O vírus não respeita a neutralidade, mas a Suíça está a ganhar esta "guerra"

Com fronteira com o norte de Itália, onde surgiram os primeiros casos de covid-19 na Europa, a Suíça agiu cedo. Suspendeu a autonomia dos cantões, proibiu grandes eventos e cancelou o Carnaval, mas nunca impôs o confinamento total. Agora, a reabrir, a boa gestão da pandemia vale-lhe comparações com Portugal. Uma economia, forte e diversa, é que deverá resistir melhor à crise que aí vem.

Em meados de março, o Governo suíço decidiu que, caso fosse necessário, poderiam vir a ser mobilizados até oito mil militares para apoiar na luta contra a covid-19. Foram finalmente 1800 homens e mulheres que, em 24 horas, deixaram as suas vidas civis e integraram as Forças Armadas para ajudar nos hospitais, estradas, fronteiras e aeroportos, naquela que foi a maior mobilização geral do exército desde a II Guerra Mundial, mas que tem vindo a ser reduzida, com a melhoria da situação. Conhecida pela tradição de neutralidade, que marca a política do país desde 1815, a Suíça viu-se agora perto do epicentro europeu da "guerra" ao novo coronavírus. E se o vírus não se compadece com a neutralidade, a verdade é que uma ação rápida das autoridades federais salvou o país do pior em termos de saúde - tem agora mais de 30 mil infetados de 1900 mortos - e uma economia forte e variada promete resistir melhor que muitas outras à crise financeira que a pandemia está a gerar.

Apesar da mobilização do Exército - um facto que "mostra a grande flexibilidade do exército de milícias na Suíça e a capacidade dos vários ministérios para trabalhar em conjunto numa crise" -, o embaixador suíço em Lisboa, André Regli, faz questão de sublinhar que "o Conselho Federal - o nosso governo - nunca se pronunciou sobre a covid-19 em termos marciais". E sublinha que a neutralidade do país não faz assim parte do debate. Para o diplomata, "a covid-19 demonstrou que as crises não têm fronteiras" e recorda que o seu país "faz fronteira, entre outros, com o norte da Itália, onde foram identificados os primeiros casos na Europa". Por isso mesmo, "a Suíça considera o multilateralismo, ou seja, a colaboração entre Estados, nomeadamente entre Estados europeus, como um instrumento indispensável para responder aos desafios criados pela covid-19."

Talvez devido à proximidade com esse norte da Itália tão fustigado pelo novo coronavírus, a Suíça foi muito rápida a agir para conter a propagação da covid-19. "Já em fevereiro foram tomadas as primeiras medidas: proibiram-se quaisquer eventos com mais do que mil pessoas e anulou-se - com alguma coragem e contra bastante contestação - atividades festivas com muita tradição, como por exemplo o Carnaval", explica Gregor Zemp, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Suíça em Portugal.

Professor de História da Medicina na Universidade de Zurique, Flurin Condrau lembra que "esta pandemia não chegou de forma inesperada. Desde os anos 1990 que a Organização Mundial da Saúde encorajou os Estados-nação a desenvolver planos para a pandemia, e a Suíça foi uma dos primeiros a fazê-lo depois do surto de SARS em 2003. A experiência de gripe A em 2009 levou depois a um ajuste do enquadramento legal, que foi aprovada por voto popular em 2012". Quanto à resposta do Conselho Federal à covid-19, Condrau garante que "tendo em conta que a Suíça é um país altamente desenvolvido, situado entre importantes economias europeias, e altamente dependente da migração e do comércio transfronteiriço, sinto que as medidas tomadas foram proporcionais e razoavelmente bem-sucedidas".

"Desde os anos 1990 que a OMS encorajou os Estados-nação a desenvolver planos para a pandemia, e a Suíça foi uma dos primeiros a fazê-lo depois do surto de SARS em 2003"

Um dos desafios para um país como a Suíça, orgulhoso da sua democracia direta e do elevado grau de autonomia dos cantões e das comunas, foi coordenar uma resposta comum à pandemia de covid-19. "O federalismo está no ADN da Suíça. Tornou-se um princípio do sistema político do Estado suíço moderno, fundado em 1848", explica o embaixador André Regli. Mas, como acrescenta o diplomata, "a fim de poder gerir a [pandemia] da melhor forma possível, o Conselho Federal tomou medidas para suspender temporariamente a autonomia dos cantões e do Parlamento com base na Lei das Epidemias", uma situação excecional que permitiu assim "adotar medidas uniformes em todo o país, apesar de algumas regiões da Suíça terem sido muito mais afetadas do que outras pela propagação do vírus".

Uma prova de que o federalismo num país de 8,5 milhões de habitantes espalhados por 26 cantões e falando quatro línguas oficiais - francês, alemão, italiano e romanche - soube adaptar-se a estas circunstâncias inéditas. Mas não deixou de procurar consensos. "Segundo o nosso ministro da Saúde, "pensar que tudo pode ser decidido lá no topo e que todos vão concordar, não funciona"", explica o embaixador Regli, antes de acrescentar: "O Conselho Federal fez questão de garantir o apoio dos cantões e da opinião pública, o que implicou por vezes longas discussões com as autoridades em causa e entre conselheiros federais, oriundos de quatro partidos."

Economia forte e diversificada

Com o desconfinamento já na segunda de três fases, a grande preocupação neste momento é, na Suíça como nos restantes países, a recuperação da economia. E, nesta área, a Confederação Suíça tem armas bastante fortes. "Com uma economia aberta para o mundo, a Suíça não será poupada", admite o embaixador Regli, admitindo que "o Fundo Monetário Internacional espera que o PIB diminua 6% em 2020, enquanto a Secretaria de Estado dos Assuntos Económicos estima uma queda de 6,7%. Mesmo assim umas previsões "melhores do que para muitos países europeus". No caso de Portugal, a estimativa do FMI é de uma quebra de 8% do PIB.

Apesar de admitir que a crise que se avizinha não vai ser fácil de superar, Gregor Zemp admite que a economia suíça tem duas vantagens. A primeira é "a competitividade da nossa economia, que permitirá uma retoma mais rápida", e a segunda é "a dívida pública ter-se situado ao longo dos últimos dois anos em cerca de 30%, portanto, num valor mais baixo do que em muitos outros países". Para o secretário-geral da Câmara do Comércio e Indústria Suíça em Portugal, "com os cofres mais abastecidos combate-se a crise com mais facilidade", logo "países, empresas e até pessoas que tiverem a liquidez necessária conseguirão ultrapassar este período com as receitas afetadas e investir na adaptação às novas circunstâncias, até o mercado se normalizar".

Zemp reconhece que na Suíça como nos outros países há setores que vão perder e outros que vão ganhar com a pandemia. O turismo, que conta para 3% das receitas diretas da economia suíça (8%, incluindo receitas indiretas), será o primeiro a perder, tal como os setores associados, mas também "as empresas de trading, sobretudo de matérias-primas, das quais a Suíça tem várias com peso internacional", explica Gregor Zemp. Segundo o secretária-geral da Câmara do Comércio e Indústria Suíça em Portugal, as PME (cerca de 99% das empresas suíças) também deverão ficar prejudicadas, uma vez que "dependem fortemente da exportação".

"A fim de poder gerir a [pandemia] da melhor forma possível, o Conselho Federal tomou medidas para suspender temporariamente a autonomia dos cantões e do Parlamento com base na Lei das Epidemias"

Quem ganha, explica Zemp, "é o cluster Life Science (química/farmacêutica, biotech, medtech), particularmente o setor farmacêutico, em que empresas como uma Roche, com um longo historial de desenvolvimento de produtos, neste momento estão a trabalhar arduamente no desenvolvimento de medicamentos e/ou de uma vacina contra o vírus", além dos seguros ou o setor financeiro, "uma vez que a Suíça continua a ser considerada segura e estável, um "porto seguro" para os tempos de tempestade".

No imediato, o governo suíço anunciou uma ajuda de emergência da ordem dos 60 mil milhões de francos suíços (mais de 56 mil milhões de euros) para travar as consequências económicas e sociais da pandemia. Esta ajuda "será utilizada para proporcionar liquidez às empresas, para evitar, tanto quanto possível, despedimentos e para cobrir a perda de rendimentos dos trabalhadores independentes", afirma o embaixador Regli, que, apesar de admitir que "provavelmente não será suficiente para fazer face às perdas colossais" causadas pela crise do covid-19, acredita que, por ser tão "diversificada e forte", a economia suíça deverá "atenuar os efeitos adversos" da pandemia.

Semelhanças com Portugal

Nestes tempos em que a Europa está a avançar para o desconfinamento, o embaixador Regli lembra que desde o primeiro dia o seu país decidiu "confiar na responsabilidade individual, sem impor um confinamento rigoroso". E quando o pico do surto passou "e sabendo que o nosso sistema de saúde tinha aguentado, o Conselho Federal decidiu um desconfinamento em três fases", lembra o diplomata, sublinhando que "o ministro da Saúde, Alain Berset, disse uma frase que resume bem a atitude do Governo: "Queremos agir o mais rapidamente possível, mas tão lentamente quanto necessário."" Uma atitude em que vê "muitas semelhanças com a do Governo português".

Também Gregor Zemp, residente em Portugal desde 2001, vê semelhanças entre a gestão feita pelos dois países no combate à covid-19. "Portugal fez uma gestão de crise exemplar. Sem espalhar o pânico, no entanto de modo eficaz, como as estatísticas comprovam, e de forma inteligente, porque aprenderam rapidamente com os países onde o vírus já tinha começado a espalhar-se." E recorda que "na Suíça como noutros países europeus foram publicados vários artigos sobre "O caso Portugal e a boa gestão da crise do coronavírus"".

"Em países com uma governação mais humilde e democrática, como a Suíça e Portugal, o combate à crise tem sido mais bem-sucedido"

Para o secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Suíça em Portugal, "o que é interessante nesta altura é constatar que em países com uma governação mais humilde e democrática, como a Suíça e Portugal, o combate à crise tem sido mais bem-sucedido. Em países com uma governação mais autocrata e até arrogante, como os EUA, a Rússia ou o Brasil, e no início também o Reino Unido, o vírus conseguiu causar mais prejuízo, com mortes e consequências económicas mais dramáticas". E deixa o desejo: "Esperamos que os governos da Suíça e de Portugal continuem com esta forma humilde, consequente e pragmática a combater esta crise."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG