Cláudia Simões

Uma mulher foi agredida por um polícia. Sabemos isto, porque é inquestionável. Não sabemos ainda tudo, mas sabemos que uma mulher foi agredida por um polícia. Isto deveria ser o bastante para nos fazer parar para pensar: o que pode levar um polícia a agredir desta forma uma mulher, o que é que pode justificar que tenha sido necessária esta agressão, que especialíssima circunstância podemos imaginar para de alguma forma legitimar algo assim? Mesmo dando benefícios da dúvida, mesmo querendo saber mais, não é possível ignorar a agressão, aquela fotografia de Cláudia Simões, aquela cara desfigurada. Devia ser esse o ponto de partida para a nossa indignação, para a busca de respostas: aquela fotografia de uma mulher agredida.

Para muitos, no entanto, esse ponto de partida não existiu, porque um ser humano, uma mulher, não é mais uma pessoa mas uma espécie de objeto num debate, numa polarização, num campeonato político.

É como se Cláudia não existisse, não fosse relevante, e só fosse relevante o debate da existência ou não de racismo em Portugal e, por isso, o seu caso, a sua agressão, só pudesse ser vista a essa luz, como se reconhecer a agressão, que foi evidente, de alguma forma correspondesse a reconhecer que somos um país racista ou que a PSP é racista e que portanto há que duvidar, há que de alguma forma desculpar, para que essa tese não vingue.

Aquela mulher, Cláudia, merece que se perceba o que se passou pelo que ela é: uma pessoa.

Num Estado de direito, nenhuma pessoa pode ser sujeita a agressões injustificadas, sem qualquer legitimação. Nenhuma. Tenha que etnia tiver, tenha o passado que tiver. Está expresso na Constituição, logo no seu primeiro artigo, o princípio da dignidade da pessoa, que é princípio estruturante da matriz judaico-cristã.

Querer olhar para esta agressão com propósitos políticos, sobretudo na tentativa de esvaziar debates sobre racismo, ou para não dar razão a não sei quem, é um triste sinal dos tempos e um valente chega para lá nesse estruturante princípio, porque é tornar a pessoa irrelevante.

É dizer-lhe: não nos interessa o teu caso porque ele pode dar azo a conclusões com que não concordamos, não nos interessa o teu drama porque não podemos concordar com a ideia de que todo o país é racista e toda a polícia é racista.

Eu sei que há quem veja racismo em tudo, ou que tenha uma absurda aversão às forças de segurança, que é outra forma de dizer a uma pessoa que ela só nos interessa se o seu caso puder reforçar uma tese. Mas a minha consciência está-se nas tintas para essas pessoas quando vejo uma mulher agredida sem que eu perceba como.

Recusar-me a olhar para ela, querer saber dela, porque há uma narrativa a formar-se, ou porque discorde da ideia de que somos um país racista, ou porque acredito profundamente no papel e função e louvor da PSP, seria, lamento, virar as costas ao mais elementar dos princípios: esse mesmo, repito, o da dignidade da pessoa.

Advogado

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