"Banzai", tradição, indultos e milhões: a entronização de Naruhito

Diante de mais de dois mil convidados, entre eles chefes do Estado, de governo e cabeças coroadas, o 126.º imperador do Japão prometeu "ficar ao lado do povo".

Foi sob chuva forte que começaram as cerimónias de entronização de Naruhito. No trono do Japão desde 1 de maio, na sequência da abdicação do pai, Akihito (o primeiro a fazê-lo em 200 anos na mais antiga monarquia do mundo), Naruhito, de 59 anos, surgiu de traje tradicional branco no Palácio Imperial em Tóquio para dar início à Kashikodokoro - a tradicional cerimónia de entronização, baseada no rito xintoísta.

Foi o próprio imperador que anunciou a entronização a Amaterasu, a mítica Deusa do Sol da qual reza a tradição que todos os monarcas japoneses descendem.

Acompanhado por funcionários do palácio vestidos de negro e que carregavam baixas com os tesouros imperiais - a espada e joias -, Naruhito percorreu os três santuários do palácio antes de mudar para um traje laranja-escuro e subir ao trono no Hall do Pinheiro para uma cerimónia de 30 minutos diante de dois mil convidados, muitos deles chefes de Estado e de governo, e cabeças coroadas de mais de 180 países.

Num trono mais pequeno, ao seu lado, estava Masako, alegadamente envolta em 12 camadas de roupa. Em 1993, Naruhito casou com a plebeia educada em Harvard, tendo o casal uma filha, Aiko, nascida em 2001. Apesar de o imperador ter uma descendente direta, o herdeiro do trono é o irmão, Fumihito, uma vez que a sucessão no Japão se faz sempre pela via masculina.

"Declaro a minha entronização, aqui e no estrangeiro", proclamou Naruhito durante a cerimónia, prometendo "ficar ao lado do povo". O novo imperador comprometeu-se a agir de acordo com a Constituição pacifista, elaborada após a Segunda Guerrra Mundial e que impede o país de recorrer à guerra para resolver conflitos. A Lei Fundamental japonesa considera o imperador como "um símbolo do Estado e da união do povo, que deseja sempre a felicidade do povo e a paz do mundo".

O 126.º imperador do Japão, cujo traje obedece a um design com mais de mil anos, prestou ainda tributo ao pai, o imperador emérito Akihito, que esteve no trono entre 7 de janeiro de 1989 e 30 de abril de 2019, quando quebrou a tradição e abdicou a favor do filho. Naruhito prometeu agora continuar o seu trabalho.

De frente para o imperador, num nível mais abaixo, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, saudou Naruhito e garantiu: "Faremos o nosso melhor para criar um futuro pacífico, brilhante e cheio de esperança para o Japão." Antes de os convidados entoarem em coro, três vezes, "Banzai, Banzai, Banzai!" - "Longa vida ao imperador!".

Entre os convidados que assistiram à cerimónia e que estiveram à noite presentes num jantar de gala, estavam os reis de Espanha, Felipe e Letizia, o rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, e a filha e herdeira, Victoria, os reis Filipe e Matilde da Bélgica, os reis do Butão, o príncipe Carlos de Inglaterra, mas também o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, o chefe do Estado filipino, Rodrigo Duterte, ou o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Portugal fez-se representar pelo ex-presidente Cavaco Silva.

Meio milhão de indultos e 16 mil milhões de ienes

Para assinalar a subida formal ao trono do Crisântemo, as autoridades japonesas assinaram indultos para meio milhão de pessoas, condenadas por crimes menores - como multas de trânsito. Uma decisão que o ministro de Estado Yoshihide Suga garante ter como objetivo encorajar a "reabilitação" dos criminosos.

Os indultos, que não foram debatidos em público, obedecem a uma tradição que vem de antes da Segunda Guerra Mundial, quando o imperador era visto como um Deus. Talvez por isso, algumas vozes vieram considerar a decisão pouco democrática. Isto apesar de, na entronização de Akihito, mais de 2,5 milhões de pequenos criminosos terem sido perdoados.

Apesar de a parada dos imperadores pelas ruas de Tóquio ter sido adiada devido aos danos causados pela recente passagem pelo Japão do tufão Hagibis, que fez pelo menos 80 mortos, as cerimónias de entronização custaram 16 mil milhões de ienes (mais de 136 milhões de euros) aos contribuintes japoneses. Um valor que os críticos da monarquia denunciaram, afirmando que esta despesa viola a separação entre Estado e religião, prevista na Constituição.

Milhares de pessoas enfrentaram a chuva para saudar o novo imperador. "Hoje é um dia muito importante para o novo imperador e imperatriz", explicou à AFP, citado pela BBC, Shuichi Hachinuma. O japonês, de 78 anos, fez questão de se deslocar até junto do Palácio Imperial em Tóquio e garantiu: "Sinto que o imperador está próximo de nós, comparado com o passado. Espero que ele envie uma mensagem de paz."

Mas esta não foi a única crítica do dia. Não faltou quem considerasse errado Shinzo Abe ter discursado a partir de uma posição inferior em relação ao imperador, denunciando que contraria a Constituição e o facto de esta afirmar que a soberania do monarca reside no povo.

Derrotados na Segunda Guerra Mundial, os japoneses viram o ocupante americano retirar ao imperador Hirohito, avô de Naruhito, o seu estatuto divino, transformando-o numa figura simbólica, sem poder formal.

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