São eleições com um vencedor antecipado, mesmo que no boletim de voto haja três candidatos, sendo a única dúvida saber se Bashar al-Assad consegue fazer melhor do que em 2014, quando obteve 88,7% dos votos. Num país destruído por uma década de guerra e uma economia marcada pelas sanções internacionais e onde, segundo as Nações Unidas, mais de 80% da população vive na pobreza, as eleições são só uma forma de o presidente sírio reforçar o poder. E, ao mesmo tempo, lembrar aos que o apoiam desde fora - a Rússia e o Irão - que ele é a única opção..A campanha de Assad, sob o slogan "esperança pelo trabalho", foca-se na ideia de que ele ganhou a guerra e tem grandes ideias para a reconstrução da Síria. E apresenta-o como o único capaz de lidar com a reconstrução depois do caos de uma década de conflito. Para Nicholas Heras, do Newline Institute em Washington, a campanha tem como alvo não os eleitores, mas os apoiantes internacionais, apresentando o presidente como o único que pode garantir a estabilidade..Assad, de 55 anos, está há 21 na presidência, tendo sucedido ao pai, Hafez al-Assad, que tinha chegado ao poder em 1970 num golpe de Estado. Em 2000 e 2007 foi eleito por referendo, sendo o único candidato no boletim de voto, mas desta vez, tal como em 2014, tem adversários. Dos 51 potenciais candidatos, o Tribunal Constitucional só aprovou outros dois: Abdullah Salloum Abdullah e Mahmoud Ahmed Marei..O primeiro é antigo vice-ministro dos Assuntos Parlamentares (2016 - 2020) e ex-deputado pelo Partido Socialista Unionista, concorrendo como independente visto o seu partido ter apoiado a candidatura de Assad. O segundo é o líder da Frente Democrática Nacional, um partido da oposição tolerado pelo regime. Ambos são licenciados em Direito..Para verem a sua candidatura aceite pelo Tribunal Constitucional, tiveram que ter o apoio de pelo menos 35 membros do parlamento (são 250 no total). Os potenciais candidatos também tinham que ter vivido continuamente na Síria na última década, o que afastava a hipótese de algum membro da oposição no exílio se candidatar. Todo o processo eleitoral, desde a seleção dos candidatos até à contagem dos votos, está sob o controlo de Assad, que através das eleições tenta legitimar-se..Observadores da Rússia, Irão, China, Venezuela e Cuba foram convidados para observar o escrutínio, sendo que EUA, França e Reino Unido, além de outros países ocidentais, já rejeitaram à partida o resultado. Uma ação que Moscovo considerou "inaceitável"..A guerra que dura há uma década e matou mais de 388 mil pessoas deixou um país destruído e as eleições só vão ocorrer nos dois terços do país que Assad controla - em 2014, a oposição dizia controlar dois terços da Síria, mas o presidente deu a volta à situação a partir de 2015 com o apoio da Rússia e do Irão. Atualmente, só a região de Idlib, no noroeste, administrada pelos curdos, e os protetorados turcos continuam a estar fora do seu domínio..Os sírios no exterior também puderam votar em dezenas de embaixadas, mas houve países como Alemanha ou Turquia que impediram o voto. Para votar, os eleitores tinham que apresentar um passaporte válido com o carimbo de saída da Síria, uma exigência que impediu milhões de refugiados, que fugiram do país durante a guerra, de participar. Há 6,6 milhões de refugiados sírios (1,5 milhões deles só no Líbano), e mais 6,2 milhões de deslocados internos..No Líbano, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) recebeu uma série de queixas sobre os sírios que foram alvo de assédio e ameaças para participarem nas presidenciais. Mas nas redes sociais, muitos libaneses criticaram os apoiantes de Assad por irem votar, alegando que se eles apoiam o regime, então podem voltar para o seu país. Houve cenas de violência contra alguns eleitores..1970: Hafez chega ao poder.Ministro da Defesa sírio, Hafez al-Assad derruba Nureddin al-Atassi num golpe militar a 16 de novembro de 1970. Líder do partido Baath (nacionalista pan-arabista) é eleito presidente a 12 de março de 1971. Era o único candidato. É o primeiro líder a sair da minoria alauita (xiita)..1973: guerra com Israel.Egito e Síria lançam um ataque surpresa contra Israel a 6 de outubro de 1973, na esperança de reconquistar o território perdido na Guerra dos Seis Dias em 1967. A Síria acaba por ter que entregar os Montes Golã, no acordo de paz de 1974..1976: intervenção no Líbano.As tropas sírias intervêm na guerra civil libanesa, após o apelo das forças cristãs, com o aval dos EUA. Por três décadas, a Síria será a força política e militar dominante no Líbano..1982: repressão brutal.Regime reprime insurreição da Irmandade Muçulmana em Hama, em fevereiro de 1982. Morreram entre dez mil e 40 mil pessoas. Em 1979, grupo fora acusado de matar 80 cadetes militares alauitas em Aleppo..1990: aproximação aos EUA.Depois da queda da URSS, com quem assinara um acordo de Amizade e Cooperação uma década antes, Síria aproxima-se dos EUA. Coopera na coligação contra Saddam Hussein, após o Iraque invadir o Koweit..2000: Bashar chega ao poder.O herdeiro político de Hafez era o filho mais velho, Bassel, mas este morreu num acidente de carro, em 1994. Bashar, que estudava oftalmologia em Londres, volta para a Síria. Quando o pai morre, a 10 de junho de 2000, com 69 anos, assume o poder, ganhando um referendo com 97% dos votos. Há apelos de abertura que são calados nos primeiros meses..2011: Primavera Árabe.Gritos de liberdade espalham-se pelo Médio Oriente, mas o regime reprime com violência os protestos, arrastando o país para a guerra que já dura há uma década. Com o apoio do Irão e da Rússia, Assad controla quase dois terços do território..susana.f.salvador@dn.pt