A longa espera de Bárbara por duas horas de independência

Vive há dez anos dependente da mãe, do pai, da família e até dos colegas. Movimenta-se numa cadeira de rodas que não consegue fazer andar. Está no 4.º ano de Psicologia e desde que chegou a Lisboa que procura soluções para sair de casa e chegar à faculdade sem ser pelos braços do pai. Tem direito a transporte adaptado. A Câmara de Lisboa conhece o caso, mas está em lista de espera.

É sentada numa cama articulada que Bárbara nos recebe. Foi àquela cama que o seu 1,80 metros teve de se adaptar e encaixar, para que as pernas e o resto do corpo não descaiam para qualquer um dos lados. Colocada de propósito para si no quarto que partilha com a tia, irmã do pai e dona da casa onde vive, numa rua de Alcântara, em Lisboa, é nessa cama que passa a maior parte do tempo e onde se sente mais confortável. "A casa teve obras de adaptação, mas ela prefere estar aqui", explica o pai.

Quando entramos no quarto, Bárbara apresenta-se de cabelo apanhado, T-shirt branca, calças de ganga e ténis pretos. Na boca agarra o marcador que a ajuda a usar o telemóvel e o computador. "Do peito para baixo não sinto nada", conta de imediato para percebermos os gestos, a forma como está sentada e o que tem de fazer para chegar ao que quer. "Não tenho muitas alternativas, por isso não posso desistir de nada", diz.

Bárbara não era assim aos 13 anos. Até lá soube o que era andar, correr, saltar, fazer o que queria sozinha. Mas a 6 de julho de 2008, dias depois de ter completado o 8.º ano, um mergulho numa piscina de água salgada em São Pedro de Moel deixou-a tetraplégica. Sem ter um porquê, "tudo mudava". Desconhece a causa da lesão que a atirou para esta situação. "Os médicos dizem que fui mal socorrida. O mergulho deve ter provocado uma lesão, que depois se agravou pela forma como as pessoas que estavam na piscina me ajudaram a sair de lá", relembra. Procurou uma razão, algumas respostas e até, se calhar, responsáveis. Mas nada valia a pena. Os pais ainda acionaram um processo na justiça por não haver na piscina nadadores-salvadores nem meios de socorro. "Fui tirada pelas pessoas que lá estavam", continua. Mas o tribunal da Marinha Grande arquivou o processo.

"Disseram-me que seria muito difícil voltar a andar"

Naquela tarde de julho, foi levada de helicóptero para os Hospitais Universitários de Coimbra (HUC). Foi ali que passou os meses seguintes, a ser tratada e à espera de respostas. Uma não tardou: "Os médicos disseram-me que seria muito difícil voltar a andar." A família fez tudo para que tivesse a melhor reabilitação logo a seguir ao acidente. "Disseram-nos que os primeiros meses eram muito importantes." Dos HUC foi para o Centro de Reabilitação de Alcoitão, onde ainda continua, e durante um verão esteve no Centro da Tocha.

Dois anos depois, Bárbara quis voltar a estudar. "Já sabia que não me restavam muitas alternativas. E se já antes queria tirar um curso, depois ainda mais. Sempre achei que era o meio que me poderia dar uma vida mais independente", confessa. Na altura, vivia em Leiria com a mãe. Fez os quatro anos que lhe faltavam para entrar na faculdade, assume que entrou numa vaga do contingente especial, mas o importante é que tinha notas para entrar sem isso, "sempre me esforcei", reforça. "No início queria Biologia, mas achei que a área de investigação não era a melhor para a minha situação. Decidi-me pela Psicologia", argumenta.

Bárbara tem 23 anos, feitos a 24 de abril, e passou para o 4.º ano. Vai iniciar o mestrado integrado de dois anos que o curso da Faculdade de Psicologia de Lisboa contempla. Quer seguir Clínica Sistémica, a vertente grupal, que lhe permitirá trabalhar mais próxima da comunidade. "A Psicologia tem uma vertente muito individual, mas não é a de que mais gosto. Prefiro trabalhar com a comunidade. Por exemplo nas juntas de freguesia ou nas câmaras", explica. A psicóloga do Grupo de Apoio Psicopedagógico ao Estudante (GAPE) que a acompanha acredita que Bárbara irá longe - "é uma jovem com muita força, interventiva e reivindicativa", diz Catarina Duarte.

Mas é por uma resposta do poder local que a jovem e o pai esperam desde 2015, quando chegou a Lisboa para ingressar na faculdade. Até agora, só consegue frequentar o curso com a ajuda do pai. É ele quem a leva à Alameda da Universidade, que espera duas a três horas, quando o horário o pede, ou que regressa à noite para a levar para casa.

No início, Bárbara era carregada ao colo pelo pai, para se sentar na cadeira, sair e subir os dois lances de escadas de madeira que separam a porta da rua do prédio em Alcântara até à porta de casa da tia, no primeiro andar. "Quando ela teve o acidente eu tinha 40 anos, fazia isso sem esforço, quando vinha a Lisboa aos fins de semana e de férias. Agora já me custa", desabafa Luís. A sorte é que têm uma cadeira elétrica emprestada pela Santa Casa, que os ajuda a descer e a subir as escadas. "Só não é boa a andar na calçada portuguesa, trava ou emperra e não conseguimos que saia do mesmo sítio. Mas é ótima para as escadas", reconhecem os dois.

Todos os dias, uma hora para sair e chegar à faculdade

Todos os dias, em tempo de aulas, Bárbara e o pai levam quase uma hora para sair de casa e chegar à faculdade. "Depois de estar arranjada, tenho de lhe atar as pernas com umas cintas feitas pela minha mãe para o corpo não descair. Coloco-a na cadeira e descemos até ao carro, depois de a colocar lá dentro tenho de trazer a lagarta para casa e levar a cadeira de rodas normal. Só isto são mais de 20 minutos. Depois, ir até à faculdade, estacionar, tirá-la e entrar com ela no átrio ou levá-la às salas é o mesmo tempo, se não for mais", explica Luís. À porta de casa têm lugar, junto à faculdade, não. Quando tem de esperar por ela, há ainda a questão do parquímetro, das moedas, das multas e do dinheiro para tudo isso.

A 14 de setembro de 2015, assim que Bárbara soube que vinha para a faculdade, o pai foi à Câmara de Lisboa para fazer o pedido de transporte adequado. Na altura disseram-lhe que a inscrição tinha de ser feita através da junta de freguesia e assim fez. Foi à Junta de Alcântara, onde lhe marcaram uma reunião com a assistente social para o dia 28 desse mês. A técnica informou-os sobre o tipo de apoios que poderiam ter, tanto domiciliário e financeiro como o transporte a que tinha direito.

"Se não fosse a família, não sei como seria"

O apoio domiciliário está resolvido, a jovem tem uma técnica da Santa Casa que a ajuda diariamente na higiene. Na saúde, teve direito a medicamentos gratuitos por parte da Santa Casa, mas quanto ao apoio financeiro já não tiveram direito a nada. "Eu estou desempregado, não consigo arranjar nada com horários que se adaptem às necessidades da Bárbara, e como estamos a viver em casa da minha irmã é como se fizéssemos parte do agregado familiar dela. Então não recebemos nada, além dos 200 e poucos euros que a Bárbara tem pela sua deficiência, e o subsídio de apoio à terceira pessoa. Se não fosse a família, não sei como seria", desabafa Luís.

Por isso a questão do transporte é tão fundamental. "Se tivesse um transporte diário que me levasse e trouxesse, não era só a mim que me dava mais independência, era ao meu pai também. Ele teria mais tempo para procurar trabalho e até para trabalhar com horários normais", explica a estudante de Psicologia.

Depois da reunião com a Santa Casa, Luís foi chamado a uma reunião na CML em dezembro de 2015. A partir daí, só voltaram a ter uma resposta em janeiro de 2017. "Disseram-nos que a Bárbara estava em lista de espera e que esperavam carrinhas novas", conta o pai.

Luís confessa ser uma pessoa paciente, mas às vezes, "perante tantos nãos, perante pessoas que não parecem sensíveis à situação, desespero", confessa. No início do ano letivo de 2018 voltou à junta para saber o que se passava. O presidente, David Amado, entrou em contacto com os serviços da câmara de forma informal, para se inteirar da situação. "Foi-lhe dito que a jovem estava em lista de espera e que continuavam à espera das carrinhas, mas não souberam dar uma data ou um período para resolução", explicou ao DN o vice-presidente Mauro Santos. "A situação é da competência da câmara, tudo o que competia à junta foi resolvido a seu tempo", especificou.

O DN contactou o gabinete do vereador da ação social, agora a cargo de Ricardo Robles, do Bloco de Esquerda, embora o pedido tivesse dado entrada na anterior vereação, para saber o que se passava. A resposta foi dada por escrito. "Temos conhecimento do caso da Bárbara Santos, que se encontra atualmente na lista de espera para transporte adaptado."

41 pessoas à espera de transporte adaptado

Bárbara não é a única. Há 41 pessoas em lista de espera e destas três necessitam de transporte para estudar, mas nenhuma necessita dele para trabalhar. O gabinete do vereador confirma que a jovem tem direito a este apoio, que "se destina a quem tem mais de 18 anos e é dado de forma contínua e totalmente gratuita, embora a resposta tenha de ser dada por "ordem de solicitação, já que não é indicado elencar outro critério de priorização de pessoas com deficiência". O problema é que as carrinhas que deveriam ter chegado em 2017 não chegaram.

Segundo justifica a autarquia, "a entrega atempada das três viaturas não foi possível no passado por problemas da empresa responsável pelo seu fornecimento". Uma situação que, dizem, "é totalmente alheia à câmara". "O concurso para este serviço foi lançado pela câmara, mas não foi concluído com sucesso." Neste momento, decorre um novo concurso e o vereador Ricardo Robles espera que a situação fique resolvida no início de 2019. "As regras de contratação pública exigem que se cumpram todos os prazos, o que acarreta alguma demora, sendo esta redobrada quando existe incumprimento por parte dos fornecedores", mas, garantem, a vereação está atenta para que "não existam mais atrasos".

Até lá, Bárbara não sabe o que fazer mais. "Não me restam muitas hipóteses", diz. Nestes três anos, já experimentou todas as alternativas que existem. "Já fomos de autocarro da Carris, quando tive o carro avariado, e tive de me responsabilizar por ela no caso de haver algum acidente ou qualquer outra coisa. Os motoristas diziam-me que não se responsabilizavam porque não havia um espaço adequado para a sua deficiência", explica Luís.

Tentaram o metropolitano, mas a estação da Cidade Universitária não tem sequer elevador. "Tinha de subir e descer com ela ao colo", desabafa o pai. Tentaram ainda contratar um táxi, embora nem todos a possam transportar. "Tem de ser uma carrinha que transporte a cadeira de rodas", diz. O custo ficava, em média, dez euros por viagem, 20 ida e volta. "Impensável", comentam. A Carris tem um transporte para deficientes, mas, "além de ter de se marcar com 24 horas de antecedência e por vezes não haver vaga, o bilhete custa 1,80 euros, o que dá 3,60 por dia. Ao fim do mês ficava muito mais caro do que o passe social".

A CML tem transporte adequado que serve diariamente 45 alunos do 1.º ao 12.º anos com variadas incapacidades. Mas faltam carrinhas para mais 41 que estão em lista de espera. No caso de Bárbara, a psicóloga Catarina Duarte, do GAPE, diz que o transporte adaptado é "fundamental para a sua autonomia, para poder exercer um dia a profissão", argumenta. "No próximo ano, Bárbara vai ter de fazer um estágio, se não tiver transporte adequado como será? É o pai que vai continuar a ir levá-la e buscá-la?"

A psicóloga que apoia Bárbara reconhece que ela "é uma lutadora", que fez "uma integração plena na faculdade e junto dos colegas", que é "a primeira aluna que temos com esta incapacidade, tivemos outras, mas com mais capacidade para se mobilizarem". Mas tem uma certeza: "A Bárbara tem muita força de vontade, ela não desiste."

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