Depois da "rapariga" de Leste, um homem do Ocidente para suceder a Merkel?

Depois de a demissão de Annegret Kramp-Karrenbauer ter mergulhado o partido no caos, a 25 de abril, num congresso em Berlim, os militantes da União Democrata Cristã vão escolher o novo líder entre Armin Laschet, Friedrich Merz e Norbert Röttgen.

O mau resultado nas eleições de domingo em Hamburgo, em que a CDU ficou em terceiro lugar atrás dos sociais-democratas do SPD e d'Os Verdes, foi apenas o último sinal de que o partido que nos últimos 70 anos dominou a política alemã tem de mudar. A crise, que já se adivinhava há algum tempo, ganhou nova dimensão no passado dia 10, quando Annegret Kramp-Karrenbauer, a mulher que Angela Merkel escolhera para lhe suceder na liderança da União Democrata Cristã, anunciou a demissão. AKK, como é conhecida, sai de cena depois de a CDU da Turíngia ter votado ao lado da Alternativa para a Alemanha (AfD, de extrema-direita) para ministro-presidente daquele estado, violando uma das linhas vermelhas do partido. A outra linha vermelha da CDU na Turíngia é apoiar a esquerda radical do Die Linke.

Com o congresso em que os militantes vão escolher o novo líder marcado para 25 de abril em Berlim, nesta terça-feira ficou a conhecer-se o trio que pretende disputar a liderança da CDU, mas sobretudo a sucessão de Merkel como chanceler nas próximas eleições, previstas para o outono de 2021. Estamos a falar de Armin Laschet, ministro-presidente centrista da Renânia do Norte-Vestefália e próximo de Merkel, de Friedrich Merz, velho rival da chanceler e defensor da viragem à direita da CDU, e do veterano do partido Norbert Röttgen, afastado do governo por Merkel em 2012 e que tem agora a sua oportunidade de "vingança".

Em comum entre todos? Além de todos serem homens, todos nasceram no estado da Renânia do Norte-Vestefália. O que significa que depois de quebrar com a história ao eleger para líder em 2000 uma mulher nascida em Hamburgo mas criada desde bebé na antiga Alemanha de Leste, a CDU volta a apostar num homem da zona ocidental do país para suceder àquela a quem o ex-chanceler Helmut Kohl chamava "das Mädchen" - "a rapariga".

"A CDU é maior do que qualquer um de nós; isto é sobre o futuro do nosso país e da CDU", lançou Jens Spahn. O ministro da Saúde, uma das estrelas em ascensão do partido, decidiu não disputar a liderança. Aos 39 anos, preferiu juntar-se a Laschet, de 59, numa espécie de ticket à americana, devendo ficar com o cargo de vice-presidente se este vencer. Mas, ao contrário de Laschet, Spahn é defensor de uma viragem suave mais à direita da CDU.

O próprio Laschet, no lançamento da sua candidatura, admitiu que a Alemanha vive um clima de medo, referindo os ataques terroristas em Hanau, na semana passada, e em Halle, em outubro. E comprometeu-se a, se for ele o novo líder, lutar contra esse ambiente de medo, também entre judeus e imigrantes.

Representante da ala mais à direita do partido, que defende políticas mais duras, entre outras em relação à imigração, para contrariar a ascensão da AfD, Merz começou por se afirmar "muito motivado" para vencer a eleição para líder da CDU. O advogado de 64 anos, que Merkel afastou do cargo quando era líder da bancada parlamentar da CDU além de ministro, garantiu que a sua decisão de avançar "não é uma rutura com o passado, mas um começo e uma renovação para o futuro. A CDU deve agora olhar para o futuro".

Citado pela Deutsche Welle, Merz não perdeu, contudo, a oportunidade de atacar Merkel ao afirmar: "Quando um governo perde o controlo sobre a imigração no próprio país não pode surpreender-se ao perder a confiança da população."

Quem se antecipou aos rivais no anúncio da candidatura à liderança da CDU foi Norbert Röttgen. O ex-ministro do Ambiente, de 54 anos, entrou na corrida no dia 18, em Berlim, criticando o estilo de liderança de Merkel ao lamentar que a Alemanha só reaja às crises em vez de assumir uma atitude proativa.

Especialista em política externa, o atual presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento alemão explicou que pretende fazer da CDU um "partido de centro", que se distinga da AfD bem como do Die Linke. Se for eleito líder, Röttgen prometeu lutar para superar o abismo entre o Leste e o Ocidente da Alemanha, herança dos tempos em que o país estava dividido ao meio, até à reunificação, em 1990. Passados 30 anos, a antiga Alemanha de Leste continua mais pobre e com mais desemprego. O ex-ministro quer ainda recuperar a credibilidade do país na política climática, mais ordem na política migratória e o posicionamento da Alemanha como país europeu e transatlântico.

"A crise mais grave" da história do partido

A corrida à sucessão de AKK - e, pela mesma ocasião, de Merkel - acelerou perante a sucessão de desaires da CDU. "O partido atravessa a pior crise da sua história", admitiu Jens Spahn, antes de acrescentar: "Se continuarmos assim, arriscamos o nosso futuro enquanto partido. E eu não quero que Angela Merkel fique para a história como a última chanceler da CDU."

As eleições de domingo na cidade-estado de Hamburgo foi apenas o último sinal de que as coisas vão mal. A formação que já foi de Kohl ou Konrad Adenauer ficou em terceiro lugar nas eleições regionais, não conseguindo mais do que 11,2% dos votos - longe do SPD e de Os Verdes.

E se as sondagens nacionais - como a última do instituto INSA - continuam a dar a liderança à CDU (coligada com a sua irmã bávara CSU) com 26,5% das intenções de voto, bem à frente do SPD com 14,5%, a ascensão de Os Verdes parece imparável, com o partido a chegar aos 22%, e a AfD chegaria aos 13%. O Die Linke obteria 10,5% e os liberais do FDP 7%.

Com Merkel, que conseguiu impor a CDU como o maior partido da Alemanha ao virar-se para políticas de centro, a já ter deixado claro que não tenciona disputar um quinto mandato, AKK parecia a escolha óbvia para lhe suceder na liderança do partido e talvez à frente do governo.

Mas no início do mês, a líder da CDU, já enfraquecida por lutas internas entre fações mais radicais e mais moderadas, agravou ainda mais a crise do partido ao demitir-se do cargo. O pico da tensão chegou com as eleições na Turíngia. Depois de Merkel e AKK terem deixado claro que era inaceitável que a CDU local votasse ao lado da AfD para apoiar o candidato dos liberais a ministro-presidente do estado, a chanceler voltou a criticar os deputados regionais da formação quando anunciaram a intenção de apoiar, a 4 de março, a eleição de um líder da esquerda radical alemã, Bodo Ramelow, para liderar esse estado.

A CDU da Turíngia declarou-se disposta a tolerar por um ano um governo minoritário de esquerda naquele estado, liderado por Ramelow, deputado do Die Linke, até às eleições regionais, marcadas para 25 de abril de 2021. Uma violação clara das tais linhas vermelhas do partido. "Quem votar a favor de Ramelow para se tornar chefe do governo regional incorre numa infração das resoluções da CDU" em todo o país, alertou Paul Ziemak, o secretário-geral do partido.

A própria eleição do novo líder, no congresso extraordinário de 25 de abril, promete ser mais um momento de guerras fratricidas, à semelhança do que elegeu, pela margem mínima, AKK em 2018. E mais um ano e meio de guerras nos bastidores do seu partido arriscam ensombrar ainda mais o final de mandato de Merkel - reforçando aqueles que apelam a que deixe o cargo mais cedo.

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