A fragilidade da prospetiva


Num artigo já de 2013, Dominique Vidal, um jornalista atento às relações internacionais, abordou apenas por enumeração "Uma análise geopolítica dos conflitos", pondo em destaque os acontecimentos da Ucrânia, referência alarmante que o levou a concluir, em 2015, no quadro do panorama dos conflitos contemporâneos, que estava reaberta a tensão entre a Rússia e os Estados Unidos da América, apenas dois decénios corridos desde a vitória do Ocidente sobre a União Soviética.

O intervalo que, desde a data em que assinaram a paz da Primeira Guerra Mundial, agora celebrada pelo centenário, algum dos interventores alemães vaticinara que se tratava não de uma paz mas de um armistício para vinte anos. Foi o que aconteceu. Seguindo as suas inquietações, e tendo inevitavelmente presente as variedades típicas dos conflitos, Vital introduziu uma distinção entre "conflitos interestaduais, conflitos não estaduais e violência unilateral". De facto, estava a tornar-se problemática a suposta supremacia global dos EUA, colocando em questão a segurança com que Fukuyama anunciara "o fim da história", com o globalismo a multiplicar os desafios no que respeita à governança atribulada, com os desastres do Iraque e do Afeganistão a servirem de aviso, com o abalo da crise financeira e económica a destruir a hierarquia suposta das potências vista a dispersão das capacidades, não apenas económicas e até científicas, mas sobretudo militares, nestas últimas destacando-se a multiplicação dos titulares das armas nucleares e estratégicas.

A referida diversificação dos conflitos, adotada pela Uppsala Conflict Data Program, em cada ano vai permitindo anunciar as parcelas dos milhares de mortos que atribuem aos modestamente chamados "conflitos menores de base estadual", mas certamente foi a capacidade de o fraco vencer o forte, demonstrada pelo ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque, e de os Estados militarmente menos poderosos alimentarem a solidariedade entre novos poderes, sendo a lista cada vez mais numerosa. As estatísticas, que fortalecem o aviso de Vidal, apontam mais de uma dúzia de riscos na Ásia, devendo acrescentar-se que os conflitos dinamizados pelos movimentos revolucionários não poupam nem o Médio Oriente nem o continente americano.

O que parece, neste 2018 atribulado, mais alarmante é que um conflito surgido entre potências atómicas em mais de uma oportunidade apareceu possível pela relação inovadora no diálogo, sobretudo intermediado pelos meios de comunicação mundiais, entre o suposto forte EUA e o suposto fraco Coreia do Norte, capaz de criar uma leviandade responsável pela destruição da Terra.

Nesta transformação da terra (casa comum dos homens) em arena mundial está adensado um ambiente que pode fazer explodir a leviandade no Ocidente, quer pelas circunstâncias incontroláveis do comportamento do norte forte que são os EUA, com os fugitivos do anárquico sul-americano, com a inquietação nascida da fragilização da solidariedade atlântica do norte, com a crescente expansão da presença da China, ou com a modernização da União Indiana.

A enumeração das circunstâncias, mesmo rigorosamente identificadas, pouco ajuda na prospetiva, porque até a imprevisibilidade que atinge severamente a antiga solidariedade atlântica já afeta o que respeita às próximas eleições dos vários Estados europeus, os populismos e micronacionalismos, fazendo invocar também a necessidade de um exército europeu sem definição consolidada quanto aos Estados interessados.

Vai sentir-se, pelo que respeita à evolução que também afetará à circunstância portuguesa, a falta do ilustre general Loureiro dos Santos, que recentemente faleceu, e que foi uma voz autorizada cujo legado enriquece o património científico e cívico das Forças Armadas que serviu, e das universidades em que ensinou. Mas são sobretudo as Forças Armadas, cuja integridade, função e intervenção sempre presentes na história portuguesa, que ficam enriquecidas com o exemplo desse militar, que inclui a sólida compreensão da "estratégia do saber".

A reforma em curso da estrutura do ensino neste domínio vai aproveitar da sua experiência, que também era de académico. Além do mais, dando exemplo da terceira idade ativa, um exemplo que os demógrafos qualificam como dos mais exigentes e valiosos para a evolução europeia e portuguesa. Patente exemplo de fiel à ética militar, contribuinte valioso para a estratégia do saber ao serviço dos valores nacionais e dos direitos humanos, juntando à riqueza da sua vida e obra a modéstia dos que cultivam a autenticidade em todas as circunstâncias. Ficará na galeria dos que bem serviram.

Professor universitário