Quem entra no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, à Praça de Espanha, não diz que o edifício térreo, logo à direita, que alberga o Laboratório de Virologia há 50 anos, faz no próximo ano meio século, tantos quantos toda a unidade, mas é verdade. O pavilhão é quase centenário, como o edifício principal, está de cara lavada, mas rapidamente se percebe que o espaço começa a faltar para albergar toda a atividade que é desenvolvida pelo Laboratório de Virologia, que hoje assinala os 50 anos - e que, em 1972, contam-nos, era realidade única no país..Prova disso é o contentor branco fixado à direita da porta principal, identificado como zona de trabalho para covid-19. É ali que se rastreia os testes a doentes e a profissionais. No início da pandemia faziam-se centenas de testes por dia, chegaram a ser mais de 400 ou 500, a rotina no laboratório mudou toda e o stress aumentou, já que o trabalho era assegurado durante as 24 horas de segunda-feira a domingo. Hoje, já não é tanto assim, embora a resposta ainda seja dada durante as 24 horas de segunda a sexta-feira e sábado até às 19:00, mas se houver "necessidade de algum teste fora deste período, também é feito"..Aliás, "só foi possível sobreviver ao período de pandemia pela resposta dada pelo laboratório. Temos doentes imunossuprimidos e ter alguém infetado dentro do hospital era muito complicado. Portanto, tivemos de rastrear todos os doentes que vinham para consultas, tratamentos ou cirurgias, todos os que chegavam à urgência e profissionais também", explica ao DN o responsável pelo serviço, Mário Cunha, um bioquímico que ali chegou no ano 2000, para fazer o seu estágio e que rapidamente se apaixonou pela virologia e pela atividade do laboratório na área da oncologia..O IPO de Lisboa, como tantas outras unidades de saúde do país, também teve surtos de infeção pelo SARS CoV-2, mas os doentes foram transferidos, os profissionais isolados e a testagem laboratorial fez o seu trabalho ao conseguir detetar os casos que ali chegavam. "A atividade programada que antes havia no laboratório teve de mudar, porque havia que dar resposta no rastreio à covid a serviços muito específicos e, às vezes, no momento e a equipa até teve de ser reforçada", acrescenta..Hoje, em termos de SARS CoV-2 está tudo muito mais calmo, mas Mário Cunha salienta que foi o facto de há meio século ter havido "um administrador do IPO, juntamente com o Dr. António Terrinha, o primeiro diretor do serviço, a terem percebido que era absolutamente fundamental que uma unidade de oncologia tivesse um laboratório só para a virologia e, depois, já na década de 1990, o investimento na biologia molecular que ajudou, e muito, no processo de resposta à covid-19 dentro da unidade"..Mas os 50 anos do laboratório de virologia também estão marcados pelo trabalho pioneiro em várias áreas. Basta referir que ali foi feita investigação para dois trabalhos que receberam o Prémio Nobel da Medicina, graças às parcerias com Robert Gallo, Luc Montagnier e Harald zur Hassen. Como sublinha Mário Cunha, foi também graças ao trabalho do laboratório de virologia do IPO que foi possível a descoberta do primeiro retrovírus humano (HTLV-1), o agente etiológico da leucemia de células T do adulto, em colaboração com Robert Gallo, do National Cancer Institute, e à caracterização do HIV-2, através da parceria com o professor Luc Montagnier, Prémio Nobel da Medicina, em 2008"..Em 2016, a atividade do laboratório volta a estar em destaque quando Harald zur Haussen recebe o Prémio Nobel da Medicina pelo seu trabalho na deteção do Vírus do Papiloma Humano (HPV). "Esta investigação contou com a colaboração laboratorial do IPO na identificação da genotipagem dos vários vírus, agentes etiológicos do carcinoma do colo do útero e no estudo do HPV, no carcinoma da orofaringe"..E, mais uma vez, reforça Mário Cunha: "Só foi possível pela visão dos que hoje são homenageados - António Terrinha, José Dias Vigário, Moura Nunes, Ermelinda Cardoso e Carmo Ornelas. Foram profissionais que durante este percurso perceberam que era preciso desenvolver a área da biologia molecular e priorizar sempre o trabalho com equipas multidisciplinares, integradas por médicos, biólogos, bioquímicos, veterinários e técnicos de análises clínicas"..A robustez dada à virologia, o facto de terem conseguido fazer com que começasse "a falar sozinha", permitiu que esta adquirisse "um estatuto de disciplina autónoma e de pilar independente da microbiologia", embora ainda funcione paredes meias com o laboratório de microbiologia. Mas os resultados dessa separação estão à vista.."O laboratório está integrado no Serviço de Patologia Clínica, mas hoje é a base e a estrutura de muitas das decisões que são tomadas do ponto de vista clínico. Há algo que não podemos esquecer: cerca de 18% dos cancros são provocados por agentes infecciosos e este foi um dos pontos que mudou a realidade dos laboratórios, porque a resposta laboratorial pode determinar o diagnóstico e até o tratamento a seguir", explica o responsável do serviço, sublinhando: "É neste sentido que esta separação foi muito importante para os doentes oncológicos, porque é preciso perceber quais os vírus associados ao cancro, a melhor forma de os monitorizar e de os combater. E isto não acontece só em relação aos vírus que provocam cancros, mas também em relação aos que podem ser mortais para os doentes oncológicos"..Em 2021, o laboratório terminou o ano com um total de 208 mil análises, cobrindo 32 mil doentes, e este ano estima terminar com cerca de 244 mil, tendo em conta a atividade já realizada no primeiro semestre. E tudo isto porque na prática a sua função, embora não lide diretamente com doentes, é dar apoio a todos serviços do hospital e muito especificamente a alguns, como à "Unidade de Transplante de Medula, pois as infeções virais podem ser mortais para estes doentes, pois têm uma maior morbilidade; ao Serviço de Hematologia, pois há vários linfomas associados a vírus, como é o caso do HTLV-1, embora também haja outros que podem ter também implicações nestes doentes, como os das hepatites B e C; e ainda damos um apoio muito direto aos serviços de Ginecologia, Otorrinolaringologia, Cirurgia Geral, Cirurgia da Cabeça e Pescoço e Gastrenterologia, neste caso na área do digestivo baixo. Isto porque fazemos a deteção do vírus do HPV, que está implicado em vários tumores diferentes, como a cavidade oral, o colo do útero, o carcinoma anal e do pénis"..A área da investigação e de rastreamento do HPV é agora uma das atividades mais importantes do laboratório, que, desde 2018, "participa no rastreio organizado ao cancro do colo do útero da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, tendo sido já rastreadas quase 20 mil mulheres de dois AceS da região, Cascais e Estuário do Tejo. Se por acaso é algo detetado nessas mulheres, estas passam depois a ser acompanhadas aqui no hospital. Neste momento, estamos a fazer cerca de mil rastreios por mês". Mas além deste vírus, o laboratório rastreia os vírus do HIV, HTLV, Hepatites B e C, Sífilis, etc, bem como todas as dádivas de sangue, já que este produto "é crucial para os nossos doentes, pois precisam muitas vezes de transfusões"..Quanto ao futuro, Mário Cunha não tem dúvidas de que este se vai fazer com a presença de vírus. Agora tivemos o SARS CoV-2, mas outros irão aparecer e "a separação que foi feita há 50 anos vai ainda ser mais marcante daqui para a frente, pois cada vez mais caminhamos no sentido de uma medicina personalizada, quase que feita à medida do próprio doente e, nesse sentido, a virologia e o desenvolvimento tecnológico serão cada vez mais importantes"..Por isso mesmo, destaca, "estamos a trabalhar num processo interno para implementar a sequenciação de nova geração, uma técnica que nos irá dizer, por exemplo, quais são os vírus e as variantes que estão a circular neste momento e que poderão ter impacto tanto nos cancros sólidos como nos tumores líquidos". A expansão para esta nova geração de tecnologia "é o futuro, porque já se percebeu que os vírus são cada vez mais importantes e que cada vez mais se especializarão - ou seja, modificam". Portanto, "o futuro vai ser assim, com vírus"..No laboratório apenas aguardam que seja construído o novo edifício de ambulatório do IPO Lisboa que irá juntar, entre outros, todos os laboratórios do serviço de anatomia patológica para que o processo de modernização tecnológica se concretize e a equipa também possa ser ampliada, porque este é cada vez mais um laboratório fundamental para o trabalho clínico na área da oncologia", remata Mário Cunha.