Inteligência Artificial sem capacidade natural

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Em quase todas as ficções criadas com o mote da grande guerra entre homens e robôs, a premissa para a ascensão das máquinas é a capacidade que estas desenvolvem de raciocinar como os humanos. E invariavelmente elas são alimentadas a combustível de má vontade contra as cabeças pensantes de carne e osso, seja por nos julgarem indignos do mundo que durante séculos fomos destruindo seja pelo desejo de o dominar - uma predisposição que, aliás, não podia ser mais humana, como a História não se cansa de nos provar.

O que nenhum escritor se lembrou de imaginar foi uma sociedade vencida por si própria com recurso às máquinas. Por não ser capaz de usar o potencial incrível disponibilizado pelos crescentemente sofisticados robôs. Vemo-lo todos os dias, nos que se demitem de pensar e privilegiam o politicamente correto ou a opinião coletiva do grupo escolhido, rejeitando o debate aberto e honesto e cerrando fileiras contra todos os que não se limitam a validar os seus argumentos. Sentimo-lo na incapacidade de entender a realidade que nos rodeia apesar de vivermos na era com o maior acesso a informação de sempre. Experimentamo-lo quando temos à disposição todos os instrumentos para formar as nossas opiniões mas nos demitimos de pensar.

Procuramos diagnósticos médicos no Google, amigos nas redes sociais, felicidade nas séries em que nos viciamos, valores no imediato sem contexto, ídolos no êxito do momento, propósitos na causa da moda.

Num mundo em que a Inteligência Artificial domina grande parte das nossas interações, parece cada vez mais óbvio que não são as máquinas as más da fita. São mesmo os humanos, numa crescente estupidificação potenciada pela crença mais ou menos consciente de que já não têm necessidade de interagir com outras pessoas e que sozinhos conseguem encontrar as respostas a todas as suas dúvidas e inquietações.

Conforme a IA se desenvolve e nos liberta para aquilo que poderiam ser muito melhores reflexões e um entendimento mais amplo e fundado do mundo, que nos deixa mais tempo livre para darmos largas à criatividade e à imaginação, a nossa incapacidade torna-se mais óbvia. Conforme temos mais acesso à riqueza da diversidade do planeta, mais cresce a nossa intolerância para com a diferença - e isso revela-se tanto naqueles que se atiram aos que são diferentes deles próprios ou que pensam de forma distinta do seu reduzido núcleo virtual quanto nos que, em nome da igualdade, tentam esfumar as diferenças alisando-as com o objetivo final de uma sociedade de indivíduos indistintos.

Há vantagens enormes na digitalização, mas há também o enorme risco de nos levar a um profundo isolamento, à indiferença e à frigidez. Dois anos de pandemia e confinamentos pioraram o que já era tendencialmente perigoso, desligaram-nos uns dos outros, puseram-nos a falar através de ecrãs com aqueles que nos são próximos e a não querer saber dos que não o são.

Perdermos a interação física e emocional, rejeitarmos o toque e as trocas, ficarmos cegos e rendidos a uma realidade virtual em lugar de admirarmos as nossas diferenças até deixarmos de reconhecer defeitos e virtudes, rendendo-nos a um mundo artificial será condenar-nos a empobrecer até ao desaparecimento. Será essa a vitória das máquinas: o dia em que nos convencermos que não precisamos uns dos outros. O dia em que perdermos a humanidade.

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