"Queremos tudo de volta, a Federação Russa não quer devolver nada"

Ucrânia recusa cessar-fogo enquanto houver tropas russas no seu território. Combates intensificam-se no Donbass. Ministro francês aponta prazo para entrada de Kiev na UE: " 15 ou 20 anos".

Artur Cassiano
Perto da linha da frente, na região de Donbass, militares ucranianos ajudam os feridos© AFP

"Queremos tudo de volta. A Federação Russa não quer devolver nada". A frase de Volodymyr Zelensky resume o estado da guerra e a de Mykhaylo Podolyak, conselheiro presidencial, esclarece todas as possíveis dúvidas: "Kiev não seguirá os apelos do Ocidente para um cessar-fogo urgente havendo forças russas no território". A explicação é simples. "Fazer concessões" daria a Moscovo a possibilidade de "uma ofensiva ainda maior, mais sangrenta e em grande escala", avisa Podolyak.

A intransigência alarga-se até à possibilidade de negociar com a Rússia o desbloqueamento dos cerca de 300 navios de carga retidos no Mar Negro, a criação de "comboios internacionais de abastecimento de alimentos".

"Negociar com um país que fez centenas de milhões de reféns? Temos uma ideia melhor: o mundo deve concordar com a entrega à Ucrânia de sistemas MLRS e outras armas pesadas necessárias para desbloquear o Mar Negro. Faremos tudo nós mesmos", afirmou.

Mykhaylo Podolyak, que citou o The Economist sobre o alerta de uma crise alimentar no mundo, insistiu na ideia de que "há 22 milhões de toneladas (de cereais) bloqueadas, que os russos estão constantemente a roubar e a colocar em algum lugar. Há que desbloquear essas vias, porque haverá uma crise no mundo".

Sem um "meio-termo", a "batalha diplomática", por paradoxal que possa parecer a expressão, decide-se no terreno. De um lado, a Rússia que avança, ainda que lentamente, no Donbass - Severodonetsk tem sido o alvo mais visível dos últimos dois dias -, e no Sul após a captura de Mariupol; e do outro, a Ucrânia que está a recuperar territórios em redor de Kharkiv (a Norte), a impedir avanços sobre Mykolaiv (a Sul) que está a ser alvo de ataques aéreos, a reforçar as fronteiras norte para travar "ataques vindos da Bielorússia" e a deter os avanços russos em Lugansk, região praticamente ocupada, e em Donetsk, cuja metade do território está sob domínio russo.

Severodonetsk, na região de Lugansk, é agora uma cidade que separa, daí os intensos combates, o lado militar russo do ucraniano. Serhiy Haidai, governador, citado pela BBC, afirma que as tropas russas tentam invadir, sem sucesso, a cidade a partir de quatro direções diferentes e que os ataques aéreos, em áreas residenciais, continuam. O plano militar parece idêntico ao de Mariupol: cercar a cidade. "É uma das prioridades táticas imediatas" dos russos, dizem os serviços secretos militares britânicos.

Logo ali perto, a cerca de sete quilómetros, mais a sul, foi já destruída a ponte que dá acesso à cidade de Lysychansk. A norte, Rubizhne, a pouco mais de 10 quilómetros, está sob "avanço russo".

Ontem, Zelensky, sem dizer quantos militares ucranianos já morreram nesta guerra, fez contas aos que morrem a Leste, todos os dias, a defender a Ucrânia: "entre 50 a 100".

Ao 88.º dia de guerra, a Rússia ocupou uma faixa de 1200 por 200 quilómetros que vai da região da região de Kharkiv (a Norte) a Kherson (a Sul).

"Provavelmente em 15 ou 20 anos"

Depois de no sábado, na visita à Ucrânia, António Costa ter dito que "o pior que a União Europeia poderia fazer à Ucrânia era dividir-se agora (...) Os 27 Estados-membros têm de possuir a abertura suficiente para encontrarem o estatuto especial que é necessário para a Ucrânia. Não nos agarremos a designações e concentremo-nos em ser pragmáticos", ontem Clement Beaune, ministro francês dos Assuntos Europeus, lançou um "balde de água fria" (expressão da BBC) nas esperanças de Zelensky em conseguir uma entrada rápida.

"Temos que ser honestos. Dizer que a Ucrânia vai aderir a UE em seis meses, ou num ano ou dois, é mentir (...) provavelmente em 15 ou 20 anos, [o processo] leva o seu tempo", afirmou.

Clement Beaune repetiu a ideia de Emmanuel Macron, uma "comunidade política europeia" mais flexível que poderia ajudar a integrar a Ucrânia mais cedo, e justificou: "Não quero (e foi este o verbo usado) oferecer aos ucranianos nenhuma mentira ou ilusão".

Poucas horas depois destas declarações, o presidente ucraniano, durante uma conferência de imprensa conjunta, em Kiev, com o presidente polaco, Andrzej Duda, voltou a reiterar a esperança de que a Ucrânia obtenha, já em junho, o estatuto de candidato à União Europeia.

"Acreditamos que isso vai acontecer e contamos com o estatuto de país candidato à UE em junho", afirmou, sublinhando que a Ucrânia pertence à comunidade europeia há muito tempo, mas que para entrar na UE é preciso "embaixadores e amigos poderosos".

Andrzej Duda garantiu, logo ali, que "pessoalmente, não descansarei até que a Ucrânia passe a ser membro da União Europeia (...) Hoje, a Ucrânia necessita do nosso sinal de abertura das portas europeias".

António Costa, na véspera, tinha garantido que "pela parte de Portugal, daremos toda a colaboração técnica para apoiar essa candidatura, assim como também transmitiremos a nossa experiência na União Europeia, tendo em conta o nosso próprio processo de adesão".