Premium O quarto poder

É espantoso que um homicídio tão tosco tenha sido considerado o "crime do século".

O marido acordou morto, e mesmo ela não se estava a sentir lá muito bem. Ficara inconsciente durante seis horas, fruto da agressão brutal de um homem enorme - um "gigante", como o descreveu à polícia -, que lhe entrara em casa naquela madrugada de 20 de Março de 1927. A residência, modesta, ficava num bairro tranquilo de classe média em Queens Village, Long Island, estado de Nova Iorque, e era a morada de Ruth e de Albert Snyder, e da filha do casal, Lorraine, uma menina de 9 anos. Com a ajuda de um cúmplice, o homem enorme e de sotaque estrangeiro entrou na casa, neutralizou Ruth Snyder pela força, estrangulou o marido com um pedaço de fio metálico igual ao usado para pendurar as molduras dos quadros, no fim esmagou-lhe o crânio com o contrapeso de uma janela de guilhotina. De seguida, ele e o comparsa vasculharam as gavetas, deixaram o quarto em pantanas e fugiram com as jóias da senhora Snyder. O crime ficou conhecido como o "homicídio do contrapeso" e foi um dos casos mais célebres da movimentada história judicial da América. Não pela sua especial complexidade ou pela perversidade singular dos seus agentes, mas pelo destaque que mereceu da imprensa sensacionalista, e não só. É um dos melhores exemplos de que, muitas vezes, a realidade é fabricada pelos jornais, que têm o poder imenso de gerar factos - na gíria, "factos noticiosos", como se fossem diferentes dos factos reais - ou de lhes dar uma inusitada dimensão, superior à que merecem. O contexto da época ajudava à afirmação do "quarto poder". Na década de 1920, a imprensa norte-americana teve uma explosão sem precedentes, com as vendas dos jornais a alcançarem os 36 milhões de exemplares por dia, uma média de 1,4 jornais por família. Entre eles, destacavam-se os tablóides inspirados na tradição britânica, com notícias de desporto, mexericos de celebridades e histórias macabras de crimes hediondos: o Daily News era o jornal mais vendido do país, com uma tiragem diária de um milhão de cópias, o dobro do New York Times. Muitas outras publicações procuraram imitar-lhe o sucesso, às vezes para lá de todos os limites do razoável: em 1926, após a morte de Rudolfo Valentino, o Graphic saiu à rua com uma série de peças jornalísticas escritas no túmulo pelo actor falecido...

Os mais sensatos ficaram surpreendidos com o alarido suscitado por um crime tão banal e tão estúpido, em que a senhora Snyder e o seu amante e cúmplice foram descobertos e incriminados ao fim de poucos dias. Estranharam os detectives que a filha Lorraine não tivesse acordado com tanta algazarra em casa, no quarto ao lado do seu; um simples exame médico mostrou que Ruth Snyder não tinha quaisquer contusões nem mazelas no corpo em resultado da hipotética agressão de que fora alvo; uma busca sumária detectou as jóias no local óbvio, debaixo do colchão da sua cama; essa cama, onde ela supostamente se encontrava a dormir, não estava sequer desfeita; o co-autor do homicídio foi rapidamente identificado por um taxista de Long Island a quem dera uma gorjeta miserável. Um desastre completo, a incompetência total. Um cronista mais cáustico chamou-lhe "o crime dos imbecis". Ainda assim, e como recorda Bill Bryson no maravilhoso livro Aquele Verão, o caso incendiou paixões nunca vistas e teve mais cobertura mediática do que qualquer outro processo da época, só sendo ultrapassado anos depois, em 1935, pelo famoso rapto do bebé Lindbergh. Ao que parece, o "homicídio do contrapeso" superou mesmo, em volume de notícias, as manchetes do naufrágio do Titanic. No dia em que Ruth Snyder e o seu cúmplice foram levados a tribunal, aguardavam-nos cento e trinta jornalistas, alguns deles oriundos de países distantes como a Noruega. A Western Union instalou no local a maior central telefónica alguma vez construída, maior do que a usada para cobrir as convenções presidenciais ou as finais dos campeonatos de basebol. Na rua, muitos milhares de pessoas, barracas de comes e bebes, vendedores de alfinetes de gravata em forma de contrapeso. No interior do tribunal, nomes sonantes da alta finança e da política, até a marquesa de Queensbury e a mulher de um juiz do Supremo Tribunal, ninguém queria perder o espectáculo. Pelo meio, apareceram na sala de audiências um mágico de nome Thurston e quatro pregadores evangélicos de nomeada, um dos quais, segundo um relato da época, era conhecido por abominar muita coisa: jogos de cartas, bebidas espirituosas, caniches, música jazz, teatro, vestidos curtos, o divórcio, romances, quartos abafados, o boxe profissional, o evolucionismo, os excessos alimentares, o Museu de História Natural de Nova Iorque, o nu artístico, as corridas de lebres, a influência da Standard Oil na Igreja Baptista e a vida privada dos actores de teatro e cinema.

De substancial, pouco havia. Os réus tinham confessado os crimes ao fim de pouco tempo, as provas eram esmagadoras e estavam à vista de todos. Havia, pois, que carregar nos pormenores que permitissem dar colorido e sensação a uma história assaz vulgar e insípida. O facto de Ruth Snyder e o seu cúmplice serem amantes deu azo a milhares de notícias, impregnadas de alusões sexuais, e a descoberta de que, na noite do crime, ela envergava um quimono vermelho cor de sangue fez o delírio da imprensa, chegando a ser impressas edições especiais só para divulgar ao mundo tão retumbante achado. Quanto ao mais, pouco a dizer, um caso clássico: Ruth, uma secretária sonhadora e estouvada, era treze anos mais nova do que o marido e aceitara casar ao fim do terceiro ou quarto encontro, quando ele lhe dera um anel de noivado com uma pedra faiscante ("não podia rejeitar aquele anel", confessou a uma amiga). Ele era editor de arte da revista Motor Boating, um homem taciturno que não a fazia feliz e que, para agravar as coisas, não esquecera a paixão pela namorada anterior, já falecida. Recusara-se a tirar da sala as fotografias da antiga amada, baptizou o barco da família com o seu nome, ao fim de dois dias de casada Ruth confessou a Albert que não se sentia atraída por ele. Após dez anos de casamento sem amor, Ruth começou a sair sozinha à noite, conheceu vários homens, acumulou casos sentimentais, alguns meramente carnais. Em 1925, num café de Manhattan, conheceu Judd Gray, caixeiro-viajante de uma empresa de lingerie, a Bien Jolie Corset Company. Com um ar professoral e óculos redondos, casado, pai de uma menina de 10 anos, Gray era um homem exemplar, que dava aulas de catecismo, cantava no coro da igreja e recolhia fundos para a Cruz Vermelha. Por trás dessa fachada, um infiel militante, sempre metido em aventuras com mulheres casadas. Ruth convencera Albert a fazer um seguro de 50 mil dólares a seu favor, que seria duplicado para 100 mil dólares em caso de morte violenta, e desde então tentara assassiná-lo de várias maneiras e feitios. Todas as noites, adicionava veneno ao uísque do marido, e repetia a dose na hora da sobremesa. Como o veneno não se mostrava eficaz, acrescentou pílulas de dormir trituradas ao cocktail e deu-lhe a tomar cloreto de mercúrio em comprimidos com o pretexto de que lhe fazia bem à saúde. Porém, Albert, vá-se lá saber porquê, teimava em não morrer. Às tantas, Ruth chegou a tentar despachá-lo com gás, mas o marido, um desmancha-prazeres, mantinha a obstinação de se manter vivo e saudável. Foi então que a senhora Snyder convenceu o amante a ajudá-la. Engendraram um plano cheio de falhas, simulando um assalto perpetrado por imigrantes estrangeiros subversivos, numa tentativa grosseira de explorar o clamor do caso Sacco e Vanzetti, os anarquistas italianos que aguardavam a execução no estado de Massachusetts. Tudo demasiado óbvio: na mesa da cozinha foi deixado um jornal anarquista italiano, como se os assaltantes, a meio do crime, tivessem decidido fazer uma pausa e ler um bocadinho de doutrina libertária após sovarem a senhora Snyder até deixá-la inconsciente e esmagarem o crânio do seu marido com o contrapeso de uma janela de guilhotina.

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