Uma pedra voa. Uma pedra voa numa avenida. Uma pedra voa num gueto. E uma pedra a voar é sempre um perigo, uma alteração da ordem pública. Mas uma pedra a voar pode servir vários propósitos e ter vários significados. Depende da mão que a arremessa..Na semana passada, as pedras a voar no bairro da Jamaica, no Seixal e numa manifestação da Avenida da Liberdade, no centro de Lisboa, transformaram-se em batalhas campais sobre racismo em Portugal. Uma conversa que está sempre inquinada, porque se parte para ela com ideias feitas, esteja-se de que lado se estiver..Andamos nisto há anos. Cada década tem o seu gangue da CREL, o seu caso Cova da Moura. Cada década tem o seu episódio de confrontos entre negros e polícias pronto para espoletar a discussão sobre a questão da raça que se segue. A discussão sobre racismo em Portugal tem raízes históricas, sociologias contemporâneas, ideologias marcantes. E, nesta matéria, as águas - e as pessoas - não se dividem de forma maniqueísta. Ou a preto e branco - o que até é apropriado dizer neste tema..Há os que escolhem entre o branco ou o preto. Mas esses são normalmente mal-intencionados ou mal informados. Os outros, à pergunta Portugal é um país racista?, percebendo que nada é tão simples nesta matéria, encolhem os ombros. Percebem que é difícil tirar conclusões simples num país como Portugal, com anos e anos de miscigenação em que conviveram com anos e anos de racismo, puro ou institucional, em que histórias comuns ombrearam com brutalidades várias..Quem tem acompanhado de perto estas décadas de discussões já está em tempo de se ter cansado da futilidade delas. Continuamos na espuma dos acontecimentos, na babugem das notícias. Vem, incha, passa. E voltamos ao ramerrame. E esquecemos a questão, exceto os que continuam a querer fazer dela cavalo de batalha ou fundo de comércio, e ambos não são bons conselheiros..A questão do racismo, em Portugal, não é tão simples como a cor da pele. Antes fosse. Talvez se resolvesse com leis e educação cívica. Se há vinte anos havia os problemas da Quinta do Mocho e hoje há os do bairro da Jamaica, se há 15 anos prendia-se jovens delinquentes que faziam carjacking e hoje prendem-se jovens delinquentes que atiram pedras na Avenida da Liberdade, isso quer dizer que pouco mudou, e não foi só na cor da pele..Nota pessoal. Arrepia-me ver como continua tudo igual no bairro da Jamaica, onde há 15 anos eu ia fazer reportagens, nessa altura fascinada com o engenho humano que saiu da necessidade de quem habitava aqueles prédios esventrados do Vale de Chicharros. Naquela altura, aquela era uma história de valor e de imaginação, mas também já era de dor e de abandono. Que se perpetuou. É isso que define um gueto, e aquele era o gueto por excelência - tão perto e tão longe do resto da sociedade..Ainda na semana passada, o Diário de Notícias, pela mão do Carlos Ferro, tinha contado a história do realojamento da Jamaica que só agora começou. Pergunto quantos terão enterrado a sua vida e a sua esperança naquele gueto. Quantos terão desistido antes de tentar? E os outros, quantos conseguiram sair dali e voar? A história desses deu-a a conhecer o repórter Carlos Ferro, antes de as luzes incidirem sobre os que agora provocaram os desacatos..Por isso, repito: a história do racismo em Portugal não se conta apenas pela cor da pele. É algo mais profundo, está inculcado nos ossos, marcado na alma. E tem mais que ver com desigualdade social, com a falta de esperança de que quem nasce pobre tem de apanhar um qualquer elevador social. Com tudo isso, muito mais do que a cor da pele. A Fernanda Câncio dizia num título, esta semana, que a Avenida da Liberdade não é para negros. É, como sabemos há alguns anos, desde que ela se transformou nos Campos Elísios portugueses das ricas elites africanas. E essa é toda a questão.