O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

Assim se compreendem as palavras pronunciadas nesta semana pela embaixadora americana junto das Nações Unidas, Kelly Craft, quando foi chamada a introduzir, perante a Assembleia Geral da ONU, a intervenção do seu chefe. As breves palavras de Craft procuraram transmitir apenas uma mensagem. Disse que Donald Trump é um líder que dá um valor especial à procura da paz. Mencionou, de seguida, as iniciativas relacionadas com Israel, os Emirados Árabes e o Bahrein, o acordo económico assinado na Casa Branca entre a Sérvia e o Kosovo, a Coreia do Norte, um país que desapareceu das notícias e que por isso pode ser apresentado como bem-comportado, e ainda o início das conversações entre afegãos, com o apadrinhamento americano.

Depois, falou o presidente. O seu discurso borrou a imagem de líder preocupado com a paz. Se os tempos de hoje fossem regidos pelas normas diplomáticas habituais, as palavras do presidente Trump deveriam ser vistas como um prenúncio de uma declaração de guerra à China. Este país foi apresentado como o causador da pandemia de covid-19 e da crise económica global que lhe está associada. Foi igualmente apontado como o maior poluidor de terra, mar e ar.

Tratou-se de um ror de acusações aos outros e de louvores a si próprio e aos sucessos que a sua administração teria obtido em vários domínios, da resolução de conflitos à redução das emissões de carbono. Tudo com os olhos postos nas eleições de novembro.

Mas não nos equivoquemos. A diatribe contra a China tem consequências profundas e prolongadas na vida política e na psique americanas. É algo que irá marcar as relações internacionais dos Estados Unidos, esteja ou não Trump à cabeça do país. A classe política, os círculos militares e vários setores da academia, da intelectualidade e da sociedade americana veem na ambição externa da China uma ameaça vital para o papel dos Estados Unidos no mundo. Para uns é uma questão de hegemonia política ou de interesses económicos, para outros haverá uma dimensão ética e de valores democráticos, quando pensam numa China que se transforma em superpotência. A década que temos pela frente vai ser marcada pela rivalidade obstinada entre estes dois colossos. Os que pensam que a União Europeia poderá servir de contrapeso e de equilíbrio perante essa competição deveriam pôr a sua imaginação estratégica a trabalhar desde já. Não escondo, no entanto, a minha preocupação no que respeita ao conflito crescente entre os Estados Unidos e a China nem o meu ceticismo em relação à eficácia estratégica da política externa europeia.

Voltemos à Assembleia Geral e à comunicação do presidente Trump. Para além da invetiva contra a China e da propaganda eleitoral, o discurso enunciou o que parece ser uma agenda para as Nações Unidas, na versão de Washington. Às questões da paz - a área dos capacetes azuis é uma prioridade não só para os americanos, mas para muitos mais; a única questão é que as principais recomendações da Comissão Ramos-Horta (2015) e as subsequentes ilações políticas continuam por aplicar, havendo uma desconexão entre as operações militares e o trabalho político das missões - o presidente acrescentou a luta contra o terrorismo, a opressão das mulheres, o tráfico de pessoas e drogas, as perseguições étnicas e religiosas. Fez ainda uma referência especial aos direitos humanos.

É evidente que não falou dos impasses que entravam o bom funcionamento do Conselho de Segurança, da marginalização da ONU e do sistema multilateral, que tem sido uma marca do seu mandato, nem da falta de apoio ao secretário-geral. Mas o que disse de positivo deve ser aproveitado para que se possa dar uma nova visibilidade às Nações Unidas e relançar a cooperação internacional. Quanto ao resto, depois de novembro se verá.

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-Representante Especial da ONU

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