Mais enxuto mas pouco, mais secreto mas pouco. É assim o novo governo. À hora de almoço de ontem conheceu-se a estrutura do novo executivo que António Costa tinha prometido ser uma "task force", ou seja, uma equipa mais enxuta, mas de 19 ministros ficam ainda 17. É matematicamente um governo mais curto e isso é um bom sinal, mas aquém das expectativas de alguns analistas, politólogos e eleitores. Mais magra é a equipa de secretários de Estado que é reduzida de 50 para 38. Por outro lado, Costa terá imposto aos seus ministros uma espécie de disciplina de silêncio, ou seja de manter a nova lista de governantes em segredo até ser entregue em Belém, contudo uma lista (quase) final com os nomes dos novos ministros terá ido parar à comunicação social. Confrontado com esse facto ainda antes de receber o rol em mãos, o Presidente da República não escondeu o desconforto. Instalou-se uma tensão, absolutamente dispensável, entre os palácios de São Bento e de Belém. Por esses lados, viveram-se ambientes palacianos de desconforto, intriga, desconfiança..O XXIII governo constitucional começou envolto em polémica, com um incidente que poderia ter sido evitado. O mesmo pode não deixar rasto na relação Belém-São Bento, mas marcou negativamente este simbólico momento político de anúncio de um novo executivo..Costa surpreende pelo número de alterações que fez e de mulheres que escolheu. Na lista oficial há sete novos nomes e deixa de haver ministros de Estado, aliás Costa acaba por concentrar em si mesmo mais poder. (Todas as novidades estão na página 4 a 7 desta edição.) Entre as saídas potencialmente mais arriscadas para António Costa, está a de Pedro Siza Vieira, uma máquina jurídica e enquanto foi ministro da Economia, com conhecimento do sector privado e que deu a cara na gestão do impacto económico da pandemia e da guerra. A saída de Santos Silva, justificada para presidir à Assembleia da República, sentir-se-á em pleno contexto de guerra na Europa. O mesmo em relação a João Leão, tecnicamente competente, sendo agora substituído nas Finanças por Fernando Medina. Num país com forte dívida pública e a tentar recuperar de uma profunda crise pandémica, as Finanças vão estar debaixo de fogo. Do Ambiente sai Matos Fernandes, que dominava a pasta e fala "em dever cumprido", sendo agora substituído por Duarte Cordeiro, que sobressaiu politicamente nas últimas negociações do Orçamento do Estado. Entre as novidades, destaca-se ainda Costa Silva, um homem inteligente, que conhece o setor privado e elaborou o documento com o plano de recuperação e resiliência..Ter uma mulher na Defesa é um importante marco histórico, pois será a primeira mulher na pasta, que está agora debaixo dos holofotes devido ao conflito na Ucrânia. A seu favor, joga o facto de, pela primeira vez em décadas, a defesa ter mais orçamento e poder gastar mais em forças armadas, sem deixar de ser popular por esse motivo. Helena Carreiras é uma das nove mulheres escolhidas e fará, certamente, uma boa pasta. Apesar da maioria absoluta, serão quatro anos desafiantes para o novo governo, com a conjuntura internacional a baixar todas as expectativas de estabilidade e de crescimento. A task force, que afinal é XL, não terá uma missão fácil.