"Corrida brutal" ao solar. Já entraram 80 pedidos para megacentrais em Portugal

Esta procura excessiva por projetos solares de grande dimensão está a causar mal-estar na REN, que avisou que "um programa agressivo de aposta na energia solar" pode "exigir um maior investimento na rede e ter impacto nas tarifas" finais aos consumidores.

A corrida aos projetos de energia solar em Portugal está a atrair mais interessados do que nunca. À Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) terão chegado, até agora, cerca de 80 candidaturas para projetos "muito grandes" - na ordem dos 500 MW a 1 GW de capacidade instalada - de promotores nacionais e internacionais dispostos a investir em força e a pagar do seu bolso a ligação à rede nacional de transporte, sem passar pelos leilões de julho.

Além dos 300 promotores que o secretário de Estado da Energia, João Galamba, garante que estão interessados em participar nos primeiros leilões de energia renovável que vão realizar-se em julho, o DN/Dinheiro Vivo sabe que está também em marcha uma "corrida brutal" para construir centrais solares de maior dimensão.

João Galamba admitiu que, à margem dos leilões, a DGEG recebeu apenas três ou quatro pedidos para instalar megaparques solares em território nacional, mas fonte conhecedora do processo confirmou ao DN/Dinheiro Vivo que o número de candidaturas e o valor do investimento são muito superiores ao anunciado.

Tendo em conta que cada megawatt exige um investimento de cerca de 800 mil euros, nas contas do governo, para construir um único projeto com 1000 MW (1 GW) seria necessário um valor a rondar os 800 milhões de euros.

Ou seja, investimentos também eles de enorme dimensão, que vão somar-se aos 1120 milhões de euros de investimento potencial que será necessário para instalar nos próximos três anos os primeiros 1400 MW, que vão a leilão já na primeira quinzena de julho. Isto, de acordo com a mesma fonte, para construir dez quilómetros de ligação à rede nacional "não compensa construir uma central com menos de 500 MW".

Até 2021 serão 38 as novas centrais solares em Portugal

O DN/Dinheiro Vivo sabe que este cenário de procura excessiva pelo solar está a causar mal-estar e descontentamento na REN - Redes Energéticas Nacionais, que já avisou que "um programa agressivo de aposta na energia solar", tal como o que está neste momento em curso no país - com 19 centrais solares fotovoltaicas programadas pelo governo para entrar em produção já em 2019 -, pode "exigir um maior investimento da REN, o que poderá ter impacto nas tarifas" finais aos consumidores. Até 2021 serão 38 as novas centrais solares em Portugal, segundo as licenças já atribuídas pelo governo.

No entanto, esta corrida brutal aos megaprojetos solares não implica que os leilões de julho fiquem vazios, garante a mesma fonte, dando como exemplo uma única empresa nacional que desde o passado dia 18 de junho (data em que abriram as candidaturas no site do governo) já submeteu, pelo menos, 26 pedidos de pontos de ligação à rede, na ordem dos 20, 30 e 40 MW de capacidade.

Além dos grandes players nacionais, como a EDP e a Galp, entre outros, há também gigantes mundiais da energia e fundos de investimento internacionais "a olhar para o mercado português das renováveis" e a contactar sociedades de advogados e elétricas nacionais para agirem como seus intermediários nos leilões.

Foi o próprio João Galamba quem anunciou esta nova opção de investimento no solar, que passa pela exclusão dos leilões de projetos de maior dimensão, na ordem dos 500 MW ou 1 GW, precisamente porque não existe esta capacidade nas diferentes zonas de rede. "Temos várias manifestações de interesse de grandes parques, com mais de 500 MW, mas esses não vão a leilão. Em leilão não há nenhum lote com mais de 200 e poucos MW. Para projetos maiores, que os há, tem de ser via DGEG", explicou, acrescentando que "nestes casos terão de ser feitos pedidos via DGEG, sendo o próprio promotor a criar espaço para o seu projeto, via a construção de nova linha ou reforço de linha existente".

O governante garante que nos leilões "o risco de esmagamento está acautelado. Há limites. Ninguém pode ficar com mais de 50% do leilão (cerca de 700 MW). E ninguém pode ter uma quota de mercado superior a 40% do Mibel. Há um limite à concentração máxima de mercado". Depois há também limites técnicos: quem ligue à rede nacional de distribuição não pode ter projetos inferiores a 10 MW e quem ligue à rede nacional de transporte não pode ter menos de 50 MW.

Bárbara Silva é jornalista do Dinheiro Vivo

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