O multilateralismo é realista

A seguir ao fim da guerra fria, e perante evidência de que havia uma única potência sobrante e capaz de intervir, direta ou indiretamente, em qualquer parte do mundo, generalizou-se a ideia de que em vez da ordem mundial dos vencedores haveria de haver uma ordem mundial plural, multipolar, capaz de incluir todos em vez de ser dirigida apenas por alguns. E esse mundo, dizia-se, por ser mais plural e cooperante, havia de ser melhor, mais justo. Como o tempo tem provado, o multilateralismo é apenas uma maneira de gerir as relações internacionais. Pode ser mais plural, não é necessariamente melhor nos resultados. E é bom que se tenha presente esta diferença, não tanto para recusar a ordem mundial que temo, mas para não esperar dela o que não é suposto.

Num mundo multipolar, e é isso que os entusiastas do multilateralismo muitas vezes não percebem, a grande diferença é que em vez do interesse de um ou uns, têm de se coordenar os interesses de vários. Em vez de contar apenas o que a América, ou o Ocidente, querem, tem de se ter em conta a Rússia, a China e, eventualmente, por aí fora. As relações internacionais, assim, serão, com certeza, mais plurais, mas será uma grande ingenuidade achar que daí resulta que sejam mais justas ou boas. Por se ter em conta os interesses da Rússia ou da China, o mundo não fica necessariamente melhor. O que acontece, e isso por si só é bom, é que o equilíbrio de poderes se joga à mesa, e não no terreno; o confronto é nas organizações internacionais e não entre exércitos, o que tem inúmeras vantagens. Mas, insista-se, daí não resulta que as soluções são sempre boas, generosas ou justas.

Vem isto a propósito da Venezuela e da União Europeia. É provável que fosse do interesse dos venezuelanos que a comunidade internacional fosse dirigida por quem está contra o regime de Maduro. No limite, provavelmente até seria preferível uma intervenção militar que depusesse o regime, acabasse com a crise humana e criasse espaço para haver eleições. Mas o mundo plural, multipolar e multilateral não é assim. Neste mundo, um gesto, americano ou ocidental, que não tenha em conta os interesses dos chineses ou dos russos corre o risco de criar muito mais problemas e bem para além da Venezuela. É por isso (e porque internamente seria uma diminuição da legitimidade de Guaidó) que uma ação musculada contra Maduro pode ter consequências negativas. Não por ser má em si, ou injusta, mas por tudo o mais que implica.

Este processo de ponderação de interesses é, com as devidas adaptações, o que se passa no interior da Europa. Muitas vezes a opção que ganha não é necessariamente a melhor, a mais justa ou eficaz, mas é, enquanto a União Europeia não for uma pura federação, a possível tendo em conta os interesses, com frequência divergentes, de todos. Não é uma Europa perfeita, mas é melhor do que se fosse.

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