Malásia. O pastel português que corre mundo

Mala de viagem (108). Um retrato muito pessoal da Malásia.

Intercalei a minha viagem de Lisboa a Singapura com uns dias em Kuala Lumpur para cumprir o desejo de visitar Malaca. Fui ao encontro de um povo que ainda fala, canta e sente em português, através de descendentes da presença lusitana que aí se estabeleceu há 500 anos. Os portugueses permaneceram entre 1511 e 1641, até à chegada dos holandeses. A comunidade portuguesa acabou por se refugiar na selva, fugindo da perseguição religiosa. Por lá ficaram até à chegada dos ingleses, no final do século XVIII, que viram na comunidade portuguesa uma boa forma de ligação com os autóctones, já que falavam a mesma língua e estava inserida nos costumes locais. Ela foi assumida pelos novos colonizadores, mas não abdicou da sua identidade cultural. Presentemente, o Kampung Portugis é o bairro português desenvolvido a partir da década de 1960, onde se fala um crioulo que sobreviveu através da oralidade dos descendentes diretos de navegadores, escravos e mercenários portugueses de Goa, África do Sul, Macau e Moçambique. No bairro de casas baixas e com jardins na frente das mesmas, há um museu e alguns restaurantes. É a Praça Portuguesa, onde se canta o fado e dança o vira. Anualmente, há festas na Quaresma, nos Santos Populares e no Natal, num país maioritariamente muçulmano, hindu e budista. O bairro irá manter-se português, com o próprio Governo malaio a legislar nesse sentido; as casas apenas podem ser vendidas a famílias portuguesas e a toponímia não mudará. Os falantes de "kristang", a última variedade desse crioulo português no Sudeste Asiático, mantêm essa ligação linguística às raízes portuguesas, mas, se nada se fizer, acabará por desaparecer. O ímpeto económico inicial de Malaca foi desvanecendo ao longo dos séculos, mas a multiplicidade de influências exteriores reflete-se na sua cultura. Por causa dos testemunhos que recolhi, confirmei que Malaca sempre foi uma cidade comercial aberta a todos os povos e religiões. É nessa tolerância que residem os seus atributos (cultural, gastronómico e artístico). O centro da cidade foi inscrito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Património Mundial (7 de julho de 2008). Foi nele que me deliciei junto de um rio que pode ser contemplado degustando um café, uma cerveja ou uma refeição mais completa, numa das várias esplanadas existentes na arquitetura colonial que, por vezes, é pintada com "street arts" e os muros são decorados com plantas. No bar que escolhi no primeiro dia, pedi uma das cervejas de muitas marcas existentes e um pastel de nata, e ainda um "dal baht" que veio servido em folha de bananeira para ser comido com a mão. O pastel de nata ficou para o fim e era tão bom como os melhores de Portugal. A massa tinha a consistência certa, para ficar leve e estaladiça, e o recheio estava no ponto, cremoso mas não em demasia, doce mas não enjoativo. Os donos do bar não são de origem portuguesa, mas o pastel é quase uma instituição em Malaca, até porque é o mais internacional bolo português. Ali era um pequeno estabelecimento, mas há mais. Em tempo final de conquistas territoriais portuguesas, no século XVI, a infanta D. Maria de Portugal não podia imaginar que, ao publicar a receita dos "pastéis de leite" no seu famoso livro, estaria a dar início à conquista do mundo através de uma doce história.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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