Adeus Maradona. O ídolo do povo argentino e um deus para o futebol

Diego Armando Maradona morreu aos 60 anos vítima de uma paragem cardiorrespiratória. Foi um dos maiores génios de sempre com a bola nos pés. Para sempre fica o jogo com a Inglaterra, no qual marcou o golo do século e enganou toda a gente com "a mão de deus".

Diego Armando Maradona, uma das maiores estrelas da história do futebol, morreu nesta quarta-feira, aos 60 anos, na cidade de Tigre, na província de Buenos Aires, onde estava a viver.

A notícia foi avançada pelo jornal argentino Clarín e confirmada pela Associação de Futebol Argentina. O antigo futebolista morreu de paragem cardiorrespiratória em casa, onde se encontrava a recuperar de uma cirurgia à cabeça. A notícia deixou o povo argentino em choque e o Governo já decretou três dias de luto nacional.

O mês de novembro foi difícil para Maradona. Foi internado numa clínica privada de La Plata e depois transferido para a Clínica Olivos, em Buenos Aires, para lhe ser retirado um coágulo que se tinha formado no cérebro. A cirurgia acabou por correr bem, embora os médicos já esperassem uma difícil recuperação.

Segundo o jornal argentino Olé, na manhã desta quarta-feira (25 de novembro), Maradona levantou-se bem e deu uma caminhada, como fazia habitualmente. Depois voltou a deitar-se. De acordo com o diário, toda esta rotina foi acompanhada por uma psicóloga, uma psiquiatra e pela enfermeira que seguia a sua recuperação.

Ao meio-dia (15.00 em Portugal continental), quando o foram acordar para lhe dar a medicação, Maradona já não respondeu. Na sequência do alerta foram enviadas para a casa do antigo futebolista quatro ambulâncias, mas, apesar da rapidez do socorro, era demasiado tarde. Já estava morto, conta o Olé.

De acordo com o Clarín, a família e as pessoas mais próximas achavam que Maradona andava muito ansioso e nervoso, por isso foi posta de parte a ideia de o ex-jogador fazer a sua reabilitação em Cuba, onde há uns anos fez um tratamento devido à sua dependência da droga.

A marca de génio de D10S

Diego Maradona nasceu a 30 de outubro de 1960 em Lanús, na província de Buenos Aires, tendo-se tornado um dos maiores ícones da história do futebol.

Se Pelé foi o rei, Maradona foi deus para os seus fiéis seguidores. Na realidade, foi "D10S" (uma fusão de deus com o dez que sempre usou na camisola) e diabo do futebol mundial nas décadas de 1980 e 1990, génio tão excessivo no relvado como fora dele.

Com a bola colada ao seu pé esquerdo, Diego Armando Maradona (também ele ganhou este direito a ver o nome completo nos jornais) era capaz de conquistar o mundo. E conquistou-o, carregando na sua canhota (e uma mão que ele tornou divina) todos os sonhos argentinos até à vitória no Mundial de 1986, tal como carregou também todos os sonhos napolitanos contra os ricos do norte de Itália nos dois títulos de campeão improváveis que venceu com a camisola do Nápoles.

Maradona caiu apenas perante si próprio e os seus demónios. Tudo nele foi excessivo. As drogas acabaram por cortar uma das mais belas histórias que os relvados do futebol conheceram, com um par de controlos antidoping positivos (um deles em pleno Mundial'94) a precipitar o final de carreira de El Pibe, o génio puro capaz de driblar meia seleção inglesa para marcar o "golo do século", nesse Mundial de 1986, com a mesma facilidade com que encantava as bancadas simplesmente a dar infindáveis toques sucessivos numa pastilha elástica no aquecimento para um jogo.

As cinco vertentes da vida de El Pibe

A vida de Maradona foi repleta de episódios rocambolescos, mas também de grande "amor" dos adeptos do futebol por aquilo que o argentino representa e representou na sociedade. Aqui ficam vários exemplos da importância daquele que foi considerado, com o "inimigo" Pelé, um dos melhores futebolistas do mundo.

Maradona foi um dos maiores ídolos do futebol mundial, e há registos que o podem comprovar. O astro argentino conquistou o título de campeão mundial em 1986 e em 2000 foi eleito pela FIFA como o jogador do século XX, a par do brasileiro Pelé. À dezena de títulos que conquistou pelos clubes onde passou, El Pibe juntou uma série de galardões individuais. Mais do que isso, ele foi a grande fonte de inspiração para uma geração de futebolistas argentinos, Lionel Messi (por muitos apontado como o seu sucessor) incluído.

A arte de Maradona serviu de inspiração a mais de uma dezena de músicas, tanto na Argentina, com temas como Maradó, interpretado pelo grupo Los Piojos, como no resto do mundo. Manu Chao, por exemplo, escreveu dois temas sobre o mago do futebol mundial: Santa Maradona e La Vida Es Una Tambola, que serviu de banda sonora ao documentário do realizador bósnio Emir Kusturica sobre a vida do craque. Além deste documentário, Maradona foi tema de vários outros filmes, como a produção argentina El Camino de San Diego.

Maradona apareceu nas páginas da imprensa muitas vezes pelos piores motivos. Foi inúmeras vezes considerado mau exemplo pelo uso de drogas ou pelas relações extraconjugais, que lhe valeram um filho fora do casamento, Diego Sinagra, que também se tornou futebolista em Itália. Fora dos relvados também, Maradona foi até apresentador de televisão na Argentina do programa La Noche del 10, estreado em 2005 e no qual entrevistou, entre outros, o rival Pelé.

A divindade do futebol de Maradona serviu de mote para a fundação em 1998 da Igreja La Mano de D10S ("A mão de Deus", escrita em combinação com o número do craque), uma paródia de religião com rituais concebidos à imagem da Igreja Católica. Existe o Natal Maradoniano, que comemora a data em que o ex-craque faz anos, e a Páscoa Maradoniana, que se celebra a 22 de junho, data em que El Pibe apontou o "golo do século" no México'86. A igreja tem altares em honra do camisola 10 e organiza casamentos, onde os noivos têm de levar os cabelos aos caracóis e um número 10 cosido nas costas do fato.

Maradona era sobretudo crítico das políticas da FIFA, mas à medida que foi amadurecendo foi revelando a sua consciência política. Depois de ter apoiado o presidente peronista Carlos Menem, El Pibe tornou-se cada vez mais um militante de esquerda, apoiante da Revolução Cubana. Tinha os rostos de Fidel Castro e de Che Guevara tatuados e revelou também o seu apoio ao presidente venezuelano Hugo Chávez, com quem manteve uma relação estreita. Dizia-se avesso ao imperialismo norte-americano e chegou até a oferecer uma camisola sua ao povo do Irão.

De Ronaldo a Mourinho. O mundo despede-se de Diego

Após saber da notícia da morte de Diego Armando Maradona, o mundo do futebol tem reagido à perda de um dos melhores jogadores de todos os tempos, com algumas figuras portugueses a não deixarem de fazer o seu tributo a El Pibe.

Cristiano Ronaldo publicou uma fotografia com o argentino nas redes sociais. "Hoje despeço-me de um amigo e o Mundo despede-se de um génio eterno. Um dos melhores de todos os tempos. Um mágico inigualável. Parte demasiado cedo, mas deixa um legado sem limites e um vazio que jamais será preenchido. Descansa em paz, craque. Nunca serás esquecido", escreveu CR7.

Já José Mourinho, de quem Maradona era fã, postou várias fotos dos dois. "Don Diego... porra, amigo vou sentir a tua falta", escreveu o treinador do Tottenham.

Também os clubes portugueses têm prestado homenagem ao ex-futebolista e treinador que nesta quarta-feira morreu, aos 60 anos.

O Sporting publicou uma fotografia de Maradona com a camisola do clube e citou-o: "Se morrer, quero voltar nascer e quero ser futebolista. E quero voltar a ser Diego Armando Maradona. Sou um jogador que deu alegria ao povo e isso basta-me e sobra-me."

O Benfica foi mais sucinto e postou uma foto de Maradona ao lado da grande figura do clube encarnado, Eusébio. "AD10S, El Pibe", escreveu.

Já o FC Porto publicou uma fotografia do antigo craque com a camisola azul e branca... da Argentina. "O futebol está mais pobre, o legado permanece. Obrigado pelas memórias, Diego Armando Maradona", escreveram os dragões.

Quem também se despediu de Maradona nas redes sociais foi Pelé, com quem o argentino nem sempre teve uma relação fácil, muito por culpa do rótulo de melhor jogador de todos os tempos. "Que notícia triste. Eu perdi um grande amigo e o mundo perdeu uma lenda. Ainda há muito a ser dito, mas, por agora, que Deus dê força para os familiares. Um dia, espero que possamos jogar à bola juntos no céu", escreveu o antigo craque brasileiro.

Considerado o grande sucessor de Diego Maradona, Lionel Messi fez questão de se despedir do seu antigo selecionador. "Um dia muito triste para todos os argentinos e para o futebol. Deixa-nos, mas não vai embora, porque o Diego é eterno. Fico com todos os momentos lindos vividos com ele e queria aproveitar para enviar as condolências a toda a sua família e amigos. Descanse em paz", escreveu.

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