Que espaço para a mensagem política?

"A mediacracia é já uma realidade plena?" É pergunta que pode surgir facilmente a quem - mesmo de férias - esteja no mínimo atento. O conceito não é de agora (surgiu por altura dos anos 1990) nem a preocupação com a influência dos media na ação política. Em Portugal, foi Abril que pressupôs a recusa da instrumentalização dos media para fins políticos e que sobrepôs a luta por um espaço de discussão pública à publicitação da ação política. A televisão foi a sua primeira grande catapulta, com o televisionamento dos grandes discursos e dos grandes debates.

Hoje, a televisão, a rádio e a imprensa já não são soberanas e dividem o seu lugar com as redes sociais, o post, a #hashtag e a partilha amplificada da opinião. Os media, na esfera pública, passaram de interface de informação a plateau de comentadores e especialistas, de jornalistas e até do cidadão comum. Há que reconhecer, no entanto, também o surgimento de um novo fenómeno - a radicalização da ligação entre a política e a esfera mediática, de que Donald Trump, a nível internacional, continua o melhor e mais atual exemplo. Foi ele que deu impulso político ao Twitter e à publicidade aplicada à política. Recentemente, tuitou a intenção de comprar a Gronelândia. O intuito desse tweet nunca foi verdadeiramente esclarecido. Mas a publicidade (alheia às alterações climáticas que afetam a ilha e o mundo) à sua cadeia de hotéis, essa, já estava feita. Esta situação e o recurso ao boato e à fake news para veicular um nacionalismo mal disfarçado por via dos media são apenas dois exemplos da sua estratégia. Ambos ilustram uma quase que "mediacracia", que até custa a pronunciar, e em que o mérito mais parece residir na capacidade de amalgamar política e espetáculo mediático. Reproduzindo e difundindo virtualmente a realidade que mais convém, até a negação do degelo polar à frente dos olhos é encarada como possibilidade.

Portugal não é exemplo desta realidade, mas é cada vez menos exceção. São cada vez mais os casos em que a esfera mediática é usada para projeção política e, para tal, têm servido de pretexto até greves e reivindicações laborais.

Que moldes para a mensagem política? Não são de certeza os da crítica atabalhoada que a oposição em Portugal está neste momento a fazer. Não são os da crítica que ignora a importância da Lei de Bases da Saúde e o trambolhão que a dívida pública deu em junho para o valor mais baixo em sete anos. Nem os da oposição que rejeita que haja menos barreiras nas escolas para os alunos transgénero já em setembro. Muito menos os da oposição que apela à intolerância.

Como recusar a instrumentalização mediática da política é uma reflexão cada vez mais premente. A prazo, é também desta reflexão que dependerá a salvaguarda dos valores democráticos.

Deputada do PS

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