Lá fora, a telescola portuguesa salva o ano perdido de alunos sem aulas

Educação

Lá fora, a telescola portuguesa salva o ano perdido de alunos sem aulas

Não só em Portugal, mas um pouco pelo mundo fora, as aulas do #EstudoEmCasa são a solução para aqueles que não têm alternativas às aulas presenciais, suspensas pela pandemia. No Brasil, Laura não perde as aulas de Educação Física e Artística. No Canadá, Jacob aprende a língua materna do pai.

"A cada duas semanas, a gente dá uma volta pequenina de carro, só para a Laura ver a cidade. Voltamos para casa e acabou." O passeio torna-se apenas mais uma memória entre as poucas capazes de se construir por agora e a família da brasileira Mariana Pasquarelli, 33 anos, regressa ao dever de confinar na sua casa. Os tempos não são para menos. Em São Paulo, mais propriamente no município de Sorocaba, os dias contam-se a medo. A quarta região mais populosa do interior da cidade, com 671 186 habitantes, registou um aumento de 50% dos casos de covid-19 só na última semana, passando de 423 para 548.

"Diversão, aqui, só na televisão, nas aulas de Educação Física e Educação Artística", conta Mariana, mãe de Laura, de oito anos, estudante assídua da nova telescola portuguesa, criada ao abrigo do Ministério da Educação. As vozes das professoras e dos professores do #EstudoEmCasa não só ecoam em Portugal, esbatendo desigualdades nas salas de estar de várias casas. Viajam quilómetros pelo mundo para dar o que outros sistemas de ensino privaram aos seus alunos.

Uma (tele)escola em português com sotaque paulista

Na casa de Mariana, admite, são raros os minutos em que a televisão não está ligada num canal português. O marido é neto de portugueses e o timbre fadista faz-lhe falta. "Adora Portugal e gosta de ver coisas de Portugal." Num destes dias, enquanto assistiam ao telejornal da SIC, a surpresa assaltou-lhes o rosto quando viram ser anunciado o arranque das aulas da RTP Memória. No seu sotaque paulista, não escondeu o entusiasmo: "Nossa, que oportunidade! Graças a Deus!", recorda. E não poupa a ideia de elogios: "Fizeram um cenário, tiveram uma preocupação, um carinho. Estou impressionada pra caramba."

Desde que as ruas do Brasil pararam para ver sambar o Carnaval de todas as cores e silhuetas, tudo mudou. Foi por volta dessa altura que a pequena Laura trocou a sala de aula pela sala da casa. Já não era tempo de festa, estava provado. "Lembro-me que houve uma semana que resolvemos não mandá-la [para a escola], porque já estávamos a registar casos. Até porque nessa altura não era obrigatório ir, eram atividades de Carnaval. Depois, a escola fechou".

Uma semana mais tarde, os pais foram chamados à escola "para pegar um livro de Português e Matemática, com exercícios para eles fazerem em casa", conta. Não havia mais nada nos planos para a educação. Nem orientações às escolas vindas da tutela - à semelhança do que ocorreu em Portugal -, deixando o sistema e aqueles que dele dependem à mercê da vontade de cada professor. "Por conta dela, não porque é obrigatório, a professora criou um grupo de WhatsApp para falar com eles e a Laura todos os dias entra para falar com a professora, mostra o que fez nas aulas da televisão."

Já lá vão os dias em que estudar se tornava cada vez mais numa obrigação aborrecida que tanto exigiam a Laura, sempre um passo à frente de todas as engrenagens. "Ela gosta muito de estudar. Não sei se é por ela nos ver lendo muito e vendo o jornal. Na escola, ela é a aluna mais adiantada da sala, a professora tem de dar alguma coisa para ela não se aborrecer", conta Mariana. Com a telescola portuguesa, os dias têm outro fim. Com a matéria "um pouquinho mais avançada", Laura já "não fica frustrada" ao assistir às aulas de 3.º e 4.º ano. "Está a desafiá-la e ela adora."

Nem o português da Europa é matéria estranha nos seus dias. Mariana conta que, no que toca às expressões idiomáticas da língua de Camões, "ela já é melhor" do que a mãe. "Até diz que, quando for mais velha, vai morar para Portugal. Isto aqui não está fácil" e Laura sabe-o. Vai treinando o sotaque, entre artes plásticas e umas piruetas no quarto. As aulas preferidas são as de educação artística e educação física. "De vez em quando, vou encontrá-la lá no quarto cheia de panela, vassoura, a fazer a aula. Eles pedem uma lista de material para a próxima aula e ela me avisa o que precisa."

Entretanto, a palavra já correu entre pais. Mariana Pasquarelli fez questão de partilhar a novidade com outros pais, que estão a adotar as aulas do #EstudoEmCasa.

No Canadá, todos os dias são de RTP, uma vez por semana de telescola

A palavra já corre aquele canto do Brasil, mas não só. Lá no topo do globo, a boa nova também chegou.

Denise Carreira tem nome português, mas é nascida e criada no Canadá, mais propriamente em Vancouver. O histórico de vida denuncia-lhe o sotaque, um português de meia palavra, atraiçoada pela língua inglesa, quando calha. De Portugal, tem gravada a decisão dos seus pais de emigrarem para o outro lado do Atlântico e os anos que trabalhou em escolas portuguesas como professora de inglês. Regressaria ao Canadá de mão dada com um português, que deixou a família para trás para ir morar com ela em Vancouver. Acabaram por casar e são hoje pais do pequeno Jacob, de nove anos. Denise ainda leciona inglês, no ensino secundário - nestes tempos que correm, fá-lo à distância.

Mas a língua portuguesa é presença habitual também nesta casa. "Já vemos às vezes a RTP em casa, o meu marido está sempre a ler as notícias, lê o Diário de Notícias, a Bola", conta Denise. Foi na televisão que "viu que os portugueses iam ter aulas na televisão". "O meu marido até se lembrou de que via, há muitos anos, aulas como estas na televisão. Disse-me logo: "Olha, é como a telescola, mais ou menos". Ele esteve em França, uns anos, e os pais conseguiam mostrar-lhe estas aulas."

A boa memória destes tempos fez o pai de Jacob não duvidar de que seria uma boa alternativa ao ano letivo do filho travado pela pandemia. Até ao final da semana passada, o Canadá registava um total e 82 420 casos positivos de covid-19 e 6245 óbitos. Pela força dos números, a primavera canadiana retrocedeu. Em Vancouver, professores e alunos viram as escolas fechar durante a suspensão letiva à qual designam "spring break".

"Aqui, não tínhamos muitos casos, mas a decisão foi nacional. As escolas só ficaram abertas para os social workers, os profissionais de saúde" e outros trabalhadores essenciais na linha da frente [tal como aconteceu em Portugal], recorda Denise Carreira, que a partir daqui teve de assegurar o ensino do filho em casa. "A professora enviou umas fichas em papel, de vez em quando manda uns e-mails, mas eu é que tenho de apoiar o ensino dele". Por escolha da maioria dos pais, aliás, é que ficou assim decidido, que a aprendizagem passaria a ser assegurada com o seu apoio. "Acho que o meu filho gostava de mais apoio, de ver a professora, mas ela perguntou aos pais como queriam que fosse - online ou só envio de fichas - e a maioria disse que queria assim. Porque para eles estarem a ligar o computador à mesma hora poderia ser bastante difícil."

Na amargura dos dias, num "balanço difícil entre o trabalho e o resto", Denise encontrou na telescola da RTP a oportunidade para que Jacob pudesse continuar a lidar com uma figura docente, enquanto aperfeiçoava o seu português. Uma ou duas vezes por semana, o aluno de nove anos senta-se em frente à televisão para assistir às aulas de Português do 1.º e 2.º anos - "porque aqui ainda não está avançado" - e Matemática do 3.º e 4.º anos.

Tem sido um sucesso lá por casa. "Ele consegue estar a ver, a escrever, a pintar, enquanto está em frente à televisão. É uma coisa mais humana, porque está ali um professor ou uma professora."

Em Portugal, a telescola bate recordes de audiência na RTP Memória. Lá fora, colmata os efeitos de governos que deixaram para trás milhares de crianças e jovens.

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