Drogaria de Santo Amaro. Onde é um orgulho dizer "sim, tenho"

Lisboa

Drogaria de Santo Amaro. Onde é um orgulho dizer "sim, tenho"

Andrelino Antunes já vivia no bairro quando tomou a "pior decisão" e se tornou patrão de si mesmo, dono de uma casa que todos conhecem e onde ele quer que encontrem tudo o que precisam.

Atrás do balcão da Drogaria de Santo Amaro há quase 30 anos, um dos maiores orgulhos de Andrelino Antunes é poder dizer "sim, tenho" quando lhe pedem o que já quase ninguém acredita que ainda se possa vender e, depois, ver a cara de surpresa dos clientes quando satisfaz os pedidos - do vieux-chêne ao óxido de ferro vermelho, passando pelas antigas massas usadas pelos pintores. "Há pessoas que sabem que se utilizarem estes produtos, as coisas ficam melhores." São milhares de itens, e como costuma dizer: "Tenho de ter muito para vender pouco."

Entre tintas, ferragens, perfumes, detergentes, tachos e panelas de alumínio, venenos para nos livrarmos de incomodativos bichos que se querem instalar nas nossas casas e o já indispensável álcool-gel, é missão árdua encontrar um centímetro de parede livre na drogaria, um lugar que todos conhecem neste bairro lisboeta e cuja antiguidade se anuncia logo no letreiro sobre a porta. Desde 1932 que está ali, no número 16A da Rua Filinto Elísio, perto do jardim de Santo Amaro.

Nos seus 88 anos, esta casa nunca conheceu outro negócio.

Salazar não era presidente do Conselho e a II Guerra Mundial ainda estava longe, e já a Drogaria de Santo Amaro era drogaria. Até hoje, nos seus 88 anos, esta casa nunca conheceu outro negócio, embora já tenha mudado de dono duas vezes.

Antes de Andrelino Antunes foi o senhor Pereira quem diariamente abriu as portas desta loja durante mais de 30 anos. Era célebre a Montra dos Putos, dedicada aos mais novos com uma legenda explicativa: "Paga, pai". Do fundador da drogaria nada sabe, apesar de viver em Santo Amaro desde os 9 anos e conhecer o comércio local como poucos. O pai de Andrelino era sócio de uma loja de chás e cafés numa rua próxima - a Luís de Camões -, e foi lá que deu os primeiros passos atrás do balcão. Desejoso de uma vida só dele, foi trabalhar para uma loja de ferragens e depois noutra, durante 27 anos.

Influenciado pelo pai, em 1992, com 44 anos, casado e com dois filhos a entrar na adolescência, tomou o que diz ser "a pior decisão": "Quis passar a ser patrão." E foi à procura de um negócio. Ia ser uma loja de ferragens, mas então alguém lhe disse que o dono da Drogaria de Santo Amaro podia estar disponível para passar o negócio a outra pessoa. Com exceção do balcão, o espaço já era bem parecido com o que é hoje.

O segredo estava na fechadura

Além de estar preparado para passar a pasta, o senhor Pereira sabia quem era Andrelino por uma coincidência que os juntou. "Lembrava-se do dia em que fui trocar a fechadura de uma porta na casa dele. Quando lá cheguei disse-lhe que não fazia o trabalho sem que fossem corrigidas as dobradiças para que tudo ficasse bem feito. Ele, que era muito certo, achou que eu também era, e que era capaz de ser a pessoa certa para ficar com o negócio", conta.

Feito o trespasse, logo apareceu quem sugerisse a Andrelino Antunes que retirasse as pitorescas prateleiras de madeira de tom creme - gastas pelo uso e pelo tempo - e as substituísse por alumínio, muito atual então. "Não quis, acho que assim é que tem graça." Não adivinhava que o aspeto vintage viria a ser tão valorizado e que, um dia, no ano 2000, serviria de cenário para uma curta-metragem, A Drogaria, de Elsa Bruxelas. Nesse filme, procurava-se retratar o que acontece ao comércio de rua enquanto abrem grandes superfícies.

Da lixívia avulso ao álcool-gel

Andrelino Antunes, que agora tem 72 anos, ficou com a Drogaria de Santo Amaro em plena euforia da abertura dos centros comerciais, mas não se atrapalhou. "Se mantivesse o mesmo nível não estava aqui", diz. À sua volta, fechou a loja ferragens onde foi empregado durante 17 anos, e a loja de chás e cafés do pai é agora um restaurante. O comércio mudou - e ainda muda - neste bairro e nas redondezas. "As pessoas chegam aqui e dizem: fechou a drogaria da Ajuda ou de Belém." A sua aqui segue, com o seu aspeto antigo mas oferta à altura dos novos clientes. Sabe que vêm "para uma falta", mas não se queixa disso.

Mesmo em plena pandemia e com restrições, continuou a ser muito necessário, ainda que por razões diferentes. "As pessoas vinham por uma lata de tinta... e essas coisas dos pequenos arranjos que começaram a fazer em casa."

Ao longo do tempo, Andrelino Antunes incluiu no inventário muitos itens que aqui não existiam, como as ferragens (o ramo em que trabalhava até tomar a tal "pior decisão"), chaves feitas na hora e outros produtos que vão ao encontro das necessidades do momento - agora mesmo são o álcool-gel e as máscaras que dominam o balcão. Estão expostos ao lado de outros artigos que apelam às memórias de gerações passadas - sabonetes e águas de colónia, limpa metais Coração, aquela torradeira de usar no fogo pendurada, a lâmpada do formato mais estranho e, por alturas do Natal, típicas figuras de presépio e mais perfumes.

Com um empurrão da internet e outro da tendência do it yourself, até produtos que só os mais velhos conheciam ganharam nova vida, como é o caso do perborato de sódio, usado para branquear a roupa e imprescindível para quem quer fazer detergente em casa. "Antes vendia dez quilos por ano, agora vendo dez quilos por semana", conta. É o primeiro a recomendar estes truques aos clientes. "Para quê gastar oito euros em 200 gramas quando se pode gastar 2,5 euros em um quilo?", diz, à conversa com o DN nesse outro gabinete de curiosidades que são as traseiras desta loja, onde milhares e milhares de produtos, a maioria de minúscula dimensão, estão guardados em caixas do teto ao chão. "Isto é tudo o que tenho", resume.

Não há muitos anos, no pátio deste armazém ainda se fazia lixívia para vender avulso. Quando Andrelino Antunes aqui chegou, a drogaria tinha muitos frascos de todo o tipo de produtos químicos que se vendiam à vontade do freguês. As autorizações ainda estão guardadas, em jeito de recordação num dossiê azul, ao lado dos postais enviados pelo antigo proprietário para ele e até para o filho, Hélder, que é o seu braço direito há 20 anos (e se ocupou dos clientes enquanto o DN conversou com Andrelino Antunes).

Foi também o filho, com 43 anos - quase a mesma idade que Andrelino tinha quando tomou conta da Drogaria de Santo Amaro -, que assegurou a sua abertura após o confinamento enquanto o pai estava em convalescença de uma cirurgia. Se será ele a ficar à frente do negócio, ainda não se sabe. "A seu tempo se verá", diz Hélder. Com o mesmo indisfarçável orgulho com que abre as portas para dizer "sim, tenho" aos mais estranhos pedidos, Andrelino elogia o filho. "Ele é muito responsável. Sempre foi."

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