Reflexão. Para quê e sobre o quê?

Hoje é dia de reflexão para os eleitores meditarem sobre o sentido de voto nas eleições autárquicas deste domingo e para terminarem as campanhas partidárias. É assim que está convencionado pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) e acordado entre partidos e órgãos de soberania, desde os tempos idos dos comícios cheios de cidadãos empenhados e de militantes ativos, no último dia de campanha eleitoral. Na véspera das eleições, podemos escrever e falar sobre tudo, exceto sobre as propostas dos candidatos, seja autárquicas ou legislativas, seja presidenciais ou europeias.

"Porque hoje é sábado" (para citar o poema "Dia da criação", de Vinicius de Moraes), véspera de ida às urnas, podemos também aproveitar para refletir sobre o sentido e a utilidade deste dia de reflexão que antecede qualquer ato eleitoral, quando a informação está disponível nos sites dos media ou nas redes sociais, mesmo que jornais, rádios e televisões estejam impedidos de dar notícia sobre as propostas dos vários partidos e candidatos. Vamos então refletir, mas sobre algumas questões relevantes para o sistema político-partidário e a maior participação dos cidadãos, quando as taxas de abstenção têm sido cada vez mais elevadas, mesmo sabendo que as autárquicas costumam ser exceção por motivos óbvios?

Podemos refletir sobre a inexistência de voto eletrónico, no país que inventou o sistema multibanco e a via verde, mesmo que haja dúvidas pertinentes quanto a questões de segurança, como o DN e a TSF adiantaram ontem na entrevista ao diretor-geral do Centro Nacional de Cibersegurança? Devemos refletir sobre a quem interessa que um cidadão que esteja fisicamente ausente da sua cidade, em trabalho ou em férias, e não pode votar em qualquer ponto do país e do mundo? E porque demoram sempre os partidos a retirar os cartazes, após as eleições, continuando a poluir visualmente cidades, vilas e aldeias por todo o país?

Podemos questionar a real representatividade dos representantes do povo, quando um líder partidário e candidato a primeiro-ministro é eleito por uns poucos milhares de iluminados que fazem carreira nos partidos com esperança de um lugar numa administração pública cada vez mais pesada para os bolsos dos contribuintes? Quando é que vamos refletir sobre a tão falada e sempre adiada reforma do Estado, quando vivemos tempos inéditos de pandemia?

Estamos dispostos a refletir sobre a perda de competitividade da economia portuguesa, quando é já a quarta a contar do fim na carruagem do comboio europeu a 27, e sobre os custos da energia e a pesada fiscalidade sobre empresas e a classe média? Vamos refletir sobre como reter e atrair talentos e evitar a saída de enfermeiros e médicos, entre outros profissionais, porque Portugal remunera mal? Queremos refletir, com profundidade e sensatez, sobre a promoção de uma nação com quase 900 anos de história, em vez de vender marcas relativizando mortos e sucessivas vagas da pandemia?

Estamos com mente aberta para refletir sobre cidadania, participação cívica, educação dos estudantes e incentivos claros à sociedade civil, sem estar aprisionada pelas máquinas partidárias? Ou vamos sorrir, encolher os ombros e dizer que está tudo bem e que os políticos resolvam os problemas? Por quanto tempo mais vamos continuar a desperdiçar oportunidades para ter uma verdadeira estratégia de crescimento e desenvolvimento para a nova década? Que país queremos ser em 2030? Vale a pena refletir.

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