Otelo, o paradoxal estratego do 25 de Abril 

Há personagens na História dos povos que, sendo marcantes e incontornáveis por atos de coragem em momentos de rutura, suscitam paixões e ódios em simultâneo. Otelo, herói do 25 de Abril de 1974, morre a um dia 25, neste estranho verão de 2021, e o país dividiu-se de novo entre os elogios e as críticas de alguns, as férias e a indiferença de outros e a pandemia de todos.

Pode um major de artilharia ser o estratego de um golpe militar que derruba, sem sangue, uma ditadura de 48 anos e, ao mesmo tempo, ser o cérebro de uma organização terrorista (como as FP-25) que matou 17 pessoas nos anos 80 do século passado? Pode o mesmo homem ter dado ordem de prisão a centenas de pessoas, enquanto chefe militar do COPCON (Comando Operacional do Continente), no período seguinte à Revolução dos Cravos, e ter sido condenado a 15 anos de prisão, em 1987, e depois amnistiado, em 1996, graças ao sistema democrático que ajudou a construir mas que chegou a pôr em causa?

Talvez por isso, perante a notícia da morte do coronel Otelo Saraiva de Carvalho, o Presidente da República tenha escrito que "é ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância". Se os portugueses se reveem na figura mítica de Salgueiro Maia (o capitão de cavalaria que enfrentou tanques nas ruas da Baixa lisboeta e cercou Marcello Caetano no Largo do Carmo), a verdade é que se dividem perante as múltiplas facetas de Otelo, o militar, nascido em Moçambique, que, sem sair do quartel da Pontinha, comandou o golpe que pôs fim à guerra colonial.

Como os mais velhos contam, os jornais e os outros meios relatam e os manuais de História ensinam, as ocupações de propriedade privada e os excessos ideológicos da revolução não tiveram apenas a mão de Otelo, apesar do seu protagonismo.

Como é importante nos percursos das nações e das pessoas, é preciso contextualizar. A 25 de novembro de 1975, Otelo foi um dos derrotados do golpe liderado por Ramalho Eanes e Jaime Neves. A história desses tempos agitados não esquece também Mário Soares ou Álvaro Cunhal, Melo Antunes ou Vasco Gonçalves, Spínola ou Costa Gomes. E é impossível esquecer o contributo corajoso dos capitães e soldados de abril, em 1974 e nos anos seguintes da construção da III República, numa permanente tensão política e social de uma potência colonial que implodiu num contexto de Guerra Fria.

A História conta que o país pós-revolucionário aderiu à CEE e, qual jangada de pedra que parte da costa e das ilhas atlânticas da Europa, manteve os laços com os povos que hoje constituem a CPLP, em geografias onde outrora tantas gerações perderam a vida ou ficaram marcadas por um conflito militar desfasado da História.

Será cedo para julgamentos dos homens polémicos que fizeram revoluções (e já foram julgados pela justiça por atos condenáveis de terrorismo) ou, quase cinco décadas após o 25 de Abril, já há tempo suficiente para a análise histórica desapaixonada?

E o que ganhamos em escrever epitáfios a quente estando já tão longínquos os excessos da madrugada de abril para a maioria das faixas etárias da população portuguesa que anseia por um futuro melhor?

Quando o combate hoje é pela vida e pelo trabalho, perante uma pandemia, devemos ter o bom senso e interpretar todas as variáveis de um determinado contexto histórico no momento da partida de Otelo, antes de apontarmos o dedo, por lutas e raivas antigas, ou de glorificarmos precipitadamente personagens que são, em si mesmas, um paradoxo - apesar de lhes ficarmos gratos pela liberdade que é, hoje e sempre, responsabilidade diária de todos.

Diretora do Diário de Notícias

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