Quanto vale uma vida em Borba

Quanto vale uma vida perdida numa estrada de Borba? Mesmo os não jornalistas conhecem aquela regra dos mortos por quilómetro, a que diz que um morto na cidade do leitor vale mais do que 2000 a muitos de distância. Mas, como em tudo no jornalismo e na vida, também nesta regra... depende. Acompanhámos com fervor a árdua retirada da gruta dos jovens tailandeses do outro lado do mundo, a 11 mil quilómetros de distância. E, nesta semana, percebemos que cinco mortes em Borba valem pouco - sobretudo para os que mais perto delas estavam.

Houve manchetes, é verdade, horas e horas de transmissões, investigação jornalística que sacou documentos importantes, relatórios que estavam escondidos em gavetas. Tudo isso houve, e bem. Uma responsabilidade já redimiu: a dos jornalistas e jornalismo, cada vez mais fechado nos gabinetes citadinos, menos próximo do que se passa, de facto, na vida das pessoas. Ainda nos vale o brio profissional de quem sabe o que tem de fazer, mesmo que não o consiga sempre fazer.

Feito este mea culpa, faltam os outros. Por tudo o que ficámos a saber, não há hoje dúvida de que este era um acidente à espera de acontecer. Uma tragédia mais do que anunciada. Sabemos que muitos sabiam. Não sabemos ainda todos, mas houve alertas e foram ouvidos e escritos. Só que ninguém tirou ilações. Nem na altura nem agora.

Na altura, ninguém fez nada. Agora, ninguém pediu desculpas. Um pedido de desculpas, nesta altura, quando ainda não estão apuradas as culpas, até podia parecer excessivo. Não fosse pouco face a cinco mortos inocentes e a toda a incúria e negligência - no mínimo - que está à vista.

Do que sabemos, neste caso, as responsabilidades têm de ser partilhadas e por muitos. Dos donos das pedreiras que escavaram até à estrada, pouco se importando com quem trabalhava em baixo ou passava em cima, à câmara municipal, a dona da estrada, até às direções gerais que fizeram pareceres e lavaram burocraticamente as mãos, acabando nos ministérios que os receberam, ao governo, aos governos.

Há, neste caso, tantas questões civilizacionais - aqui, sim - e culturais que podia tornar-se uma fábula. O problema das fábulas é que adoçam a realidade, e esta tem de ser olhada de forma dura. Há um interior votado ao desprezo dos media, políticos e até das leis. Mas há também muita incompetência, muito encolher de ombros, muito deixar andar. Ou, então, muita gente a apontar o dedo e a tirar a água do capote - para usar uma expressão alentejana.

Hoje sabemos, como contamos nesta edição, que foi precisamente um braço do Estado central - a Direção Regional da Economia - que alertou para o perigo desta estrada. E que tanto os empresários locais como a própria câmara assobiaram para o lado. A cadeia de incompetências e burocracias que levou à tragédia de Borba é um bom retrato de várias coisas, entre elas a falta de cultura cívica. Obviamente, a responsabilidade é diretamente proporcional ao poder. Mas isso não significa que a cadeia tenha de responsabilizar num sentido, e ilibar noutro. E este é que é, em Portugal, um assunto de civilização.

Pouca cultura democrática e muitos anos de paternalismo de Estado trouxeram o país a este estado em que o civismo e a responsabilidade individual se diluem. Os vizinhos deixam o lixo à porta até o condomínio os avisar de que não o podem fazer, os carros estacionam em cima do passeio, impedindo os carrinhos de bebé, até serem multados. As pedreiras constroem até ao limite das estradas, até alguém cair, as entidades responsáveis não fecham estradas até morrer alguém, os governos não agem até a imprensa lhes cair em cima.

Quem é que teria mais interesse em fechar uma pequena estrada de paralelepípedos em Borba? Quem lá passa, ou quem está num gabinete em Lisboa? Não teria sido mais eficaz a luta pelos que sentiam o perigo do que pelos que apenas sabiam dele?

Agora, que o mal está feito e o assunto se tornou nacional, é preciso apurar responsabilidades. Mas todas. De baixo para cima. Ou antes, de cima para baixo. Porque, qualquer que seja o cenário e a forma, foi o Estado que falhou. Mais uma vez, por não saber representar-se, por não saber delegar em condições, organizar-se até ao mais ínfimo denominador comum, até à proximidade das populações.

E continuamos, mais um dia, sem um pedido de desculpa de ninguém.

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