O vírus do nosso descontentamento

"A pandemia acabou com a ideia de que os responsáveis políticos sabem o que fazem." A frase é do ex-presidente Barack Obama e vai fazer história, como outras que tem proferido. É algo enigmática e é bastante mais do que apenas uma crítica velada a Donald Trump. A crítica tem toda a razão de ser. Alguém que, sabendo que padece de obesidade mórbida, recorre à hidroxicloroquina como se fosse canja de galinha (pensando que se não fizer bem, mal não fará) não sabe, de facto, o que faz.
Infelizmente, não é o único e o mundo da lusofonia também tem os seus exemplos. Jair Bolsonaro tenta replicar os modos de atuação de Trump e radicalizar a tradicional influência cultural, política e religiosa que os EUA têm no Brasil. A semelhança nota-se até nas demissões polémicas, de que a atriz Regina Duarte é exemplo recente, digno até das suas telenovelas, mas sem final feliz.

Outro ponto de aproximação entre Bolsonaro e Trump é a forma como lidam com a realidade, recorrendo a fake news, aos alternative facts e ao desprezo pela ciência e pela medicina. Em situações de crise ou de contestação, criam uma "cortina de ficção", de preferência com uma disputa reputacional por base, para distrair todos do que, de facto, interessa. Há, no entanto, uma diferença - o Brasil não tem a regulação democrática e de verificação da verdade dos EUA e é mais permeável à mensagem populista. E Portugal? Por cá, começa já a haver também o populismo da fé, uma espécie de Ventura santeiro...

Mas há mais na frase de Obama. Há algo mais para lá da responsabilidade política das medidas e das suas consequências. É a perceção de que, em situações de crise, as medidas são necessariamente adotadas no desconhecido e que a arrogância e a certeza absoluta não são úteis. A situação atual da Europa é um bom exemplo. Agora que já se adequam medidas orientadas para a recuperação económica, o que é, nesta matéria, a hidroxicloroquina, e o que é a canja de galinha? O helicopter money de Milton Friedman tem hélices para voar? Aumentar o endividamento é solução? Certeza há uma. O plano europeu de recuperação económica já está atrasado até em relação a continentes onde a pandemia chegou depois de cá chegar.

Nesta semana houve um sinal de boa vontade política, que partiu do "eixo franco-alemão". Qual a minha opinião? Gosto, não adoro. Sobretudo porque é altura de superar esta espécie de arco da governação que é a Europa "aos eixos". Se temos um mercado único e o euro, temos de ter um eixo único, verdadeiramente norte-sul e em torno da coesão e da solidariedade. É aqui que Portugal tem uma palavra a dizer. Recusámos a austeridade e mostrámos o quanto nos repugnava a "frugalidade" na solidariedade, com o argumento dos nossos (bons) resultados. E, assim, somámos e seguimos.

Deputada do PS

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