O governo de Boris, o homem do Brexit "sem ses nem mas"

Convidado a formar governo pela rainha, Boris Johnson formou um novo governo nas horas seguintes à medida do discurso proferido à porta do n.º 10 de Downing Street: composto por fiéis, apoiantes do Brexit a todo o custo, e pelo irmão Jo.

Como anunciado, alguns ministros e secretários de Estado não esperaram para ver e demitiram-se antes de Boris Johnson tomar as rédeas. Já oficialmente primeiro-ministro britânico, depois de ter cumprido as formalidades e reunido com a chefe de Estado, a rainha Isabel II, no Palácio de Buckingham, o homem que liderou a campanha no referendo pelo Brexit não perdeu tempo a fazer uma limpeza no governo de Theresa May.

A razia foi tal que não poupou o adversário que no dia anterior derrotara e elogiara, o "formidável" Jeremy Hunt. Outros ministros que estiveram do lado de Hunt, apesar de serem brexiteers, acabaram afastados, para surpresa geral. Foram eles Penny Mordaunt, ministra da Defesa, e Liam Fox, ministro do Comércio Internacional. O The Guardian resumiu em manchete as decisões de Boris Johnson: "A vingança do implacável Johnson".

Na prática, como escreveu a editora de política da BBC Laura Kuenssberg, não houve remodelação, mas um novo governo, onde os fiéis e alinhados com um Brexit a qualquer preço tomaram as posições-chave do executivo. "Acho que é bastante claro que Boris vai a caminho da saída sem acordo. Ele tem algumas pessoas tremendas com ele no n.º 10 para alcançar esse objetivo", disse o ex-secretário de Estado da Cultura, Ed Vaizey, na ITV.

Para o deputado Mark Francois, Boris Johnson não deve perder tempo a tentar um novo acordo. "O acordo de retirada está morto, não vamos tentar ressuscitá-lo, é inútil tentar fazê-lo de parte a parte. O que faz sentido é ir direto ao que interessa, um acordo de comércio a lá super-Canadá", em referência ao acordo de comércio livre da UE com o país da América do Norte.

Já a jornalista do Observer Sonia Sodha comentou na BBC: "Parece um governo de voto pela saída, um governo de No Deal que se prepara para eleições gerais."

As novas caras de um novo governo

O primeiro dirigente a entrar no n.º 10 de Downing Street chamado por Boris Johnson foi o até agora ministro do Interior, Sajid Javid, que foi mais tarde confirmado como novo ministro das Finanças. Todos os nomes só são anunciados formalmente após a confirmação da nomeação por parte da rainha Isabel II.

No Twitter, disse estar "profundamente honrado" de ter sido nomeado para este cargo. "Estou desejoso de trabalhar com ele para preparar a saída da União Europeia, unir o país e preparar a nossa economia para as incríveis oportunidades que temos pela frente."

Sajid Javid foi o primeiro de 30 nomeações e confirmações no cargo - e um dos seis concorrentes de Boris Johnson na corrida à liderança que fazem parte do novo executivo.

Também a deputada Priti Patel deu entrada no n.º 10. Em 2016 e 2017 foi ministra do Desenvolvimento Internacional, tendo sido obrigada a demitir-se por causa de reuniões secretas que teve com o governo israelita. Tendo sido chamada tão cedo, suspeitava-se que pudesse ser a nova ministra do Interior, o que foi confirmado.

O ex-ministro do Brexit, Dominic Raab, também foi chamado por Boris Johnson. Ao ser chamado em terceiro lugar era falado para a chefia da Diplomacia, o que também se confirmou. É ainda o vice-primeiro-ministro.

O atual ministro do Brexit, Stephen Barclay, mantém o mesmo cargo que já tinha no governo de May.

Michael Gove, até agora ministro do Ambiente, foi confirmado como chanceler do ducado de Lancaster, responsável pela gestão dos ativos da rainha. Poderá ser a reaproximação do antigo braço direito de Johnson, transformado em inimigo depois de ter travado a sua candidatura à liderança dos conservadores há três anos, mas também é um cargo de menor peso do que o anterior.

Javid, Raab, Patel e Gove trabalharam com Boris Johnson na campanha do Vote Leave, no referendo do Brexit em 2016. Refira-se que o diretor da campanha, Dominic Cummings, vai ser o principal conselheiro do novo primeiro-ministro.

Ben Wallace, secretário de Estado para a Segurança e o Crime Económico e há muito apoiante de Boris Johnson, foi promovido a ministro da Defesa.

Wallace foi rápido a despedir-se das pessoas com quem tem trabalhado, ao agradecer aos polícias e oficiais dos serviços de informações. "Temos a sorte de estar a salvo por pessoas tão extraordinárias que fazem o seu trabalho sem ser pela glória ou por dinheiro."

A deputada Liz Truss, que durante a tarde elogiava as primeiras nomeações, vai desempenhar o cargo de ministra do Comércio Internacional.

O ministro da Saúde, Matt Hancock, é um dos poucos que semantêm em funções no mesmo cargo.

Andrea Leadsom, a ex-líder da Câmara dos Comuns (responsável pela relação do governo com o Parlamento), é a nova ministra da Economia, Energia e Estratégia Industrial. Hancock e Leadsom tinham sido adversários de Boris Johnson à liderança do partido.

Outras mulheres em cargos ministeriais: Theresa Villiers (Ambiente), Amber Rudd (que se mantém com as pastas do Trabalho, Pensões, Mulheres e Igualdade), Nicky Morgan (Digital, Cultura, Média e Desporto).

A Educação fica a cargo de Gavin Williamson e a Habitação passa para as mãos do promovido Robert Jenrick. Como secretária de Estado desta pasta, Esther McVey, outra candidata à liderança dos conservadores.

Com voz de barítono e uma capacidade oratória que não passa despercebida, Geoffrey Cox mantém-se como procurador-geral e participa no executivo.

Entre as restantes nomeações, destaque para as que foram conhecidas já depois das 23.00: a do grande apoiante da saída sem acordo, líder do European Research Group e homem que conspirou para a queda de Theresa May, Jacob Rees-Mogg. Vai ser o líder da Câmara dos Comuns, ou, dito de outra forma, ministro dos Assuntos Parlamentares.

Espaço ainda no governo para o irmão de Boris, Jo Johnson, como secretário de Estado em dois ministérios, Economia e Educação.

As nomeações de Priti Patel, Dominic Raab, Kwasi Kwarteng (como secretário de Estado da Economia), Sajid Javid, Rees-Mogg, entre outros, levam à conclusão, por parte do deputado Nick Boles, que abandonou os tories neste ano, de que a "extrema-direita tomou conta do Partido Conservador. Thatcheristas, libertários e brexiteers pela saída sem acordo controlam-no de cima a baixo". Boles diz que o novo primeiro-ministro não é Johnson, mas Nigel Farage.

Primeiro discurso

Um dia depois de ser eleito líder do Partido Conservador, o antigo presidente da Câmara de Londres e chefe da diplomacia foi para o n.º 10 de Downing Street, onde fez o primeiro discurso ao país. À sua espera, entre vários membros da sua nova equipa, estava a namorada Carrie Symonds.

"Presto tributo à força e à paciência da minha predecessora e ao seu profundo sentido de serviço público", disse Boris Johnson, referindo-se a Theresa May, afirmando contudo que há "pessimistas" no Reino Unido e fora dele que consideram que os britânicos não serão capazes de honrar a decisão do referendo de 2016 e garantir o Brexit. Esses críticos estão errados, disse. "As pessoas que apostam contra o Reino Unido vão perder tudo porque nós vamos restaurar a confiança na nossa democracia", acrescentou o novo primeiro-ministro.

"Vamos fazer um novo acordo, um melhor acordo" de Brexit, "que vai maximizar as oportunidade e ao mesmo tempo permitir-nos desenvolver uma nova e excitante parceria com o resto da Europa, baseada no livre comércio e no apoio mútuo", defendeu Boris, mostrando-se confiante de que em 99 dias vão conseguir fazê-lo.

"Mas não vamos esperar 99 dias, porque o povo britânico está farto de esperar. Chegou a hora de atuar, de tomar decisões, de mudar este país para melhor", afirmou, mostrando-se confiante de que o Reino Unido sairá da União Europeia no dia 31 de outubro "sem ses nem mas".

Mostrando-se disponível para voltar a negociar com Bruxelas, o novo primeiro-ministro defende no entanto que é preciso continuar as preparações para uma saída da União Europeia sem acordo, "não porque queremos" esse cenário, que considerou uma "possibilidade remota". E lembrou que a saída sem acordo significa não pagar a "conta do divórcio", de 39 mil milhões de libras.

Numa linguagem muito própria, Boris Johnson disse: "Forget the backstop, the buck stops here." Ou seja, pede para se esquecer o mecanismo de salvaguarda para evitar uma fronteira entre a Irlanda do Norte e República da Irlanda, que considerou "antidemocrático", que a oposição acaba aqui. E disse que irá assumir diretamente a responsabilidade pela mudança que quer.

Em termos de anúncios de política interna, ainda antes de entrar em Downing Street já dizia que ia corrigir a crise na Segurança Social de uma vez por todas, prometendo também mais 20 mil polícias nas ruas, aumentar o financiamento das escolas primárias e secundárias, garantir que os britânicos não terão de esperar mais de três semanas para ver um médico, atacar as alterações climáticas e criar empregos na economia verde. Em relação aos impostos, defendeu: "Vamos mudar as regras dos impostos para garantir incentivos extra para investir em capital e pesquisa."

"O meu trabalho é ser primeiro-ministro de todo o Reino Unido", defendeu Boris Johnson, afirmando que irá unir o país. "O meu trabalho é servir-vos, o povo", acrescentou." As pessoas são os nossos patrões", disse, referindo-se aos políticos.

Leia no site da BBC, em inglês, o discurso completo de Boris Johnson.

Minutos antes, Theresa May tinha feito o seu último discurso como primeira-ministra também à frente do n.º 10 de Downing Street, antes de se reunir com a rainha para apresentar oficialmente a demissão.

Depois de entrar em Downing Street, onde foi recebido pelos aplausos dos funcionários, Boris Johnson foi rapidamente para uma reunião de segurança, ao mesmo tempo que começavam rumores sobre quem fará parte do governo, mas principalmente as confirmações de quem não fará.

A primeira surpresa foi a saída da ministra da Defesa, Penny Mordaunt, que apesar de ter apoiado a candidatura de Jeremy Hunt à liderança do Partido Conservador era vista como uma aposta segura. "Vou voltar para o backbenches [nome dado aos deputados sem cargo no governo] a partir de onde o novo primeiro-ministro terá todo o meu apoio, assim como os meus sucessores na Defesa e Igualdade", escreveu no Twitter. Foi a primeira mulher a ocupar o cargo.

Também o ministro do Comércio Internacional, Liam Fox, anunciou que ia sair do governo: "Infelizmente vou deixar o governo. Foi um privilégio ser ministro do Comércio Internacional nestes últimos três anos", escreveu numa primeira mensagem, dizendo noutras que está orgulhoso do trabalho que fez e agradecer à sua equipa.

O ministro da Economia, Energia e Estratégia Industrial, Greg Clark, também anunciou nas redes sociais que não fará parte do governo. Era outro apoiante de Hunt, além de ter votado a favor de continuar na União Europeia no referendo de 2016 e agora ser opositor a uma saída sem acordo.

A secretária de Estado da Energia, Claire Perry, sai do governo, mas será a presidente da candidatura do Reino Unido a receber a conferência do clima COP26, que vai decorrer em novembro de 2020.

O ministro do Transportes, Chris Grayling, também não faz parte das contas de Boris Johnson, com os media britânicos a dizer contudo que sai a seu pedido.

Também nas redes sociais o ministro da Educação, Damian Hinds, anunciou a partida. "Foi um privilégio enorme servir como ministro da Educação", escreveu, dizendo que irá apoiar o governo desde o Parlamento.

O ministro da Habitação, James Brokenshire, também está de partida, dizendo que foi um privilégio estar no governo mas que está desejoso de ficar livre da responsabilidade coletiva e focar-se nos assuntos que importam para si e para os seus eleitores.

O ministro para a Escócia, David Mundell, também saiu, dizendo que não estava surpreendido de deixar o cargo. E acabou a mensagem a dizer: "Espero que ainda haja espaço nos backbenches!"

O chefe da diplomacia, Jeremy Hunt, adversário de Boris Johnson na corrida à liderança do partido, também não tem lugar no governo. Ou melhor, não aceitou aquilo que considerou ser uma despromoção, que era a nomeação para ministro da Defesa. "Teria ficado honrado de continuar o meu trabalho, mas percebo a necessidade de o novo primeiro-ministro escolher a sua equipa. Boris Johnson ofereceu-me gentilmente outro papel, mas após nove anos no governo e mais de 300 conselhos de ministros, agora é tempo de regressar aos backbenches, a partir de onde o novo primeiro-ministro terá todo o meu apoio", escreveu. Defende que é tempo de ser "um bom pai", apesar de ter tentado ser líder do partido.

A secretária de Estado da Imigração, Carolina Nokes, também saiu, deixando um aviso ao sucessor de que terá um desafio enorme pela frente. Não era ministra, mas fazia parte do Conselho de Ministros.

O ministro responsável pela ligação com o Parlamento, Mel Stride, também sai ao fim de apenas dois meses no cargo. Tinha substituído Andrea Leadsom, que se demitiu quando May começou a pensar na ideia de um segundo referendo no acordo de saída da União Europeia.

O ministro do Ambiente, Jeremy Wright, também saiu.

Outros ministros já tinham anunciado a demissão, ainda antes de May deixar Downing Street: o ministro das Finanças, Philip Hammond, que já tinha anunciado que o faria no fim de semana, o ministro da Justiça, David Gauke; o ministro do Desenvolvimento Internacional, Rory Stewart, e o ministro responsável pelo ducado de Lancaster (fonte de rendimentos da rainha) e pela gestão corrente do governo, David Lidington.

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