A ambiguidade da política

Além do sentido académico da palavra, designando o pensamento político, "teorias políticas", "filosofia política", "ciência política", tal sentido afasta-se do exercício dos que a praticam, tendo em vista o poder de governar. Dão-se exemplos como o de Lord Butler, que a definiu como "arte do possível", cinicamente como D'Israeli, que a definiu como a arte de governar os cidadãos desiludindo-os, ou, finalmente, e cobrindo intenções menos tranquilizantes, entendendo-a com Hitler, como a arte de mobilizar uma nação para defender a sua existência. Em todo o caso, o mais corrente, entre estadistas responsáveis, é entender a política como a arte de conciliar interesses opostos.

Foi este sentido o que orientou os responsáveis pelo projeto de ordem mundial, depois da última grande guerra, confiantes de que, com a ONU, tinham organizado uma ferramenta capaz de garantir a execução da obra. Os factos parecem exigir um alargamento do conceito mais participado a que os governantes de então tinham chegado, quando se tem de fazer o esforço, dificilmente recompensado, de compreender a intervenção política, interna e internacional, do atual governo do Estado mais responsável pela redação da Carta da ONU, que foram os EUA, libertadores da Europa da imposição nazi, garantes da solidariedade atlântica e preservação da liberdade e segurança da Europa ocidental com a NATO, e ajudando à sua recuperação com o Plano Marshall.

Que um dos mais importantes jornais portugueses, o Expresso, tenha noticiado a inquietação que atinge a paz mundial, definindo a síntese com o título "À espera da guilhotina de Donald Trump", uma forma breve e precisa do que está a chamar-se política internacional do imprevisível presidente. Não se trata apenas do abandono de obrigações internacionais, como foram sair da Comissão de Direitos Humanos da ONU, abandonar a UNESCO, guarda do Património Imaterial da Humanidade, de tratar a NATO como se esta não fosse hoje, depois da queda do Muro, um elemento da rede de bases de segurança dos EUA ao redor do globo. Trata-se de encarar a débil estrutura de governança global colocando-a sob o fio da navalha, com uma variável intuição dogmática que dispensa a sabedoria da prudência.

O método da conciliação de interesses e comportamentos lembra a oportunidade de aconselhar a leitura de O Livro das 1001 Noites, no conto intitulado História do Invejoso e do Invejado, em que o Génio, embora aconselhado à misericórdia, respondeu que "tudo o que posso fazer é deixar-lhe a vida. Mas não tem de ficar impune. É manifestamente importante que saiba até onde vai o meu poder". Assim acontece com o arbítrio do poder na intervenção em Jerusalém, confirmado pelo crescente número de vítimas. Também foi inovador no diálogo, inesperado na forma, com a Coreia do Norte, embora não sejam conhecidos os interesses que tornaram pacífica a linguagem, na versão publicada muito preenchida de silêncios.

O episódio trágico da política seguida em relação à fronteira com o México, que se traduziu em fazer do martírio das crianças separadas das mães uma marca que nunca mais se apagará nas relações dos EUA com a América Latina, e agora as ameaças ao Irão, no estilo inicial praticado com a Coreia do Norte, e tendo como resposta do presidente do Irão que "a América devia saber que a paz com o Irão é a mãe de todas as pazes, e a guerra com o Irão é a mãe de todas as guerras", salientando ainda que os EUA não estão a lidar com a Coreia do Norte.

Por acréscimo decidiu fazer imposições a Ancara, não informado do passado histórico da Turquia, do que representa na região onde não faltam motivos de preocupação aguda com a paz, e com um nível inovador de medidas contra a anunciada decisão de Ancara de exigir outro comportamento, de acordo com o direito e a prática diplomática internacional. A desordem mundial ainda não tem a dimensão nem a experiência das crises, ou das leviandades, que no passado tiveram uma resposta europeia porque o seu prestígio e supremacia, não apenas militar, tinham uma dimensão suficiente para os desafios que lhe permitiam diagnosticar a tempo as intervenções e os métodos governativos. Isso não impediu que os fracassos fossem numerosos.

Nesta data não há Estados que tenham capacidade para gestores do globo, ou para sequer instituírem um diretório. Mas crescem os que não suportam leviandades cometidas sem a certeza de evitar o pior, os que deixam em suspenso a confiança nas organizações internacionais, a começar pela ONU, os que tentam regressar ao passado das soberanias absolutas, ignorando as interdependências globais, os que se afastam do modelo democrático que o pensamento dos autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos apontou como uniformizador dos comportamentos internacionais. Não é possível ignorar o risco dos que adotam o conceito de que a política é a arte de governar os povos desiludidos.

Professor universitário

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