É perigoso enfrentar um bode expiatório

O jornalista Fareed Zakaria dizia recentemente que a História não é um filme de Hollywood. O populismo da década de 20 e 30 desencadeou a II Guerra Mundial porque os cidadãos baixaram os braços perante causas maiores do seu tempo.

O território de Portugal é hoje uma causa maior. Ultrapassa a nossa idade, é o fio condutor da nossa história. Por essa razão bati-me - a par de muita gente de diferentes sensibilidades - contra a multiplicação das barragens no inóspito Portugal (ou seja, Trás-os-Montes). Barragens essas cujo valor estratégico, enquanto reserva de água, é pobre.

O custo-benefício daquela operação foi indiscutivelmente lesivo para o território. O vale do Sabor era um último reduto do paraíso do Douro Internacional. Hoje é um território selvaticamente humanizado. E na barragem do Tua a degradação é semelhante. Perdeu-se o comboio histórico, o carácter único do vale e ganhou-se um paredão sem sentido, amputando o rio. No rio Tâmega, a mesma coisa.

Claro, há sempre a questão: não queremos energias renováveis? Sim. Mas a tecnologia "barragem de água" é tão agressiva para o ambiente que mais vale ampliar a capacidade de produção das que já existem do que fazer novas e matar os rios. Só que as antigas não geram novos encaixes para os governos nem negócios significativos para o sistema financeiro e construção civil.

Porque chegámos aqui? O caso da energia tem paralelo com a massiva campanha de comunicação que o poderoso lobby das celuloses pôs em prática. Depois de anos a conseguir expandir-se a alta velocidade, os últimos tempos têm sido agrestes. Algo está a correr mal. Muito mal. Não há apenas incêndios. Eles fazem vítimas - muitas. O clima mudou e o ordenamento do território passou a ser um assunto de todos.

Como se pôde ler nos textos profusamente publicados por estes dias em quase toda a imprensa - três páginas centrais acrescidas de uma onda de entrevistas e opiniões em defesa da "causa" -, a indústria da celulose e papel não quer ficar com o ónus da responsabilidade dos incêndios. Autointitula-se de "bode expiatório" e a ilustrar o texto está a fotografia de um eucalipto rodeado de um bosque idílico (tudo o que a floresta desta monocultura não é).

O texto diz várias coisas que ninguém discute e outras que são o problema. Desde logo confundir oposição cívica com ideologia. O que levaria pessoas (sem interesse económico e de diferentes quadrantes) a serem contra "árvores"?

Mas vamos ao tema: não podemos fazer de conta que o eucalipto é uma espécie nativa. Isso é crucial para o impacto no nosso solo, água e futuro da biodiversidade.

A integração da espécie em Portugal e a criação da indústria do "petróleo verde" é uma novidade massiva sobretudo da década de 80 em diante. E se Portugal perdeu o interior por força do mau acesso à saúde, à justiça, ou aos simples postos dos Correios, isto também sucedeu porque a ilusão da próspera indústria do eucalipto tornava os terrenos rentáveis com uma solução "chave na mão". O conjunto de fatores agudizou o adeus ao país rural. E assim cresceu, por força do mercado e do abandono, o eucalipto.

Questão centralíssima: os sucessivos governos deveriam ter impedido o surgimento de novas áreas contínuas de milhares de quilómetros quadrados de eucaliptos sem surgir em simultâneo a obrigação da criação de um "mosaico" com espécies autóctones e uma agricultura integrada que gerasse zonas-travão aquando dos (inevitáveis) incêndios.

Foi por causa deste galopante sistema que chegámos ao ponto em que estamos: um risco de catástrofes irreversível por décadas por força do despovoamento e de uma monocultura altamente combustível (onde se inclui desse ponto de vista obviamente o pinheiro).

As indústrias - da madeira mas sobretudo a da fileira do eucalipto pelo impacto acrescido na natureza - podiam mas não quiseram ou não souberam gerir o país. A escala é tão grande que é disto que se trata: 10% do território continental, segundo números da empresa Semapa citados pelo livro Portugal em Chamas - Como Resgatar as Florestas, dos professores João Camargo e Paulo Pimenta.

Nenhum país no mundo - nem mesmo a Austrália, de onde o eucalyptus globulus é nativo - tem uma percentagem tão elevada de território ocupado com esta espécie. Os países que sucedem a Portugal nesta lista são a Índia (pouco mais de 2% do território), o Uruguai, Espanha (Galiza-Norte, Castela e Leão e Astúrias, principalmente), Vietname e Tailândia. Um traço em comum: quase todos são países (ou regiões) pobres com facilidade de cativação dos terrenos e Estados débeis para regular impactos.

É certo que a indústria do papel é a que maior valor acrescentado bruto gera nas exportações nacionais e emprega milhares de pessoas, direta e indiretamente. Mas a rentabilidade deste negócio só acontece de forma tão milionária porque a gestão do risco é paga pelo dinheiro público no combate a incêndios às vítimas todos os anos.

E, claro, tanto faz ser a Grécia como a Califórnia ou Portugal: o desordenamento aumenta o risco. As mudanças climáticas agravam esta roleta-russa. Onde vai acontecer na vez seguinte?

Sim, todos sabemos que o fogo sempre fez parte do ecossistema mediterrânico. Mas não explica tudo (não explica nada, aliás). Vale a pena olhar para os números de área ardida entre Portugal e os seus vizinhos mais próximos, os espanhóis e franceses, com quem partilhamos identidade climática. Nos mesmos anos (de 1990 a 2016), Portugal ardeu seis vezes mais do que Espanha (em 2017, 23 vezes mais); com França, a média é superior a 50 vezes (em 2017, 207 vezes mais).

A nossa diferença é a gigantesca área de mato e eucalipto. Nenhum destes países viu arder, percentualmente, tanto território num só ano como sucedeu a Portugal em 2017.

Ora, fica a questão: o que quer exatamente o "bode expiatório"? Apenas não ter a culpa dos incêndios? A sociedade portuguesa não lhe atribui uma culpa exclusiva. Mas não é admissível que 85% da nova área arbórea plantada em 2017 tenha sido eucalipto, assente na "lei Assunção Cristas" contra à qual tanta gente se bateu e este governo não enfrentou com suficiente coragem quando chegou em 2015.

Nalgum ponto isto tem de parar. Há pelo menos 30 anos que estamos a acelerar na direção errada. Se não invertermos durante as próximas décadas este colossal equívoco, são as pessoas quem está a mais neste Portugal de natureza industrializada. Tal como sucede, aliás, naqueles países terceiro-mundistas onde uma oligarquia assente no petróleo (no nosso caso, verde) manda e desmanda.

Caros senhores: em vez de reordenarem e investirem na enorme área de eucalipto já tomada, querem ainda mais hectares? Ou apenas que ninguém questione porque tudo isto sucede?

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