O covid-19 nos países para onde não estamos a olhar

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O covid-19 nos países para onde não estamos a olhar

Itália, Espanha, China e EUA estão em sobre-exposição na pandemia do coronavírus. Mas o que acontece nos países que não estão nas notícias, como México, Suécia ou Tailândia?

Nas últimas semanas temos falado muito de alguns países mais afetados pelo covid-19, mas a pandemia está já presente em 196 países e territórios do globo. Alguns destes locais, menos falados, serão determinantes para o desfecho do combate à pandemia, seja pela sua dimensão, pela sua interligação ao resto do mundo, ou apenas por representarem exemplos daquilo que acontece em muitos outros contextos semelhantes. Olhamos aqui para eles.

Ásia


É da Ásia que têm chegado alguns dos exemplos de maior sucesso, mas é também lá que se situam alguns dos locais mais vulneráveis à pandemia. Junto à China, país onde teve início a pandemia de covid-19, situa-se a Tailândia. Este é um país considerado, desde o primeiro momento, como sendo de alto risco - Banguecoque, a capital, é uma das cidades com mais ligações a Wuhan, epicentro do covid-19.

Apesar disso, a atitude do governo vinha sendo muito relaxada, não tendo sido imposto qualquer limite à vida dos tailandeses até meados de março. Entretanto, o aparecimento rápido de casos tem vindo a assustar a população e, a partir de quinta-feira, este país estará em estado de emergência durante um mês.

Neste momento, a Tailândia conta 827 casos e quatro mortes oficialmente confirmados, mas ainda a 19 de março contava apenas 200 casos. A rápida subida fez fechar escolas e cancelar eventos, incluindo os famosos combates de muay thai, e levou a população às suas casas. O cenário é semelhante em países vizinhos como as Filipinas ou o Myanmar, sendo este último um país com um sistema de saúde já muito fragilizado.

Estranhamente, a Indonésiarecusa medidas restritivas obrigatórias, apesar de contar já 685 casos e 55 mortes, e aposta na capacidade de as pessoas se isolarem voluntariamente. O país está a desenvolver a sua capacidade de testar a população e designou duas ilhas para receber os indivíduos em quarentena. Além disso, Jokowi, diminutivo pelo qual é conhecido o presidente, anunciou a distribuição de fármacos antimaláricos, recentemente envolvidos em controvérsias por uma suposta capacidade de melhorar os resultados dos doentes com covid-19, mas ainda sem evidência científica que o comprove.

Um dos países mais vulneráveis a esta pandemia será a Índia. Com os seus 1,3 mil milhões de habitantes, muitos deles a residir em slums, uma espécie de bairros de lata sem condições sanitárias e sem capacidade de isolamento, a Índia representa quase um quinto da população mundial, que por 21 dias estará confinada às suas residências, anunciou nesta segunda-feira o primeiro-ministro Modi.

A Índia conta neste momento 519 casos e dez mortes, oficialmente, mas a Aljazeera avança estimativas que fazem o número de casos chegar perto do milhão. As visitas de cerca de 90 mil indianos emigrados, que costumam voltar no inverno por alguns dias, serão uma agravante difícil de controlar.

No extremo ocidental do continente asiático temos a Turquia, país que já tinha ordenado o encerramento de escolas, bares, restaurantes e outros espaços comerciais e públicos ainda antes de chegar aos 20 casos confirmados. Entretanto, os números têm subido com grande velocidade até aos 1529 casos e 37 mortes, mas suspeita-se que os números oficiais sejam maiores.

Cenário idêntico pode ser observado na Rússia, onde Sergei Sobyanin, mayor de Moscovo, ontem confessou que muitos doentes simplesmente não são testados. Isso pode explicar o número baixo de casos, 495.

África


Ainda em fevereiro, Bill Gates lançou o aviso: África poderia viver uma situação pior do que a situação chinesa. 2137 casos e 62 mortes depois, podemos perceber melhor este continente dividindo-o em dois grupos, já nossos conhecidos: a África mediterrânica e a África subsariana.

Na África mediterrânica, o principal país afetado é o Egito, e de forma preocupante. Os casos oficiais não são muitos, mas suspeita-se que a carga de doença estará bem acima dos números conhecidos. Uma das razões para essa suspeita prende-se com a quantidade de casos identificados noutros países com ligação epidemiológica ao Egito. No início desta semana, o primeiro-ministro egípcio anunciou um recolher obrigatório noturno, mas a atividade diurna ainda não foi restringida, incluindo a atividade religiosa, que tem levado a concentrações de fiéis que, do ponto de vista da saúde pública, devem ser evitadas. Apesar de tudo, os países da África mediterrânica (e a África do sul) têm melhores condições para fazer face a esta pandemia.

Pelo contrário, no resto do continente, o cenário não é particularmente animador. O vírus já estava presente em 43 países à data desta segunda-feira, e já há mais de mil casos em todo o continente. Tem havido um grande foco por parte da Organização Mundial da Saúde e de organizações internacionais e ONG no reforço da capacidade de diagnóstico e tratamento em África, e o CDC da União Africana tem feito os possíveis, mas será difícil combater o covid-19 em países onde as economias são frágeis e as populações não podem deixar de trabalhar, em alguns casos, nem apenas por um ou dois dias, já que precisam do trabalho diário para poder alimentar famílias e comunidades.

Apesar de a população africana ser mais jovem do que a europeia ou a norte-americana, convém lembrar que a carga de doença em África é extensa, e é lá que se concentra grande parte dos doentes de um grupo de risco em particular: os doentes com VIH.

América Latina

Em Portugal muito se tem falado do Brasil, em parte devido às polémicas com o presidente Bolsonaro, mas um dos países a vigiar será o México. O presidente mexicano, conhecido como AMLO, seguiu a estratégia comum aos líderes mais anticiência e começou por garantir que o vírus não atacaria o México, e que seria hora de abraços e beijos sem medo. Alguns dias depois, o México sofre uma tendência de crescimento semelhante à maior parte dos restantes países, com 367 casos confirmados e quatro mortes, e AMLO não parece estar a mudar de estratégia.

Ainda nesta semana o presidente mexicano esteve num comício onde beijou e abraçou os seus apoiantes, e o discurso tem apostado na desvalorização da crise de saúde pública e na importância de não pôr em causa a atividade económica. As medidas mais recentes incluem um alargamento da pausa escolar na Páscoa e uma suspensão de eventos em público por um mês, mas sempre com cuidado de não interferir demasiado com a atividade económica - por exemplo, o México não baniu voos para proteger a atividade turística, responsável por cerca de 8% do PIB.

Infelizmente, é uma estratégia que vimos em alguns outros países, onde entretanto foi já revertida, com grandes danos para a saúde das populações. Sendo o México um Estado federal, as respostas mais duras têm partido dos governadores dos estados e dos presidentes de câmara, que já vão reduzindo a atividade nas ruas e incentivando a população a isolar-se.

Europa

Longe das atenções dadas a Itália, França ou Espanha estão os países nórdicos. Este grupo, que normalmente coordena as suas políticas, viu a Suécia afastar-se do consenso do "achatamento da curva" e adotar a estratégia da "imunidade de grupo".

A economia sueca é uma exceção europeia por se manter em funcionamento quase na totalidade. Os números são difíceis de interpretar: embora o número de casos seja de 2526, ou seja, não se distinga pela negativa de outros países, os critérios para teste são extremamente apertados e só os doentes com maior sintomatologia e necessidade de cuidados hospitalares acabam por ser testados.

O número de mortes, 42, será provavelmente um indicador mais fiável para avaliar o sucesso da estratégia sueca daqui em diante, uma estratégia que começou por ser partilhada com outros países que, entretanto, mudaram de rumo e se juntaram ao consensual "achatamento da curva".

*Estudante de medicina

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