Filmar Lisboa hoje em dia tem o seu quê de operação de risco. Como se fosse quase impossível escapar ao contexto de uma cidade cada vez mais conotada com a sua aparência cool, dentro de uma lógica turística mais ou menos frívola. Já lá vai o tempo em que Bruno Ganz se passeava por essas ruas, munido da sua câmara Super-8, para captar uma luz pristina... Consciente do mistério em perda, o realizador Telmo Churro pegou num trio geracional, juntou-lhe uma turista brasileira, e concebeu um outro tipo de deambulação urbana. O filme chama-se Índia e tenta passar a perna aos ditos riscos da Lisboa contemporânea. Como? Extraindo do passado uma qualquer substância mítica, que estabelece um território indefinido entre a fantasia e a textura mais fidedigna do quotidiano. É pelo menos essa a intenção. E, em teoria, a ideia não está desprovida de graça..O feitiço de Índia relaciona-se com a chegada de Karen (Denise Fraga), a mulher brasileira recebida por um guia turístico em crise existencial, Tiago (Pedro Inês), e o seu pai, um antigo marinheiro, que lhe fazem relatos fabulísticos de um passado de aventuras, nomeadamente na Índia, pouco condizentes com as crónicas dos livros de história. À dupla masculina soma-se ainda o filho adolescente de Tiago, com a sua própria gestão de crise e devaneios eróticos, criando-se uma separação clara entre o universo daqueles homens, que tendem a descolar da realidade num estalar de dedos, e a personagem feminina que se move pela cidade ao sabor de uma doce melancolia, constantemente a escrever cartas ao marido e a depositá-las nos postos vermelhos de correio que encontra na rua. É um ritual de luto..Tudo isto tem o seu charme de resistência de estilo e ímpeto de originalidade, ainda mais tratando-se da primeira longa-metragem do seu realizador, que conhecemos sobretudo como argumentista e montador dos filmes de Miguel Gomes. Estas figuras que povoam o "estado mental" de Índia respondem, de facto, ao colorido da proposta e encontram o seu lugar num espaço de memória coletiva, ao mesmo tempo que navegam na sua individualidade. Porém, chegados ao fim, parece que nada pesa no espírito, e até cansa um bocadinho..Talvez possamos dizê-lo assim: se a plasticidade com que Telmo Churro elabora uma impressão de Lisboa (através da fotografia em 16mm de Mário Castanheira) sugere um gracioso programa visual, é mais difícil acompanhar a piada da depressão masculina, que perde a oportunidade de gerar a devida distância cómica, sendo na maior parte das vezes simplesmente irritante... Percebe-se essa coisa muito portuguesa da personagem do guia, com os seus maneirismos de declamação teatral e o falhanço estampado no rosto, mas torna-se um motivo supérfluo. Nessa postura do zangão, nem a paródia nem o tom trágico florescem, ficando o número do ator Pedro Inês - o frustrado amoroso - reduzido a um exercício que apenas pretende corresponder ao preceito estético de Índia. Sem esquecer o recurso à voz em off, que é outro aspeto curioso mas inglório: palavras e imagens não fazem faísca. São bonitas separadamente..dnot@dn.pt