Quando chegou a Espanha, não vinha lá muito bem. Estivera uns tempos em Roma - cinco, seis anos, no máximo -, mas caíra em desgraça, que é sina dos melhores anjos. No dia 6 de Julho de 1572, emplumou a pena, atinou o espírito e escreveu, pesaroso, ao cardeal Alessandro Farnese. Rojou-se aos pés do prelado, pediu perdão evangélico, suplicou reentrada no palácio - de onde havia sido irrevogavelmente expulso por delito ou ofensa cuja natureza hoje ignoramos, e é pena. De concreto, sabe-se tão-só que, nos seus últimos tempos na Cidade Eterna, Doménikos não só não conseguira arranjar novos trabalhos de vulto como perdera os favores do seu patrono mais generoso. Estava, portanto, bastante à rasca..De Espanha, entretanto, sopravam bons ventos. Desde há uns anos que o rei Felipe II andava a importar pintores de Itália para lhe embelezarem os palácios que acabara de construir. Doménikos sabia-o, tinha bom faro. O mais decisivo, porém, fora o seguinte: nos círculos do Palácio Farnese, conhecera Luis de Castilla, filho de Diego de Castilla, deão da Catedral de Santa María de Toledo, ou seja, um homem assaz poderoso na Espanha daquele tempo, que poderia ter sido ainda mais poderoso não se desse o caso de ter sangue judeu a sujar-lhe as veias de recém-converso (sintomaticamente, Diego de Castilla tinha sido, sem sucesso, um dos principais opositores aos famigerados estatutos de limpieza de sangre, que discriminavam vilmente os cristãos-novos)..Diz-se que foi Luis que convenceu o pai a contratar Doménikos Theotokópoulos, vulgo El Greco, para duas empreitadas de monta na cidade toledana: para a sacristia da catedral, O Espólio, gigantesca tela com quase três metros de altura, que retrata o momento inicial da Paixão, aquele em que Cristo se vê esbulhado das suas roupas puríssimas; e, para o Mosteiro de São Domingos de Silos (o Velho), as pinturas do retábulo do altar-mor da capela, entre outros adornos de tomo..A fundadora da igreja e da capela-maior de São Domingos de Silos fora uma nobre portuguesa falecida havia pouco tempo, a rica viúva dona Maria de Silva (ou da Silva), de quem Diego Castilla era executor testamentário. Dona Maria tinha vindo para Espanha muito novita, aos 13 anos, como dama de companhia da bela (e culta) Isabel de Portugal, quando esta, em 1526, viajou até Castela para se casar com o imperador Carlos V. Dois anos depois (com 15 primaveras, portanto), era a vez de ela própria, Maria, contrair matrimónio, o que fez com D. Pedro González de Mendoza, mordomo e contador-mor do imperador e irmão do vice-rei de Navarra. O casal foi viver para Cuenca, terra natal de D. Pedro, onde este faleceria prematuramente em 1537..Quando chegou a Espanha, não vinha lá muito bem. Estivera uns tempos em Roma - cinco, seis anos, no máximo -, mas caíra em desgraça, que é sina dos melhores anjos. No dia 6 de Julho de 1572, emplumou a pena, atinou o espírito e escreveu, pesaroso, ao cardeal Alessandro Farnese. Rojou-se aos pés do prelado, pediu perdão evangélico, suplicou reentrada no palácio - de onde havia sido irrevogavelmente expulso por delito ou ofensa cuja natureza hoje ignoramos, e é pena. De concreto, sabe-se tão-só que, nos seus últimos tempos na Cidade Eterna, Doménikos não só não conseguira arranjar novos trabalhos de vulto como perdera os favores do seu patrono mais generoso. Estava, portanto, bastante à rasca..De Espanha, entretanto, sopravam bons ventos. Desde há uns anos que o rei Felipe II andava a importar pintores de Itália para lhe embelezarem os palácios que acabara de construir. Doménikos sabia-o, tinha bom faro. O mais decisivo, porém, fora o seguinte: nos círculos do Palácio Farnese, conhecera Luis de Castilla, filho de Diego de Castilla, deão da Catedral de Santa María de Toledo, ou seja, um homem assaz poderoso na Espanha daquele tempo, que poderia ter sido ainda mais poderoso não se desse o caso de ter sangue judeu a sujar-lhe as veias de recém-converso (sintomaticamente, Diego de Castilla tinha sido, sem sucesso, um dos principais opositores aos famigerados estatutos de limpieza de sangre, que discriminavam vilmente os cristãos-novos)..Diz-se que foi Luis que convenceu o pai a contratar Doménikos Theotokópoulos, vulgo El Greco, para duas empreitadas de monta na cidade toledana: para a sacristia da catedral, O Espólio, gigantesca tela com quase três metros de altura, que retrata o momento inicial da Paixão, aquele em que Cristo se vê esbulhado das suas roupas puríssimas; e, para o Mosteiro de São Domingos de Silos (o Velho), as pinturas do retábulo do altar-mor da capela, entre outros adornos de tomo..A fundadora da igreja e da capela-maior de São Domingos de Silos fora uma nobre portuguesa falecida havia pouco tempo, a rica viúva dona Maria de Silva (ou da Silva), de quem Diego Castilla era executor testamentário. Dona Maria tinha vindo para Espanha muito novita, aos 13 anos, como dama de companhia da bela (e culta) Isabel de Portugal, quando esta, em 1526, viajou até Castela para se casar com o imperador Carlos I. Dois anos depois (com 15 primaveras, portanto), era a vez de ela própria, Maria, contrair matrimónio, o que fez com D. Pedro González de Mendoza, mordomo e contador-mor do imperador e irmão do vice-rei de Navarra. O casal foi viver para Cuenca, terra natal de D. Pedro, onde este faleceria prematuramente em 1537..Viúva e sem filhos, Maria da Silva continuou a viver com a família do marido até que a imperatriz Isabel intercedeu por ela, conseguindo que a antiga aia fosse admitida no Mosteiro de São Domingos (o Velho), em Toledo. A rica senhora, ao que parece, achou os aposentos conventuais demasiado austeros para o seu gosto requintado; ampliou-os, deu-lhes o luxo possível, mandou construir salas e quartos para a sua vasta criadagem (entre os serviçais, contemplados no testamento, encontramos uma Maria Salazar, uma Maria Mota, uma Isabel de los Angeles, um Pedro Alfonso, um Juan de Silva, um Guzmanico e um Gazparico, além de várias outras personagens, como um ex-escravo Francisco, uma Madalenica e um Cristobalico, ambos niños de la piedra)..No mosteiro passou Maria 38 anos de existência, até morrer no dia 28 de Outubro de 1575 (dividem-se os historiadores sobre se D. Maria de Silva terá morrido às oito ou às nove horas da noite, controvérsia decerto interessantíssima, mas em que não entraremos). Foi D. Maria enterrada, desenterrada e trasladada, imagine-se, não menos do que três vezes, até que por fim se encontrou sepultura condizente com o seu estatuto, que era alto. Tão alto que só no dia do funeral se celebraram não menos do que 24 missas por sua alma em todas as igrejas da cidade de Toledo..Diego de Castilla negociou longamente com as monjas dominicanas as condições e os termos em que aquelas acolheriam o cadáver da gentil senhora, tendo a madre superiora surpreendido o deão pela vultuosa quantia que exigia para receber o corpo defunto da dama portuguesa. A história é intrincadíssima e, por ora, só interessa reter que, no término das conversações, ficou aprazada a construção de uma nova e portentosa igreja. Os trabalhos de edificação começaram às seis da manhã de 26 de Fevereiro de 1576 e foi para essa igreja que Diego de Castilla contratou os ofícios de El Greco..Em Julho de 1577, Doménikos assinara contrato para pintar O Espólio para a catedral toledana, trabalho que foi concluído em Junho de 1579. Começaram então os percalços daquele que foi, sem dúvida, o encargo artístico mais problemático que El Greco teve de enfrentar nos 37 anos em que permaneceu em terras de Espanha. A controvérsia foi, a um tempo, teológica e comercial, coisas que andam mais ligadas do que por vezes julgamos. Na Espanha da Contra-Reforma, algumas liberdades criativas do pintor cretense geraram objecções e franzir de sobrolhos. O resultado final do seu génio não raro suscitou críticas, as quais foram esgrimidas, pasme-se, como argumento comercial para lhe saldar os preços. As atribulações negociais e judiciárias de El Greco encontram-se descritas ao pormenor num ensaio apaixonante de Rebecca J. Long, "El Greco"s Altarpieces: Artistic Ambition and Legal Frustration", publicado numa obra colectiva recentíssima, saída em Janeiro deste ano: El Greco. Ambition & Defiance..Explica Rebecca Long, curadora do Indianapolis Museum of Art, que, na Espanha do tempo de El Greco, vigorava a tasación, um sistema labiríntico, algo kafkiano, para calcular o valor de uma obra de arte comissionada por uma instituição ou por um particular. O artista recebia uma certa quantia à cabeça, geralmente de montante reduzido, para aquisição dos materiais e início dos trabalhos, podendo auferir uma remuneração adicional a meio da obra, se tal tivesse sido previamente convencionado com o patrono. Concluída a encomenda, artista e contratante nomeavam cada qual um avaliador e tentava-se chegar a um valor consensual, o que raramente acontecia..Aí começava a tormenta: escolhiam-se árbitros e o processo adquiria contornos quase judiciais ou, com frequência, totalmente judiciais, cabendo à justiça decidir o montante adequado para pagamento de obras que hoje temos por divinas, ou quase. O resultado de tudo isto era só um, e péssimo: o processo arrastava-se penosamente durante anos, sem que os artistas vissem um cêntimo que fosse pelo trabalho realizado..O tempo, claro, corria a favor das instituições contratantes, que tinham a garantia de que, acontecesse o que acontecesse, sempre durariam mais, em princípio, do que os desgraçados dos pintores e escultores, vergados, como todos nós, pela cruel lei da vida. Imortais eram as obras, não quem as criava. E, assim, era regra fatal que pintores, escultores e outros artífices acabavam quase sempre por aceitar um valor aproximativo e possível, jamais o que consideravam justo e merecido. A isso acresciam outras circunstâncias, todas desfavoráveis: afrontar para lá do razoável uma instituição como o cabido da catedral de Toledo implicava correr o risco de não mais arranjar encomendas, sacras ou profanas naquela cidade e, muito possivelmente, em quase todas as cidades de Espanha. Toda a cautela era pouca..As coisas complicavam-se ainda mais por um motivo simples, este subjectivo: El Greco não era propriamente um artista com problemas de autoestima; pelo contrário, tinha em alta conta tudo quanto produzia e, por isso, era frequente entrar em disputa com os seus patronos. Para agravar as coisas, vinha de Itália, terra que prezava as belas-artes e o génio plástico, país onde os pintores e os escultores tinham uma aura e gozavam de um estatuto impensáveis do lado de cá dos Pirenéus. Doménikos irritava-se, e há disso abundante prova documental, com o modo subalterno e proletário como os artistas aceitavam ser tratados na Espanha filipina..Preparava-se, pois, a tempestade perfeita. No primeiro embate, os representantes do cabido ofereceram pel'O Espólio a sovina soma de 227 ducados. Os mandatários do Greco valorizaram a tela em 900 ducados, quantia algo astronómica, mas justificada, disseram, pela "grandiosidade e pela beleza do episódio sagrado narrado no quadro" (argumentaram ainda com os tempos difíceis que então se vivia, ponto que não parece ter comovido os senhores padres de Santa María de Toledo)..Para depreciar a peça, mobilizaram-se argumentos teológicos. Disseram os sacerdotes que as cabeças de "três ou quatro" figuras da tela cometiam o sacrilégio de estar mais altas do que a de Cristo, o Rei dos Reis. Mais grave ainda, no canto inferior esquerdo, vá-se lá saber porquê, o Greco decidira colocar as três Marias, incluindo a Virgem e Maria Madalena, quando, segundo o relato evangélico (Mateus 27: 27-31), não havia notícia alguma da sua presença no momento do esbulho de Jesus - e que toda esta controvérsia tenha surgido a propósito de um quadro a óleo que retrata uma espoliação é algo que, naturalmente, dá que pensar a todos, crentes e não crentes. O árbitro veio à liça propondo a quantia de 318 ducados, mas com a cominação de que o pintor emendasse a mão e corrigisse as calinadas bíblicas que ousara plasmar na tela..Caiu-se num impasse, com cada um dos lados receoso do outro. Passaram meses, El Greco concluíra, entretanto, a majestosa obra de São Domingos (o Velho), o cabido da catedral começou a temer que o artista, furibundo e revoltado, abandonasse a cidade sem entregar o quadro e, pior ainda, sem restituir os 150 ducados que recebera a título de adiantamento. O pintor, por seu turno, também tinha fundado medo. Medo de que não lhe fizessem mais encomendas em Toledo e no resto de Espanha, uma terra promissora e rica para arranjar trabalho, o seu porto de abrigo após o deslize romano. E medo de que as autoridades o perseguissem, que lhe fizessem mal a si e à família, receio mais do que justificado atendendo a que chegaram a ponderar dar-lhe voz de prisão enquanto não entregasse o quadro..A querela só ficou resolvida em 1582. El Greco resistiu quanto pôde, mas, ao fim de quatro anos de contenda, acabou por ceder. Aceitou os 318 ducados propostos pelo árbitro, é certo, mas com uma pequena vingança: ao contrário do que lhe fora exigido, entregou o óleo magnífico sem fazer uma só das correcções impostas pelo cabido catedralício. E O Espólio lá está hoje em Santa María, espraiado por três metros de altura (285 cm x 173 cm), com as cabeças de algumas figuras acima da de Cristo e as três Marias em grupo, no canto inferior esquerdo, contemplando a erecção do Santo Lenho. Doménikos Theotokópoulos, é óbvio, nunca mais recebeu o patronato do cabido da catedral de Toledo, a mais rica e mais poderosa instituição de Castela..Nem isso apagou, porém, o tremendo sucesso d'O Espólio. Um êxito confirmado, desde logo, pelo facto de El Greco e a sua oficina terem feito numerosas reproduções da obra, em dimensões reduzidas, por vezes em miniatura, para uso em oratórios domésticos ou outros lugares devocionais. Algumas das cópias, contudo, não eram tão reduzidas assim; uma delas, que foi colocada no altar de uma capela privada, tem 165 cm x 98,8 cm e encontra-se hoje na Alte Pinakothek, em Munique. Eis uma primeira prova da fama alcançada pelo quadro (El Greco tinha o hábito de fazer cópias das suas criações mais famosas, uma forma de rentabilizar o trabalho e de sempre ir ganhando mais algum, que bem o merecia)..A segunda prova de glória foi o facto de, em 1585, o cabido da catedral lhe ter pedido que fizesse uma moldura opulenta para enquadrar o Cristo esbulhado e coitado. Talvez seja uma ironia terem-lhe pago mais pela moldura do que pelo próprio quadro, mas é preciso ver o que resta dessa moldura para percebermos o alcance da coisa. Só sobra hoje um pequeno trecho de madeira policromada, que mostra a Virgem a impor a casula a Santo Ildefonso, santo padroeiro de Toledo. A peça, intitulada justamente A Imposição da Casula a Santo Ildefonso, tem uma dimensão não muito grande (87 cm x 100 cm x 20 cm), mas deixa adivinhar o que seria a restante moldura, em grandeza e beleza. Vejam o que sobra, imploro: é simplesmente extraordinário..O sucesso de O Espólio é contemporâneo de outro triunfo, o da obra de São Domingos, trabalho de uma envergadura que El Greco nunca abraçara até então: oito telas a óleo de grandes proporções, cinco esculturas em tamanho natural para o altar-mor, a composição arquitectónica de três altares distintos, e mais o tabernáculo para guardar as hóstias. A sua oficina nunca tivera encomendas para obras escultóricas ou arquitectónicas e, talvez por isso, no contrato assinado com Diego de Castilla em Agosto de 1577, três meses após estar concluído O Espólio (mas antes, é óbvio, da querela da tasación), previu-se que o pintor fosse coadjuvado por Juan Batista Monegro, que foi um auxiliar precioso na estatuária e na arquitectura da capela. Talvez para cair nas boas graças de Castilla, El Greco moderara os preços - 500 ducados por toda a obra - e, ao que parece, não houve quezílias de dinheiros nem se suscitou, evidentemente, qualquer problema teológico....O mesmo não se dirá de outros trabalhos posteriores. Por volta de 1578, El Greco pintou A Adoração do Nome de Jesus, o qual, ao contrário do que se poderia supor, não resultou de uma encomenda de Felipe II para adornar o Escorial, sendo antes uma obra que o pintor fez por sua iniciativa, e a expensas próprias, com o intuito, mais do que patente, de cair nas boas graças do monarca. A composição é descaradamente graxista, evocando a vitória da Liga Santa sobre os turcos na batalha de Lepanto e dando lugar cimeiro ao Papa Pio V, ao doge veneziano Alvise I Mocenigo e, como é óbvio, a Felipe II..A manobra surtiu efeito e, não muito depois, Felipe contratou-o para pintar O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana para o altar de uma das capelas da Basílica do Escorial, mas o quadro acabaria por não ser exposto aí por melindres teológicos tão bizantinos e tão floreados que seria impossível resumi-los aqui. Seja como for, o certo é que Felipe parece ter apreciado a tela de um ponto de vista estritamente artístico e, mesmo sem ousar colocá-la num altar, teve-a exposta em diversos lugares do Escorial, onde hoje ainda se encontra, aliás. Quanto a contas, a tasación implicou a intervenção de um árbitro, mas o Greco foi pago à larga: 800 ducados, muito mais do que recebera pelo conjunto inteiro de São Domingos (o Velho). Infelizmente, Felipe nunca mais lhe fez encomenda nenhuma, não se sabe se incomodado na pureza sua fé, se escaldado pelos preços do afamado artista. E assim, e após o ostracismo a que fora votado pelo cabido de Santa María, Doménikos perdeu de uma penada os dois principais patronos artísticos com que poderia contar em Espanha..Nos anos que lhe restaram, continuou a ver-se grego para ganhar o que julgava merecer, e indiscutivelmente merecia. O Enterro do Conde de Orgaz, destinado ao altar da Igreja de São Tomé, gerou uma trapalhada enorme, no decurso da qual Doménikos chegou a ameaçar, em fúria, que iria levar o caso ao Papa. No final da demanda, resolvida nos tribunais, arrecadou a bela soma de 1200 ducados, mas, por essa e outras razões, as encomendas para obras sacras começaram a rarear e, nas décadas seguintes, praticamente não foi contratado para projectos em larga escala, tendo de sobreviver à conta de retratos e pinturas devocionais para clientes particulares..Mesmo aí, no entanto, houve questões de dinheiro: em 1597, o professor de Teologia Martín Ramírez de Zayas contratou-o para pintar vários retábulos da sua igrejinha privada, a Capela de São José, em Toledo. As obras deslumbraram o patrono, mas o seu valor só foi decidido, como sempre, na barra dos tribunais. Desta feita, Doménikos não se saiu mal: 2850 ducados, uma pequena fortuna. Das telas que fez para a capela, actualmente só quatro permanecem in situ, com destaque para São José e o Menino Jesus, um prodígio encantador, e para a espantosa A Coroação da Virgem..A Capela de São José, um dos tesouros escondidos de Toledo, é propriedade privada e, até há poucos anos, inacessível ao público (um acordo feito recentemente permite visitá-la na segunda terça-feira de cada mês, apenas durante meia hora, das 18.00-18-30, e só mediante marcação prévia). Em 2014, por ocasião do Ano El Greco, a capela foi aberta enquanto duraram as comemorações do centenário do pintor. Fui lá de propósito, com partida de Lisboa, de manhãzinha, e regresso a casa no mesmo dia. A viagem, cansativa, decerto terá custado milhares de ducados na moeda antiga - mas não, não me arrependo nada..Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.