Viragem de página na diplomacia 

Os constantes falhanços diplomáticos de Londres e Washington, não há muito tempo faróis de sucesso no setor, degradam a diplomacia como instrumento essencial da política internacional e são um desafio enorme para os aliados. Portugal tem aqui um misto de preocupação com oportunidade. Talvez não tenha tão cedo condimentos tão propícios a uma boa mudança.

Esta semana mostrou uma vez mais o estado lastimável em que está a diplomacia anglo-americana. Claro que não me refiro à esmagadora maioria dos seus diplomatas espalhados pelo mundo ou a braços com os complexos tempos que se vivem no Foreign Office e no State Department. Washington e Londres continuam a ter das melhores escolas diplomáticas, misturando tradição e inovação ao serviço dos interesses nacionais, quantas vezes coincidentes com os interesses de um conjunto alargado de outros Estados. Esta convergência, infelizmente, mudou radicalmente desde 2016.

Em Londres, ninguém estava verdadeiramente preparado para lidar com o Brexit e nem mesmo os mais brilhantes diplomatas têm conseguido acomodar as convulsões provocadas pelos principais atores políticos. A definição tardia de um roteiro de saída minimamente compreensível dificultou sobremaneira o papel dos seus explicadores no estrangeiro. Pude testemunhá-lo em várias ocasiões, tanto em Lisboa como noutras capitais europeias. Além disso, a omnipresença das táticas perversas dentro do governo britânico e nos dois principais partidos conduziu todo o processo a uma desvalorização constante do essencial, com possíveis danos irreparáveis ao interesse nacional mais básico: a própria unidade do Reino Unido. A aventura do Brexit parece mais um desvario de amigos à volta de uma mesa num pub regado a cerveja do que um plano estratégico desenhado por uma maioria que lhe deu a legitimidade necessária. No meio disto, ainda sem fim à vista, estão todos aqueles que, discordando, têm de fazer o melhor para assegurar que a diplomacia britânica não é mais um dano colateral do Brexit, tapando buracos, repondo credibilidade, reconstruindo relações com terceiros.

É para mim evidente que a qualidade dos seus diplomatas é muito superior à da atual classe política britânica, mas isso não significa que tudo mudará, ficando o essencial mais ou menos na mesma. Não será assim. A começar na maneira como passaremos a olhar para a força política do Reino Unido na política internacional, no meio dos choques económicos provocados por uma saída sem acordo ou pela indefinição estratégica resultante de eleições antecipadas. A ver pelo plano alternativo que Boris Johnson tem ensaiado nas últimas semanas - contactos permanentes com Trump na esperança de ali encontrar uma compensação aos bloqueios de Paris e Berlim - o final desta história pode mesmo tornar o Reino Unido (ou já nem isso) completamente no bolso negocial de um presidente americano que trata pior os aliados do que os adversários. O triste episódio da Gronelândia, que alguns quiseram atribuir a uma súbita vocação estratégica de Trump pelo Ártico, só vem demonstrar que nenhum aliado está a salvo de bullying.

Em Washington, o choque da máquina diplomática com a eleição de Trump ainda não foi reposto. Os cortes orçamentais, a negligência no preenchimento de lugares de topo e a total disfuncionalidade na hierarquia de comando, excessivamente centrada nos humores do presidente, quebraram uma longa tradição de continuidade estratégica na diplomacia americana do pós-guerra, independentemente das maiorias no Congresso ou do partido do chefe de Estado. Acresce a isto a voracidade com que embaixadores americanos, muitos deles vindos da péssima tradição das nomeações como prémio por serviços prestados em campanha, debitam pensamentos incendiários nas redes sociais, achando que o padrão presidencial lhes permite o devaneio. Afirmações de altos cargos políticos têm impactos diplomáticos e em política, até prova em contrário, a palavra conta e muito. A administração Trump podia até ser portadora de várias conquistas para os seus inabaláveis interesses, na esteira da natureza nacionalista que a guia, e toda esta postura diplomática descabelada passaria para segundo plano em função do reconhecimento dos seus méritos. Mas o que estes dois anos e meio trouxeram foi uma mão cheia de nada.

Acordos rasgados sem salvaguardas, uma reputação junto de aliados que está hoje na rua da amargura, um vazio estratégico sem paralelo, mais vulnerabilidade à insegurança interna pela condescendência com a lei das armas e o terrorismo nacionalista, e muito menor influência nas dinâmicas de poder globais. Basta ver como a gestão da tensão comercial com a China não trouxe qualquer benefício aos EUA, tendo mesmo agravado a economia nalguns Estados, ou como caminha descontrolado o nível crescente de agressividade entre a Coreia do Sul e o Japão (que acabaram com a partilha de intelligence nesta última semana), os dois maiores pilares de Washington na Ásia, sem que os EUA conseguissem qualquer intermediação. Aliás, foi humilhante assistir ao cancelamento das reuniões dos ministros dos Negócios Estrangeiros japonês e sul-coreano com Mike Pompeo, um sinal da baixa credibilidade que a América tem hoje na região. Para isso muito ajudou o monumental logro que foram os encontros com Kim Jong-un e a continuação ostensiva da nuclearização pelo regime norte-coreano, ou o recente anúncio de Trump sobre um hipotético convite do presidente indiano para mediar o conflito em Caxemira, com Modi a desmentir de imediato. As tiradas diplomáticas americanas e a influência no coração da sua prioridade geoestratégica global é hoje mais fraca, mais pobre e um autêntico embaraço aos seus mais legítimos interesses nacionais.

Em boa verdade, nada disto é muito surpreendente. Mas, não o sendo, não deixa de ter um custo, sobretudo para um Ocidente que muito tem confiado nas capacidades de Londres e Washington e para aqueles que têm assentado alianças estruturais com ambas, num fino equilíbrio com as potências europeias continentais e outras esferas de interesses espalhadas pelo mundo. É o caso de Portugal. A degradação da influência e da imagem do Reino Unido e dos EUA junto dos aliados vai implicar mais autonomia decisional. Na sua ausência, mais capacidade conjunta das democracias europeias que ainda pautam as suas relações por confiança mútua. Para atingir a primeira, vão ser precisos mais recursos endógenos, mais investimento público e cooperação com privados. Não é possível continuar a ter um Ministério dos Negócios Estrangeiros com uma dotação orçamental das mais pobres da administração pública, quando os vácuos diplomáticos internacionais abrem a porta à presença da nossa boa diplomacia e, por via disso, à defesa dos nossos interesses, quantas vezes em convergência com outros aliados. Para chegar à segunda, é preciso quebrar o corporativismo diplomático, abri-lo à sociedade e cruzá-lo com experiências externas que só o valorizam. Tradição e inovação não podem ter um diálogo surdo. Em época de desvalorização diplomática quem for pioneiro no ciclo oposto estará mais capacitado para projetar o seu país, as suas empresas e os seus melhores recursos. Todos saem a ganhar.

Investigador universitário

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.