Linhas carmim 

As linhas podem juntar, ou dividir, espaços, pessoas, desenhos, terras, cidades, vidas; umas em relação às outras podem cruzar-se, aí, no cruzamento, no X, estão destinadas a estar pouco tempo, por mais que queiram rotundizar, às voltas, como no Playtime, de Jacques Tati, ou no Que Paródia de Férias, as linhas, por mais que queiram não podem e têm de decidir se se juntam, separam ou paralelizam. Estou numa linha, vou ter de mudar para outra. O letreiro diz Nächste Halt Solothurn, devemos ainda estar na Suíça alemã. Solothurn, solo turn, uma só saída, uma só viragem, não deve querer dizer isto, que o meu alemão nunca saiu do básico, preferi não enveredar pelo caminho normal na academia jurídica de se fingir que se sabe alemão, e às vezes as coisas não querem dizer nada, são só sons e o que as pessoas ouvem na cabeça quando os sons passam dos ouvidos para cima. Mudo de linha em Morges, um nome cinzento para um dia cinzento, depois da neve branca de Davos e Klosters, o branco mais branco que já vi a seguir àquele, nuvens baixas e a neve derretida, deve ter um nome, tudo tem um nome, mesmo que nome não queira dizer nada.

O comboio parou em Solothurn, a rapariga da outra cadeira sai, e leva a angústia consigo, espero que consiga libertar-se do medo que tem no fundo dos olhos doces, o nevoeiro que entra ou sai da neve com cor de gravilha não vai ser bom conselheiro, mas talvez, em casa, consiga a força a cada pensamento, a cada argumento, a cada discussão, olhando pela janela para o imenso cinzento, imenso mas domável quando visto enquadrado, e lhe diga aquilo que vinha a escrever no caderno, ou uma versão sintetizada e anestesiada, mas igualmente forte. Tem de haver uma palavra para esta neve, no A Senhora Smilla e Sua Especial Perceção da Neve, de Peter Hoeg, fala-se disso, um livro que devia ter lido mais cedo, tanta coisa que devia ter feito mais cedo, tão pouca mais tarde. Deve ter um nome esta neve parda para onde se pode olhar e ganhar força cinzenta.

Linhas são limites. Antes de vir para aqui, numa livraria, naquele momento eterno e tenso enquanto nos embrulham os livros, abri um dos que estão expostos junto à caixa, ou porque é novo, ou porque é tão mau que ninguém pega, este porque é bom e recente, uma reedição de O Livro do Joaquim, de Daniel Faria, na página em que abri, a entrada do dia 27 de novembro de 1993, no Porto, "não recuses nenhum dos teus limites, só eles dizem a grandeza do que tens". Daniel Faria, o poeta monge beneditino que morreu em 1999, com 28 anos, e que em pouco tempo soube muito.

Na frase tudo é bonito, mas a cada um fica o saber dos seus limites, de como quer lidar com eles, de como quer que sejam as suas paredes, se como as parede do quarto de China ou do de Carla. Nas canção Sympathique, dos Pink Martini, China Forbes canta um quarto que tem forma de jaula; o quarto em Le Ciel dans Une Chambre, de Carla Bruni, perde as paredes e o teto quando estão juntos, quando ele está junto dela; e para lá chegar não há um só caminho, há em francês ou em italiano, as palavras escolhidas em cada versão quase mas não as mesmas, porque as palavras nunca são as mesmas; e quem ouve com a impossibilidade de escolher entre as duas partes, mas também a desnecessidade de escolha quando a beleza simultânea acontece.

A senhora da carruagem começou a falar francês, estamos na Suíça francesa, países com duas línguas é interessante, é como famílias com várias línguas. Pena que não passem pela Suíça italiana estas linhas.

Em Davos almocei com um bioquímico que durante anos trabalhou na Campari, nas destilarias, disse-lhe que não sabia como alguém gostava de Campari, e ele riu-se como se não fosse a primeira vez que ouvia, e tenho pena de não saber então que a cor do Campari, o carmim, é ou foi feito com cochonilha, aquele inseto que um dia me matou um louro. Só vi isto quando cheguei ao hotel em Zurique, por causa de um enorme letreiro de néon a dizer Campari, e me pus a pesquisar sobre o Campari. A letra de Sympathique, do quarto em forma de jaula, vem de um poema de Guillaume Apollinaire chamado "Hôtel". O Campari é sempre carmim, os martínis podem ser cor-de-rosa, mas é no quarto com a Carla que as paredes se transformam em árvores infinitas. E o infinito é também uma forma de linha, uma espécie de limite.

Advogado

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