas vezes concentrados em garantir condições de subsistência independentemente do custo. O que significa ter energia ao mais baixo preço possível e aceitar receber o lixo tóxico que o resto do mundo prefere fingir que não é responsável por criar.

Quando se passa uma vida - que pouco ultrapassa os 40 anos - a ter de lutar todos os dias para conseguir pôr alguma coisa no estômago, no seu e nos dos filhos e no dos pais, o estado do ambiente não é sequer uma questão, quanto mais uma prioridade.

Europa, Estados Unidos e até a China podem comprometer-se com objetivos internos e de ajuda a esses territórios a quem repetidamente voltamos as costas - lembram-se dos 320 milhões de doses de vacinas contra a covid que deviam ter sido cedidas a África? A solidariedade real ficou-se pelos 10% do patamar anunciado -, mas esses apoios, como outros frequentemente disponibilizados, tarda ou nunca chegam a concretizar-se.

Enquanto não for possível envolver todos neste combate, enquanto ostensivamente damos com uma mão e com a outra despejamos discretamente o nosso lixo sobre os menos afortunados, não há melhorias reais que possam concretizar-se. No ambiente ou nas condições de vida do planeta e de quem o habita.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG