"Disse agora o mesmo que em 1989: 'Já que os ilustres não querem ir, vou eu'"

Primeira semana após entregar o Sporting a Frederico Varandas. A entrevista decorre ao almoço, num restaurante lisboeta. Não é fácil conversar com Sousa Cintra num local público. As interrupções são constantes e os elogios muitos. Frase mais ouvida: "Obrigado, presidente."

Em quem votou?
[Risos] O voto é secreto.

De outra maneira: ficou contente com o resultado?
Fiquei muito contente. O presidente é um homem bom, tranquilo, conhece bem o clube, o futebol, e está rodeado de gente muito boa. Muito competente.

Qual foi a principal satisfação pessoal que tirou dos três meses em que dirigiu, de novo, o Sporting, neste caso a SAD?
A de ter conseguido resolver os problemas que encontrámos. Foram três meses de uma dedicação total ao Sporting. Chegava de manha cedo e era último a sair. Às dez, meia-noite, duas da manhã e mais. Cheguei a sair de lá às quatro da manhã. Não se passou um sábado e um domingo que tivesse faltado. Sozinho, tirando um ou noutro domingo em que apareceu o Torres Pereira.

Temeu em algum momento não conseguir levar o trabalho a bom porto?
Não sou pessoa para ter medo.

Porque começou então por recusar o convite?
Porque tinha mais que fazer. Tinha a minha vida toda. Por isso disse ao Marta Soares "nem pense nisso, arranje outras pessoas, o Torres Pereira, por exemplo". Respondeu-me que já o tinha convidado, mas que ele recusara. Eu próprio tentei convencê-lo. Os ilustres do clube, por uma ou por outra razão, não assumiam. Mas alguém tinha de o fazer. O Sporting estava a pique. Havia que ter essa coragem. Disse agora o mesmo que em 1989: "Já que os ilustres não querem ir, vou eu." Não houve um único dia em que me tivesse arrependido de ter aceitado.

O que lhe disse a família?
Não me aconselhei com a família. Ou gostamos ou não gostamos do nosso clube. Tentei que outros assumissem, não consegui. A partir de certa altura, acabou. Sou assim, é o meu feitio. Se ninguém vai, vou eu.

Foi bem tratado nestes três meses?
Muito bem tratado por todos os sócios e até por colegas seus. Não tive ninguém a fazer-me oposição.

Também se ouviram alguns comentários irónicos, a escarnecer da escolha, vindos de quem o acha ultrapassado, ligado a um futebol velho, muito anos 1980.
Na minha cara ninguém mo disse, sócio ou não sócio. Sinceramente, não ouvi nada disso. Trataram-me, e continuam a tratar-me, com muito carinho. Também não quereria saber disso. O momento de maior satisfação tive-o quando saí, com o Sporting em primeiro lugar e a casa arrumada.

Tentou trazer Jorge Jesus de volta?
Tentei tudo para o conseguir e ele queria. Mas havia um contrato assinado, com uma cláusula penal. Não seria legal nem ético. Com uma certeza fiquei: Jesus quer vir para Portugal, vem para Portugal e um dos três grandes vai recebê-lo. Certeza absoluta. No próximo ano, o Jesus estará em Portugal.

Porque retirou do contrato de rescisão de Jorge Jesus a cláusula de confidencialidade a que Bruno de Carvalho o obrigara?
Porque ele me pediu. E porque é justo que possa pronunciar-se. Era o que faltava, obrigar alguém a estar com a boca calada. Ditadura foi no tempo do Salazar.

José Peseiro deveria continuar?
Não vejo razão alguma para ele não acabar a época. Depois se verá.

O que disse a Bruno Fernandes e a Bas Dost, que os convenceu a recuar na rescisão e a ficar na equipa?
Falámos tanto, e de muitas coisas. Compreendi-os, tinham preocupações normais. Por isso, o que lhes garanti foi um clube com um novo presidente, a lutar pelo título, capaz de rentabilizar e promover os jogadores e de lhes dar segurança, a eles e às suas famílias.

Qual deles foi mais difícil?
O Bas Dost. Sobretudo por causa da segurança. Estava muito preocupado. E muito pressionado pela família.

Ainda muito traumatizados?
Naturalmente. Mas são pessoas boas. O Bast Dost é uma pessoa encantadora, bem-disposto, alegre. O Bruno é fantástico. Como pessoa e como jogador. Hoje estão no Sporting, felizes da vida.

Reafirma que não lhes aumentou o salário?
Reafirmo. Os contratos estão lá e são públicos.

O que lhe passou pela cabeça quando viu as imagens do ataque a Alcochete?
Uma tristeza imensa. Não é preciso ser sportinguista para sentir tristeza. O que é isto???

Acredita em Bruno de Carvalho quando este garante não ter tido nenhum papel no ataque?
Nunca falei mal de nenhum presidente e não gostaria de começar agora. Bruno de Carvalho faz parte do passado. Fez o que fez e pronto.

Acha que deve ser expulso de sócio?
Deve. Tanto lhe pedi "demita-se e concorra de novo". Ele, nada. Tanto lhe disse "não destrua o que fez de bom". Ele, nada. Perante isto, achei que chegava. Nunca mais falámos. Há um parecer que vai no sentido da expulsão com o qual concordo. Provocou demasiados prejuízos, ao Sporting e até ao futebol português.

A auditoria forense vai revelar surpresas em relação à gestão de Bruno de Carvalho?
Vamos aguardar. O que houver, saber-se-á.

Qual era exatamente a situação financeira do clube?
Uma situação muito complicada, com contas penhoradas, resultado de dívidas ao fisco e à Segurança Social. Logo aí tivemos um grande problema. Foi preciso reabilitar a credibilidade do Sporting em tempo recorde.

E surpresas boas?
Não sendo bem surpresa, porque o clube tem a melhor massa associativa do mundo, foi muito bonito ver o regresso de muitos sócios. Entrou muito dinheiro. Todos quiseram pôr os pagamentos em dia porque entenderam que a comissão estava ali com seriedade. Foi muito bonito.

Qual foi o momento mais difícil?
Tomámos decisões, umas mais difíceis e outras menos. É a vida. Mas nunca é fácil despedir pessoas.

Quarenta e duas pessoas. Mandou despedir ou falou com elas?
Nunca mando dizer. Eu trato das coisas. Ainda mais nestes casos. Falei com todos.

Despediu uns, renovou o contrato de outros. Há quem o acuse de ter exorbitado.
De maneira nenhuma, desde logo porque estava em funções de pleno direito. Os contratos que fiz com treinadores e equipa técnica ou com os diretores da academia caducam ao fim de um ano, precisamente para não complicar a vida ao futuro eleito. Ou queriam contratos de três meses? Não era possível.

Recebeu ameaças?
Algumas coisas mas estou-me nas tintas. Tomei decisões que não agradaram a todos. É a vida. Não sou homem de ter medo. As ameaças não contaram para nada.

Precaveu-se?
Nunca usei guarda-costas. Apesar de sair dali [Alvalade] tardíssimo nunca tive essa preocupação. Mas não quero recordar coisas más.

"Coisa má" foi também a negociação com Rafael Leão.
O Rafael é sportinguista, um bom jogador criado nas escolas do Sporting, mas falta-lhe personalidade. Foi levado pelo empresário, um indivíduo sem escrúpulos. Andou a oferecer o miúdo em todo o lado para o entregar, depois, a um clube cheio de dificuldades [Lille, de França]. Não se faz isso a um miúdo de 19 anos. O Sporting tem de mostrar a esse senhor o cartão vermelho. A ele e ao pai do miúdo, mas sobretudo a ele, foram os culpados.

"Coisas boas". Qual foi o melhor elogio que recebeu?
"Obrigado". É uma constante em todo o lado. Sabe, os sócios sportinguistas são diferentes.

Esperava esse reconhecimento?
Estava à espera de conseguir ajudar o Sporting e para isso foi preciso determinação e coragem. Se andasse a aconselhar-me com este e com aquele, nada se tinha resolvido. Mal ou bem, tive de decidir. Empenhei-me, naturalmente, em decidir o melhor possível.

Foi criticado por ter assistido ao Benfica-Sporting na bancada presidencial do Benfica. Se o jogo tivesse acontecido depois da acusação do processo e-Toupeira faria o mesmo?
Faria exatamente o mesmo. Deixe-me dizer isto: nos anos em que fui presidente do Sporting nunca deixei de ir à Luz nem os dirigentes do Benfica a Alvalade. Mesmo com aquelas guerras todas, mesmo depois do verão quente de 1993. João Santos, Jorge de Brito, Manuel Damásio, sempre tive uma ótima relação com todos os presidentes. Como tenho com Luís Filipe Vieira. Não era agora que ia mudar. E, repare, nunca fui um presidente meigo.

Que características dos dois grandes rivais o incomodam mais?
Nenhuma. Cada clube é como é.

Não ganhando o Sporting, qual dos rivais prefere ver campeão?
O FC Porto. Como é sabido, a rivalidade maior é com o Benfica.

Surpreendeu-o a acusação do Ministério Público ao Benfica?
Não muito, tendo em conta o que fui lendo na comunicação social.

Qual deve ser o papel do presidente Frederico Varandas nesta questão?
O presidente do Sporting deve querer que se faça justiça e nada mais. Apenas que haja justiça.

Foi pressionado para avançar com uma candidatura nas últimas eleições?
Muitos me pediram mas não podia aceitar. Sempre disse que passados aqueles três meses não aceitaria nenhuma função executiva ou de gestão.

Nem por um momento lhe apeteceu voltar a essa vida?
Nunca me passou pela cabeça nem sequer tive vontade. Aquela função preenche o tempo todo. Foram quase três meses sem saber o que é um dia de praia, um dia de caça. Por amor de Deus. Não.

Ainda se lembra em que dia foi eleito presidente do Sporting?
Não.

23 de junho de 1989. O Sporting passava então por uma crise ainda mais grave.
Financeiramente, sim. Nessa altura, não se pagava a jogadores e pessoal há sete meses.

Derrotou três candidatos, entre eles Jorge Gonçalves, a quem sucedeu. Que recorda desse tempo?
Que nunca pensei ser presidente do Sporting. O candidato pensado por João Rocha era Santana Lopes e o outro o Carlos Monjardino. Mas houve tanta baralhada, tanto vai-não-vai, que às tantas disse "acabou, vou eu". Olhe, foi como agora.

Nasceu em 1944, tinha, portanto, 45 anos.
Era um miúdo.

Quem era esse miúdo?
O mesmo rapaz de hoje. Muita vontade de fazer bem, de ajudar. Muito trabalhador e um admirador de mulheres. Era e sou. Sempre digo e repetirei sempre: as mulheres mais bonitas são do Sporting. Com exceções, claro.

Nunca se arrependeu de ter concorrido ao Sporting?
Nunca. Foi uma honra enorme ter servido o meu clube. Na altura e agora.

Foi o último presidente "à moda antiga". Suceder-lhe-ia José Roquete com um novo projeto: o clube-empresa.
E tudo mudou e não mudou para melhor. Havia mais clubismo, outra força. Hoje, enfim, é a Europa dos grandes clubes. Que seja.

Protagonizou o último grande conflito institucional com o Benfica quando, em 1993, "roubou" Paulo Sousa e Pacheco.
Essa história começa em 1989, no verão, acabara de ser eleito. Alguém me dá a notícia de que o Benfica, aproveitando os salários em atraso no Sporting, tinha convencido o Figo a assinar. Fiquei louco, mas louco mesmo. Pedi imediatamente que me fossem buscar o miúdo ao Algarve e que mo trouxessem, nem que fosse em calções. Chegado o rapaz perguntei-lhe "olha lá, és sportinguista ou benfiquista? É que se és sportinguista, como foste capaz de assinar pelo Benfica? Tu ficas aqui e assinas já novo contrato." E assim foi. O que quer dizer que estas coisas vinham de trás. O primeiro a prejudicar-nos foi o Benfica. E eu retaliei.

Com especial prazer?
É a vida [risos]. Mas sobretudo porque eram bons jogadores.

Teve pena de não ter conseguido levar o João Pinto?
E levava. Fiz as coisas bem feitas. O meu piloto levou o João Pinto ao sul de Espanha, instalou-o num hotel com nome falso. Estava bem coberto. Não fosse o Valentim Loureiro lixar tudo para receber o dele, o João Pinto também iria para o Sporting.

Então?
O major tinha vendido o João Pinto ao Benfica e o Benfica ainda lhe devia uma tranche. Quando se suspeitou de que o João Pinto ia para o Sporting, Jorge de Brito avisou o major: "Se ele for não lhe pago." Acontece que o João Pinto tinha os filhos na sogra e, portanto, falavam de vez em quando. Foi através da senhora que o major soube do paradeiro do João. Não obstante ser sportinguista, o major foi o traidor [risos].

Desses tempos, do que se arrepende?
Do despedimento de Bobby Robson. É o meu maior desgosto e o maior erro a minha vida. Um grande treinador e uma pessoa fantástica.

Despediu-o no avião, depois de uma derrota com o Salzburgo. Porquê no avião?
Não o despedi no avião. Despedi-o depois e explico a razão: Carlos Queiroz estava para ir para o FC Porto, estava tudo combinado. Ora o Sporting tinha oito campeões do mundo de juniores. É natural que tivesse pensado que se havia treinador que podia tirar partido daqueles miúdos era o Queiroz. Foi um erro que assumo. Despedi o Robson, que foi um senhor. Mas eu também cumpri. Fiz as contas como deviam ser feitas.

O que se lembra de José Mourinho?
Lembro-me como se fosse hoje: pedi ao Manel [Manuel Fernandes] que me arranjasse quem falasse inglês, por causa do Robson. O Manel chegou-me com um rapaz, filho de um ex-jogador do Belenenses, que apresentei ao Robson. Um dia depois, perguntei-lhe "mister, o rapaz serve?" Ele olhou para mim e fez com as mãos aquele gesto que quer dizer "mais ou menos", "assim-assim". "Veja lá, se não serve arranja-se outro." Ele repetiu o gesto. Pensei: estou tramado. Mas o rapaz lá acabaria por ficar [risos]. E em boa hora. O Mourinho é uma pessoa inteligente, muito inteligente, que aprendeu com Robson e mais, ultrapassou o professor.

Quanto ficou a pagar-lhe?
Uma ninharia, menos do que ele ganha hoje por dia.

Reconhece que a sua presidência deu vivacidade ao desporto da época?
[Risos].

A gaffe mais conhecida: partiu o vidro do carro com uma garrafa de Água das Pedras.
Ia a conduzir o carro quando me ligam da TSF. Encostei o carro a uns arbustos e atirei a garrafa com força, de maneira a que não resvalasse para a estrada. Atirei com tal força que parti o vidro. Nunca imaginei que o jornalista estivesse a gravar e digo: na altura não gostei da brincadeira.

Alguns dos vice-presidentes temiam as suas saídas. Por exemplo, como a que teve com o presidente do Bolonha: "´E penálti, compraste o árbitro, pá."
E acha que não era verdade [risos]?

Ou quando mandou pintar um novo leão no autocarro do Sporting porque não gostou do primeiro.
Fiz muito bem. Aparecem-me com um gato moribundo quando eu queria um leão com futuro.

Ou quando anunciou o jogador Careca como sendo 'metade Pelé, metade Eusébio", fardo anedótico que o rapaz carregou para o resto da vida.
[Risos] Quando o comprei foi o que me disseram. Devia ter dado o desconto aos empresários, exageram sempre, mas eu não sou de desconfiar das pessoas. Disse o que me tinham dito.

E há a história da Portugália: É verdade que foi ao balcão da cervejaria à procura de uns bilhetes de avião que a secretária da altura tinha mandado reservar no balcão da companhia aérea com o seu nome?
[Gargalhada] Isso é mito. Não me lembro nada disso.

Aos 15 anos é ascensorista no Hotel Tivoli, em Lisboa, aos 17 tem o primeiro carro, um "boca de sapo", aos 20 começa a investir no ramo imobiliário, aos 29 compra o primeiro avião, aos 31 é presidente da AG da Associação Industrial Portuguesa, aos 40 compra a Vidago Melgaço, Pedras Salgadas [VMPS] e a Cipol, aos 52 vende a VMPS à Jerónimo Martins, aos 58 aposta forte nas três fábricas de bebidas: duas no Brasil e uma em Portugal. Nunca deixou o investimento imobiliário, quis investir no petróleo.
Tudo verdade. Agora é a vez de gozar um pouco a vida. Já estou reformado. Procuro resolver alguns dossiês importantes como é o caso dos petróleos (um negócio de que as pessoas não gostam) e tenho uma vida mais calma.

Diz-se que vai lançar um produto "revolucionário" para emagrecimento.
A seu tempo.

Aos 8 anos ganhava dinheiro a vender caracóis. O que o fazia correr? O que faz correr um self-made-man - a frustração, a vontade de chegar aos mais ricos, o amor ao dinheiro?
Cada pessoa tem a sua energia, o seu ADN. Uns com mais sonhos, outros com mais ambição. Eu gostei sempre de fazer negócios. Sou o único da família. Nasceu comigo. Sempre tive essa ambição.

O que recorda do tempo em que não tinha dinheiro?
A vontade de trabalhar e a ambição. Mas eu sempre tive dinheiro porque trabalhei muito, desde pequenino. Eram tostões? Eram. Mas para mim tostões é dinheiro. Custam-me a ganhar.

O que pensa da pessoas que nunca fizeram um negócio na vida, nem sabem nem querem fazê-lo?
Que cada um tem o seu estilo, a sua vocação. Faço negócios tal como um médico atende um doente.

Ascensorista no Tivoli. Encontrou por lá a Beatriz Costa?
Vivia lá. Era uma pessoa encantadora, uma mulher fora de série com personalidade, autoridade, uma senhora de grande categoria. Fiz-lhe tantos recados.

Iniciou nessa altura o negócio das aguarelas. É verdade que comprava a pessoas com deficiência para vender, depois, por muito mais dinheiro?
Não é verdade. Fui sempre correto.

Mesmo quando aproveitou o 25 de Abril e a fuga apressada de alguns proprietários para o Brasil para comprar terrenos ao desbarato?
Se pudermos comprar por dez por que motivo vamos pagar 15? Não encontro aí desonestidade. O sucesso de um empresário está sempre na compra.

Ainda não tinha carta quando comprou o primeiro carro. Mais tarde, o filho segue-lhe as pisadas. Gosta da transgressão?
Coisas da juventude.

Na Marinha, onde esteve quatro anos, manteve os negócios?
Sempre. Os negócios das aguarelas. Depois entrei no imobiliário.

Que nome deu à primeira empresa, lembra-se?
Não me lembro. A minha vida foi sempre muito acelerada. Não imagina a quantidade de vezes que já me desafiaram para escrever um livro. Não quero. Não guardo nada desses tempos. Nem fotografias. Eu sou do presente e do futuro.

Como é o seu dia?
Levanto-me todos os dias às seis da manhã, fico a ver televisão e depois vou trabalhar.

Dorme pouco?
Durante anos, dormi o que era possível, o que a vida me permitia. Por muito que gostasse ou precisasse, não podia. Mas tive sempre sorte: basta encostar-me que logo adormeço.

Tem caçado?
Neste ano nem um tiro.

O que gosta na caça que o tem levado inclusivamente a África?
O convívio com os amigos e com a natureza. Eu sei que é tema polémico e muitas pessoas não gostam, mas o caçador tem um papel muito importante. Também faz o seu bem.

O que espera da vida?
Saúde, que é o que mais peço a Deus.

Reza muito?
Rezo, sim. Peço saúde e felicidade para mim e para a minha família.

A mulher, o filho de 49 anos, a neta de 2.
Só queria casar-me uma vez na vida. Casei-me três.

A solidão não é fácil?
A solidão é horrível. É uma infelicidade.

Depois deste tempo todo, valeu a pena, o dinheiro trouxe-lhe felicidade?
Nunca liguei assim tanto ao dinheiro. Ajuda, mas não vale mais que isso.

Nunca se aproximaram de si por causa do seu dinheiro?
Não reparo nem quero reparar.

O que hoje lhe dá prazer?
Não sou muito exigente. Ter saúde, estar com amigos, viver tranquilo, sou uma pessoa que vive tranquilamente.

Por mais de uma vez, esteve muito perto de ser raptado no Brasil. Mas foi em Portugal que lhe raptaram o filho. Exigiram na altura 60 mil contos. Foi a maior tragédia da sua vida?
Juntamente com a morte dos meus pais, duas pessoas maravilhosas. Mas sabe, a nossa polícia é muito boa. Apanhou o raptor. Levou tempo mas conseguiu. As notas ainda tinham as cintas do banco. Estarei para sempre grato à nossa polícia.

O que gostava de deixar em herança à neta?
O cartão de sócia do Sporting. É sócia desde o primeiro dia e espero que cumpra a tradição familiar: não conheço ninguém da minha família que não seja sportinguista. Quero naturalmente que seja muito feliz na vida, orgulhosa de ter o nome da bisavó, minha mãe. Que recorde o avô como uma pessoa boa. E justa.

Qual foi o último presente que lhe deu?
Um brinquedito.

Que vai dizer de si a história do Sporting?
Gostava que me lembrasse como um sportinguista que nunca virou as costas ao clube. Assim será até morrer. Se não faço melhor é porque não sei ou não posso.

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