Premium A escolha de Marieke Vervoort

"Vivi coisas com as quais a maioria das pessoas só pode sonhar." Esta foi a frase da atleta paralímpica belga Marieke Vervoort, campeã em mundiais e com quatro medalhas nos Jogos Paralímpicos, que decidiu morrer na terça-feira passada, aos 40 anos, por sua decisão, com aprovação de dois médicos e para interromper a dor terminal. Com recordes nacionais e europeus, brilhou em mundiais e conquistou quatro medalhas em Jogos Paralímpicos: ouro e prata nos 100 e 200 metros em Londres (2012) e bronze e prata nos 100 e 400 metros no Rio de Janeiro (2016). É esta a memória - de vitória - que nos deixa. Diagnosticada aos 14 anos com uma doença degenerativa, a luta, para ela, tal como a conquista, foi uma constante que lhe definiu a vida. Vai ficar-me como incontornável, para além do seu exemplo, a sua frase: "Vivi coisas com as quais a maioria das pessoas só pode sonhar." Marieke teve inclusivamente algo que poucos têm - a possibilidade de decidir sobre a última memória que deixamos de nós mesmos.

Qualquer conceção da vida engloba a certeza do seu fim e nenhuma até hoje se revelou absoluta e cabal quanto à sua origem. Civilizacionalmente e ao longo da história do ser humano, não têm sido muitas as explicações para a vida, a sua origem e o seu fim? Tem sido a ciência, ao longo dos tempos, a permitir-nos uma reflexão sobre os valores que têm orientado a explicação da vida e da morte. O próprio modo como vivemos tem sido influenciado por princípios estabelecidos em sociedade e assentes em noções socioculturais, políticas e até religiosas. Como exemplo pela positiva de uma noção-chave, e sempre por associação a conquistas democráticas, temos o conceito de dignidade. O direito à dignidade, com expressão jurídica e constitucional, pressupõe um espaço de autodeterminação até por associação ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade. Mas não só. Dignidade implica também a liberdade das decisões sobre a própria vida, sendo que as mesmas serão respeitadas. Nesse sentido, poderá alguém dizer que Marieke deixou uma memória pouco digna de si mesma? Para mim e muitos outros, que creio serem cada vez mais, é claro que não.

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