Ex-votos

No Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

Foi mais ou menos assim que o erudito elvense Eurico Gama, falecido em 1977, contou a história dos ex-votos do Senhor Jesus da Piedade. O mais antigo data de 1737, ou seja, foi pintado não muito depois do episódio da queda e promessa do padre Manuel Antunes. Ex-voto, segundo o que se prometeu, ensina-nos mestre Leite de Vasconcelos. Com o passar dos séculos, a devoção do povo encheu a capela de imagens. As paredes cobriram-se de ex-votos, carregadinhas até ao tecto. São aos milhares, a olhar para nós.

Para ter a noção da importância do que para ali vai dentro, há um pequeno mas denso livrinho que o historiador de arte Georges Didi-Huberman dedica ao tema dos ex-votos e ao que designa por "contrato votivo" dos homens com o divino. As origens remontam ao Paleolítico Superior, mais precisamente às mãos pintadas nas paredes das cavernas e outros locais de culto. Floresceram em tempos gregos, etruscos e romanos e, mais tarde, em várias regiões da cristandade medieval, de Chipre à Baviera, de Itália à Península Ibérica. Caracterizam-se, diz Huberman, pelo seu carácter orgânico e vulgar, por uma mediocridade estética que, todavia, não apaga o essencial: a sua resistência a qualquer forma perceptível de evolução; no fundo, àquilo que chamamos "progresso". As formas de representação, sobretudo as anatómicas, mantêm-se inalteradas há vários séculos.

Na Idade Média, cerca de 84% dos ex-votos já eram feitos de cera. No seu ensaio, Didi-Huberman apresenta em anexo muitas imagens de cera, quase todas de Portugal. Encontramo-las em toda a parte, de facto: na Senhora da Saúde, em Lisboa; numa loja de artigos religiosos perto dos Clérigos, no Porto; acumulados aos molhos numa das saletas da igreja da Piedade em Elvas. Braços e pernas, olhos e mamas, intestinos grossos e delgados, rins ou bexigas, estômagos e próstatas (estas, muito procuradas), vísceras variadas, além de cabeças unissexo ou crianças inexpressivas, de ventres intumescidos; mais raramente, tractores e alfaias agrícolas em prece de boas colheitas, automóveis em miniatura (para garantir o sucesso no exame de condução), livros espessos (para o êxito em provas académicas). Tudo de cera, cor de manteiga.

Não são esses, porém, os objectos que merecem o maior destaque em Elvas, o qual deve ser reservado por inteiro para as pinturas votivas e os seus dizeres. Além, claro está, dos ex-votos feitos em cortiça ou bordados a seda, entre outros materiais naturais, todos piedosíssimos. Em tábuas de madeira ou em folha (estas últimas, em adiantado estado de degradação), os ex-votos acompanham o dia-a-dia de uma região inteira, das invasões francesas aos nossos dias. Os exércitos napoleónicos, com a malvadez costumeira, esventraram as pinturas sacras, retirando-lhes as figuras de Cristo ou da Virgem. De resto, um inventário precioso, a um tempo trágico e ingénuo: doentes acamados, que pelas vestes ou decoração dos quartos desvendam a classe social a que pertenciam, desastres na lavoura ou com animais de tiro, acidentes de trabalho, contrabandismo raiano. A Guerra de 14-18 também lá está, com abundante representação pictórica e devota, mas acima de tudo emocional. Será difícil encontrar arquivo tão vívido - e tão humano - do que foi, e é, a realidade real da alma de um povo, nas suas dores e angústias, no frémito das suas esperanças. Extraordinário.

Realce às legendas, escritas em linguagem simples, prenhes de erros ortográficos. Trovas da guerra de África, por exemplo:

De Santo Aleixo à cidade
Eu me despus ao caminho
Ó Senhor da Piedade
Aqui tens o meu filhinho.

Foi em soldado à Guiné
Numa revolta tamanha
Pedi-te que tinha fé
Voltou à minha companha.

Feliz da mãe que beijou
O filhinho que regressa
O seu retrato te dou
Foi esta a minha promessa.

Há salas e salas recobertas de fotografias de soldados fardados, com legendas como esta. Observam-nos de todas as paredes, cima abaixo, e até mesmo do tecto. Um dos ex-votos mais recentes, talvez mesmo o mais recente, é bem uma imagem dos nossos dias, mostrando apenas, sem legenda alguma, um aparatoso desastre rodoviário.

O Senhor Jesus da Piedade não é a única igreja do país com ex-votos. Encontramo-los de norte a sul. Em Braga muitíssimo, claro. Há-os também, e muito numerosos, em Viana do Alentejo, na Senhora de Aires. Ou nos Passos da Graça, em Lisboa, em São Gonçalo de Amarante ou em São Torcato de Guimarães. E, já agora, na Capela de Nossa Senhora do Resgate, Aldeia das Freiras, concelho de Pedrógão Grande.

Em Elvas, por razões que a razão não alcança, as três entidades que se deveriam concertar para a defesa daquele património único - a Confraria, sua proprietária, a Câmara Municipal e o Turismo - não se entendem, ou não têm sido capazes de se entender. O tempo urge. Muitos ex-votos estão a perder-se. Para sempre.

Causa choque e pavor que tudo isto suceda numa terra que, além da habitual rotunda com estátua-bombeiro, tem um Parque Comendador Rondão de Almeida, para estacionamentos subterrâneos, e um Coliseu Comendador Rondão de Almeida, multiusos com 7500 lugares cobertos e sala VIP. Ambos inaugurados, é óbvio, durante a presidência autárquica do senhor comendador José António Rondão de Almeida. Opinião pública, elites críticas, nada, o deserto completo.

Ninguém lhes pediu que existissem. Agora são aos milhares, a olhar para nós. A pedir-nos contas - do que fizermos por eles.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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