Costa, o otimista irritante e ainda bem

Uma entrevista nunca é uma entrevista, como a preposição inicial, entre, deixa erradamente supor que é um encontro entre iguais. Quem tem uma entrevista de emprego bem o sabe, ali há um que manda mais do que o outro. Também no jornalismo há um carregador que vai colher informação e há outro que fornece.

Mal vai o entrevistador que pensa que é vedeta, bem vai o entrevistado que sabe que não fala para aquele que circunstancialmente está à sua frente. Ontem, na TVI, a meio do nada, António Costa disse a Miguel Sousa Tavares: "Está a mexer no olho." Mas não era a Sousa Tavares que dizia, era a mim.

A mim e ao leitor. Cada minuto que o primeiro-ministro passou ontem na TVI foi virado para os portugueses. Aquilo do olho foi serviço público, mais uma daquelas insistências do lavar as mãos e não tocar na cara porque todos temos hábitos perigosos, hoje terríveis. "Também eu roo as unhas...", penitenciou-se Costa, para logo acrescentar que agora consegue parar a tempo. Mais um aviso para os portugueses: se até os vícios infantis têm de se refrear, e podem sê-lo, é porque o vírus é perigoso. Metam isso dentro da cabeça, não na cara.

"A solidariedade temos de a manter", disse Costa. Nestes tempos de fronteiras reavivadas, mesmo as europeias, havia necessidade de dizer isto. E foi dito.

Ontem, numa birra de Miguel Sousa Tavares, que já conhecemos mais iluminado, falava-se demasiado no barco cruzeiro atracado em Lisboa e que devia ter voltado ao Rio de Janeiro para desembarcarem os que dali tinham partido. António Costa garantiu que os 27 portugueses que lá vinham foram testados e só entraram em Lisboa para serem vigiados. E que os restantes passageiros foram guardados a recato, para serem conduzidos em autocarros e levados ao aeroporto para regressar ao país respetivo. E que era falso que alguns deles tenham ido a Óbidos: "Não aconteceu." A função de tranquilizar os portugueses estava feita.

Costa esclareceu essa questão de segurança, até porque tinha havido precedente com outro cruzeiro em Lisboa, já com a epidemia conhecida, em que falharam os cuidados. Qualquer político sabe como é importante, na situação atual e com a vigilância da opinião pública, mostrar-se responsável. Ser responsável sabem-no alguns, os decentes, e mostrar-se responsável sabem-no todos. Mas neste assunto António Costa fez um pouco mais. "Nós temos de resistir..." disse ele aos entrevistadores, temos de resistir às tentações xenófobas. Pelo mundo fora, apanhados no meio da pandemia, "há milhares de portugueses", fazemos esforços para os repatriar e exigimos que os outro países os tratem bem. Então, concluiu Costa, temos de fazer o mesmo com os outros: "A solidariedade nós temos de a manter." Nestes tempos de fronteiras reavivadas, mesmo as europeias que já pensávamos abolidas, havia necessidade de dizer isto. E foi dito.

A entrevista foi pela terrível crise sanitária que se vive e a terrível crise económica que se avizinha. Saltaram números e gráficos num bate bola entre entrevistadores e entrevistado, geralmente um exercício inócuo em televisão - sabemos lá nós dessas ciências, sabem lá eles também, e qualquer telespetador perde-se nas quantidades de testes e spreads dos bancos. O melhor é ficarmos nas frases simples. "Nunca perderemos o controlo da situação", arriscou Costa, coisa para memória futura próxima. "Oxalá", respondemos nós no confinamento do sofá. Mas temos amanhã a possibilidade de confirmar a frase, ou não - e controlar.

Apesar de não o parecer, em assuntos tão imponderáveis como a incerteza que vivemos, o mais preciso são as vagas metas. Até maio o mal vai a crescer, em junho saberemos se está sustido, disse Costa, que por duas vezes disse honestamente não ter uma bola de cristal. Já desconfiávamos e é bom sabermos que o nosso mais importante governante não tem essa ilusão.

Aparentemente o nosso primeiro-ministro aconselhou-nos a ter algumas atenções. Ao contrário das opiniões dos especialistas, as dos dos políticos - por exemplo, sobre os prazos de se fazer isto ou aquilo, já ou não, como o estado de emergência - têm tendência em ser influenciadas pela opinião pública. Nem tanto por confiarem na sabedoria do bom senso, mas por ser mais oportuno colarem-se à sua força...

Costa traz à baila os políticos terem tentações de se colar à opinião pública. Agora a chicana está exclusivamente dedicada a sobre quem, Costa ou Marcelo, influencia mais na crise. Com a balança inclinada para São Bento, Costa permite-se não usar senão uma farpa...

Era, claro, António Costa, mais uma vez, por cima dos entrevistadores, a falar para os portugueses. Conhecem-se ressurgimentos de factos políticos, por exemplo, inventam-se manchetes sobre Centeno querer sair do Governo. E, trama montada, tendo Centeno ido a Belém, ontem, para dar esclarecimentos sobre consequências financeiras causadas pela crise com a pandemia, concluí-se que Marcelo travou a saía do ministro das Finanças...

Criação política, por um lado, e a necessidade de Costa trazer à baila os políticos terem tentações de se colar à opinião pública, por outro, pertencem ambas à habitual chicana na política. Agora ela está exclusivamente dedicada a sobre quem, Costa ou Marcelo, influencia mais na crise. Com a balança nitidamente inclinada para São Bento, o primeiro-ministro permitiu-se ontem a não usar senão uma farpa...

E fez bem. A sua vantagem é a resiliência com que tem aguentado mais de um mês de crise tremenda. A tranquilidade dá-lhe força, o sorriso amacia-lhe até os atropelos de dicção. Vamos lá ver, se ele come as vogais, os seus "vams l"vr" com que inicia as frases acabam por acentuar a forma calorosa com que ele faz conversa. "Nada será como dantes", desespera-se um entrevistador sobre o que vem aí. Costa emenda e tranquiliza: "Lembra-se de alguma vez o ter sido?"

O otimista irritante dedica-se agora e com sucesso a tranquilizar-nos. Como sempre, mas agora reconhecemos mais a vantagem desse traço de personalidade.

O otimista irritante dedica-se agora e com sucesso a tranquilizar-nos. Como sempre, mas agora reconhecemos mais a vantagem desse traço de personalidade. Agora, ele acrescenta sempre ao seu otimismo uma exigência de sentido cívico da nossa parte: nunca promete fazer melhor sem que participemos. Ontem, António Costa teve as últimas palavras para isto: "Impressiona-me ver pessoas que se cruzam com o olhar no chão, como se o olhar contagiasse." O otimista irritante insiste e o seu otimismo faz-nos bem.

É muito bom termos na liderança um homem forte, sereno e de boa vontade. "Não há boia que ajude num tsunami", disse Costa na entrevista, e disse mal. Porque o que ele nos tem mostrado é que mesmo o pequeno gesto, não levar o dedo à cara, pode salvar.

Só depois deste pesadelo saberemos se tivemos grandes homens e grandes políticas que souberam salvar-nos, não simples boias. Mas, já e agora, é bom ter quem nos leva a reagir. E temos. Ontem, António Costa, mais uma entrevista pequena e grande. E precisamos muito disso.

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