De pé no museu Ashmolean, tenho uma súbita vontade de rir. Dado que vim a Oxford para ver uma exposição de escultura clássica, isto pode parecer estranho. Mas os bustos e as estátuas diante de mim não são as criações de mármore de olhos mortos que viemos a associar ao mundo antigo. Pelo contrário, são reconstruções em gesso de como as obras de arte poderiam ter sido quando foram criadas pela primeira vez há mais de dois mil anos - completas com as suas camadas originais, muito vistosas, de tinta..O efeito é assustador, no mínimo. O mármore frio é transformado em tons de pele quentes. As vestes brancas transformam-se em fatos vibrantes. Figuras de bronze encaram os visitantes com olhos desconcertantemente realistas. Particularmente alarmante é uma escultura de Páris, o arqueiro e príncipe playboy da mitologia grega. No mármore original, esculpido há cerca de 2500 anos na ilha de Aegina e agora desbotado de um branco sujo, parece nobre e mortífero; na réplica, vestido com uma roupa de padrão esquisito amarelo, azul, verde e vermelho, parece que acabou de se formar no Clown College..Não posso deixar de rir..Talvez o mais notável nestas recriações seja, no entanto, que talvez não tenham sido de todo notáveis para os habitantes do antigo Mediterrâneo. Não conhecemos exatamente as tintas ou técnicas que empregavam, mas uma gama cada vez mais sofisticada de análise ultravioleta, infravermelha, radiológica e química diz-nos, com certeza, que as esculturas clássicas quase nunca foram deixadas sem adornos. De facto, praticamente tudo o que os Gregos e os Romanos conseguiam fazer com tinta ou com joias, fizeram-no..A estátua de doze metros de Zeus, em Olímpia - uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo - estava revestida de ouro, marfim, pedras preciosas e madeira brilhantemente pintada. O Pártenon albergou em tempos uma estátua da deusa Atena, igualmente gigantesca e garrida, até que ardeu algures no século III d. C. Até o próprio Pártenon foi brilhantemente decorado com frisos coloridos. E, embora haja provas de que alguns artistas visavam um acabamento naturalista, com tons de pele e cabelo realistas, é evidente que outros optaram por um psicadelismo total: arqueólogos descobriram vestígios de cavalos verdes e leões com jubas azuis. Os restos calcários de um monstro de três cabeças descoberto na Acrópole são conhecidos por terem tido olhos negros, pele amarela e barbas azuis..Os Gregos e os Romanos não eram, de modo algum, os únicos a amar as cores. Uma vasta gama de culturas antigas e históricas - desde os Japoneses, os Viquingues e os Astecas - estava unida no gosto daquilo a que os arqueólogos chamam policromia: o uso da cor na arte e na arquitetura. Os Guerreiros de Terracota da China foram outrora pintados de forma brilhante com verdes, vermelhos, violetas, rosas, brancos e azuis. Culturas mesoamericanas como os Maias decoravam esculturas, estruturas e até pirâmides em blocos de vermelho, azul, amarelo, rosa e verde. Os castelos da Europa medieval, em contraste com as escuras e sujas tocas da imaginação popular, estavam recheados de móveis de cores vivas e de adereços para as paredes..As fantásticas esculturas em pedra na abadia do século XII de Cluny, no leste da França, eram tão garridas que São Bernardo de Clairvaux se queixava de que estavam a distrair os monges. "Preferem passar o dia todo a olhar para elas [...] a meditar na palavra de Deus", resmungou..São Bernardo pode não ter aprovado, mas havia um bom raciocínio por detrás dos esquemas de cor carnavalescos dos seus contemporâneos e de outros. Tonalidades brilhantes ajudavam os frisos e as esculturas dispostos no alto das paredes do templo a ser claramente visíveis. As obras de arte tinham frequentemente significado religioso ou político, e as cores distintivas transmitiam uma mensagem mais intelectualizada do que um bloco de mármore monocromático..Além disso, nos tempos antes da produção em massa de tintas, a cor era cara. Os pigmentos tinham de ser extraídos de fontes tão obscuras como plantas tropicais, metais tóxicos e sacos de tinta dos chocos..Os pormenores azuis brilhantes na máscara funerária de Tutancámon provinham do lápis-lazúli, extraído num único vale remoto, no que é agora o Afeganistão, e era mais valioso do que o ouro. Quanto mais garrida a arte, tanto mais rico o patrono..Essas motivações perdem-se ou ficam obscurecidas no escolasticismo esterilizado da galeria de arte ou do salão de exposições..Como resultado, as tentativas de recapturar a policromia perdida, como aconteceu com a exposição no Ashmolean, podem perturbar aqueles que há muito admiram a austeridade da escultura clássica ou a solenidade da arquitetura gótica. Quando uma antiga estátua egípcia do deus Hórus, com cabeça de falcão, foi recriada nos seus matizes originais pelo Museu Britânico, em 2011, completa com grandes olhos de desenhos animados, o resultado apresentava uma semelhança inquietante com o Poupas Amarelo da Rua Sésamo. Quando uma famosa estátua do imperador romano Augusto foi reconstruída com roupas violentamente carmesim e lábios escarlates-brilhantes, um historiador chocado afirmou "ter sofrido [...] um trauma" ao vê-la..Outras réplicas coloridas foram descritas como "sem gosto", "pirosas" e "infantis". As renovações em curso da Catedral de Chartres, em França, destinadas a restaurar o interior original, brilhante e colorido do edifício, suscitaram numerosas queixas e petições, acusando-as de "apagar a história da obra-prima gótica"..Porque será tudo isto um choque tão grande para nós? Se o verdadeiro passado era um caleidoscópio de cor, como os arqueólogos insistem, então por que não é mais conhecida essa informação?.Não é como se os antigos Gregos estivessem a ser tímidos quanto ao seu amor pela cor. O autor de tragédias Eurípides mencionou-o em várias das suas obras, por exemplo. "Olha!" grita uma personagem na sua peça Hipsípile, "lança o teu olhar para cima, e maravilha-te com as esculturas pintadas na fachada!" Temos mesmo Helena de Troia, farta da sua beleza perigosa, a desejar que pudesse "despojar-me da minha beleza e assumir um aspeto mais feio, tal como se poderia limpar a cor de uma estátua". O escultor Praxiteles partilhou este ponto de vista, reconhecendo que as suas criações preferidas eram as que tinham sido pintadas pela artista Nikia. Há até representações em vasos gregos de artistas a pintar estátuas..A primeira explicação é suficientemente simples: a cor desvanece-se..Tintas expostas aos elementos, como as da Acrópole, vão esmorecendo e descamando gradualmente. As obras de arte que acabam enterradas no subsolo são frequentemente mais bem conservadas, embora possam deteriorar-se rapidamente uma vez trazidas à superfície. Um visitante da Acrópole, na década de 1880, observou que um artefacto recém-desenterrado estaria frequentemente "rodeado de um pequeno depósito de pó verde, vermelho e preto que dele caíra"..Quando os fossos dos Guerreiros de Terracota foram abertos pela primeira vez, na década de 1970, os vestígios remanescentes de tinta nas estátuas começaram a descamar em poucos minutos devido à humidade variável no túmulo..A segunda explicação é, porém, muito mais interessante: a escultura clássica é monocromática porque queremos que assim seja..Quando os vestígios da Roma antiga foram descobertos pela primeira vez no século XV - quando muitos dos seus matizes originais já haviam desaparecido -, tornou-se amplamente aceite que tinham sido sempre brancos. Artistas do Renascimento, como Miguel Ângelo, procuraram recapturar a majestade da escultura clássica, criando estátuas sem adornos. "Quanto mais a pintura se assemelha à escultura, mais eu gosto dela", opinava o velho mestre, "e quanto mais a escultura se assemelha à pintura, menos eu gosto dela"..A "nobre simplicidade" do puro mármore branco veio a ser reverenciada como bela por direito próprio. A "cor contribui para a beleza, mas não é beleza", declarou o influente historiador de arte Johann Winckelmann em 1764. "Quanto mais branco é o corpo, mais belo ele é". A cor - especialmente a cor brilhante - foi descartada como um brinquedo infantil de culturas "incultas" e "selvagens"..Assim, quando as provas da policromia antiga começaram a aparecer nos círculos académicos durante os séculos XVIII e XIX, arqueólogos e artistas, tendo investido fortemente no mito do branco clássico, resistiram. Os factos foram forçados a encaixar a teoria. Restos de tinta foram descartados como sujidade ou fuligem. Estátuas gregas com pigmentos ainda intactos foram atribuídas a outras civilizações menos reverenciadas, como os Etruscos. Muitos arqueólogos esfregaram mesmo quaisquer vestígios de cor das estátuas, a fim de "restaurar" a brancura brilhante do mármore. O famoso químico Michael Faraday submeteu os frisos de mármore do Pártenon a grãos abrasivos, soluções alcalinas e até ácido nítrico numa tentativa de recuperar "aquele estado de pureza e brancura que possuíam originalmente"..Num movimento posteriormente lamentado como um "disparate" pelo Museu Britânico, secções dos mesmos frisos foram atacadas com raspadores e cinzéis metálicos, nos anos 30, por funcionários que tentavam remover a "descoloração" da pedra. A descoloração, afinal, incluía restos das pinturas brilhantes originais dos frisos..Ainda hoje, mais de 40 anos após a policromia antiga ter sido finalmente aceite pela maioria dos arqueólogos, é um assunto que pode continuar a surpreender. Dependendo da sua perspetiva, a imagem da escultura clássica com tinta brilhante pode ser engraçada, chocante ou mesmo perturbadora. Levará tempo e esforço para ultrapassar séculos de cegueira cromática coletiva e sacudir o mito de um passado monocromático..A tentação é deixar a história da policromia antiga assim - uma nota de rodapé colorida na história da humanidade, mas que não precisa preocupar os que não são especialistas. No entanto, é aqui que a história se torna realmente interessante. Em setembro de 2016, as universidades dos Estados Unidos começaram a receber folhetos e cartazes de uma organização desconhecida que se intitulava Identity Evropa. No espaço de um mês, estudantes de mais de duas dúzias de campi em todo o país encontravam estes cartazes colados a quadros de avisos, afixadas em paredes e espalhados por bibliotecas. Foram descobertos mais em 2017, em universidades e cidades por todo os EUA..Em 2018, os folhetos foram até lançados de um avião. Todos eles incluíam um apelo à ação - frases como "Proteja a sua herança" ou "Sirva o seu povo" - impresso em negrito sobre a imagem de uma mal-humorada estátua de mármore branco..A Identity Evropa rapidamente deu a conhecer online a sua motivação. Como o nome sugere, a organização vê-se a si mesma como defensora do "património europeu" dos EUA, que acredita estar a ser corroído por um crescente preconceito "antibranco" no país.."Dedicamo-nos a educar os povos de herança europeia para a importância de uma identidade eurocêntrica", explicou o grupo..Não deixe que a linguagem pseudoescolar ou alusões à Antiguidade clássica o enganem: isto é nacionalismo branco num casaco de tweed alugado. A Identity Evropa é uma das muitas organizações novas ou reavivadas de extrema-direita que surgiram nos EUA nos últimos anos sob a etiqueta alt-right. O grupo defende o encerramento total da imigração para os Estados Unidos e defende a "remigração": a deportação de cidadãos norte-americanos não descendentes de europeus. Os seus chefes apoiaram abusos misóginos, racistas e antissemitas. E consideram a escultura clássica como a mascote perfeita da sua cruzada..A Identity Evropa - que desde então se rebatizou como Movimento Americano de Identidade - não é a única organização entre a extrema-direita com entusiasmo pelos clássicos: uma série de grupos de ódio em todo o mundo expressaram admiração pelo mundo antigo. Nem é a primeira - tanto a Itália fascista como a Alemanha nazi transmitiram as suas marcas particulares de supremacia branca com a ajuda da escultura em mármore branco. Parece que o mito de um passado monocromático tem tido consequências muito para lá da estética. As estátuas de mármore brancas da imaginação popular deram a impressão de que o antigo Mediterrâneo era habitado unicamente por pessoas brancas. Artistas e historiadores de arte, delirando sobre a beleza do mármore branco e a selvajaria da cor, ajudaram a cimentar a crença..A "Beleza Ideal dos Antigos" veio a ser considerada como um protótipo de beleza branca. Uma estátua em particular, um jovem conhecido como Apolo de Belvedere - que hoje pode ser encontrado na propaganda da Identity Evropa - foi particularmente admirado pela sua aparente perfeição estética. Johann Winckelmann descreveu em tons positivamente lascivos a "beleza florida" da escultura e a sua "virilidade perfeita", concluindo que era "a forma mais perfeita que os seus olhos alguma vez tinham visto". Quando os conceitos de raça e racismo se infiltraram na ciência no século XVIII, os anatomistas começaram a propor Apolo como holótipo da raça branca..Vários biólogos até adivinharam como teria sido o crânio da estátua e, através de comparações degradantes com os crânios de macacos e de "raças inferiores", utilizaram esta anatomia fictícia numa tentativa de provar cientificamente as suas hierarquias raciais..Estas ideias foram posteriormente alimentadas pelo mito nazi da supremacia ariana. Hitler esteve, por vezes, pessoalmente envolvido na aquisição de escultura grega e romana para o Império Alemão, mantendo-a repetidamente como o padrão estético para os seus súbditos igualarem e ultrapassarem. "O homem nunca foi tão semelhante na aparência e na sensibilidade para com os homens da Antiguidade como é hoje", disse a uma multidão numa galeria de arte de Munique em 1937. A escultura clássica também desempenhou um papel importante na efémera tentativa de Mussolini de construir um segundo Império Romano, e a Itália fascista foi ornamentada com estátuas de mármore branco e brilhante de homens jovens, viris e improvavelmente musculosos, encarnações da "raça italiana"..Para aqueles que ainda nutrem um gosto desmedido pela pele pálida, a escultura grega e romana mantém estas conotações raciais..Grupos como a Identity Evropa veem o Apolo de Belvedere e outras obras como propriedade exclusiva de europeus e americanos brancos, e a sua visão caiada da história clássica permite-lhes estabelecer uma linha exclusiva de descendência das glórias do mundo antigo para os "povos de herança europeia" dos dias de hoje..É claro que é irónico que um grupo apologista da identidade branca, masculina e europeia adote como sua mascote a escultura clássica..Não só as estátuas antigas nunca tiveram a intenção de parecer brancas, como nem sempre tiveram a intenção de representar pessoas "brancas". A análise dos vestígios de pigmentos nos bustos romanos revela que, em tempos, representaram pessoas com compleições que iam do branco-rosa ao castanho mais profundo (o Império Romano, afinal, estendia-se da Escócia à Síria). Uma pintura do imperador Sétimo Severo, que veio de uma família berbere rica, retrata-o com pele castanha, o que o teria excluído de grupos como a Identity Evropa. Depois, há as numerosas esculturas romanas de povos africanos, frequentemente esculpidas em rocha basáltica escura e com vestígios de tinta de mogno ainda presentes..Tentar forçar as conceções modernas de cor e raça aos antigos Gregos é uma tarefa ainda mais desesperante. A perceção da cor dos gregos era tão notoriamente estranha às sensibilidades modernas que o antigo primeiro-ministro britânico e classicista amador William Gladstone sugeriu que sofriam cegueira de cor em massa. Tinham apenas um punhado de palavras para descrever o espectro e aparentemente nenhum conceito de azul (Homero descreveu o céu como "bronze" e o mar como "vinho-escuro"). Além disso, essas poucas palavras que utilizavam eram desconcertantemente escorregadias no seu significado. Dependendo do contexto, a palavra khloros poderia ser utilizada para descrever a cor de folhas, mel, sangue, areia ou "a palidez dos apavorados". O seu termo para branco poderia também significar um cão que se movimenta rapidamente. Esta conceção bizarra da cor estende-se às pessoas, que são descritas de forma variada na escrita grega como tendo pelo amarelo, pele verde e olhos negros..Na Odisseia, Homero descreveu repetidamente o pelo e a barba do herói Ulisses como de "cor semelhante à da flor de jacinto"..Curiosamente, o branco seria a única cor com que um herói homérico teria ficado ofendido se assim o descrevessem. A pele pálida era associada a mulheres, remetidas a casa, e a descrição era considerada um estigma efeminado quando aplicada a um homem..Tim Whitmarsh, professor de cultura grega na Universidade de Cambridge, escreve que os antigos Gregos "teriam ficado espantados" ao descobrir que agora eram celebrados como ícones da brancura..E, no entanto, é exatamente aí que se encontram no século XXI..Tudo porque artistas e arqueólogos não viram - ou não quiseram ver - a tinta na escultura clássica..Isto não é um livro sobre o passado. Não é bem assim. É antes um livro sobre como erramos e interpretamos mal o passado, e por que é isso importante para nós no presente. Como um erro sobre a cor das esculturas antigas pode inadvertidamente alimentar o nacionalismo branco, ou, como vamos descobrir, como um circo ambulante convenceu os norte-americanos de que o seu país foi conquistado pelas armas, ou como uma antiga campanha de difamação romana ainda dá forma à nossa conceção de quem é e não é "civilizado"..Os seres humanos são uma maravilha a cometer erros. Fazemo-lo a toda a hora, seja por erro honesto, parcialidade involuntária ou ignorância intencional do que sabemos ser verdade. E a história não é, de forma alguma, imune. Muitos arqueólogos aceitaram as enigmáticas caveiras de cristal da América Central e do Sul como artefactos genuínos, até que estudos revelaram que se tratava de embustes modernos. Esperançosos historiadores amadores passaram séculos a tentar decifrar uma misteriosa inscrição rúnica no sul da Suécia, antes de se demonstrar que se tratava de fissuras naturais na rocha. Quando o arqueólogo Karl Mauch explorou as ruínas da cidade medieval do Grande Zimbabué na África Austral, em 1871, recusou-se a acreditar que um povoado tão sofisticado pudesse ter sido construído por africanos e, em vez disso, produziu a muito estranha afirmação de que se tratava de um povoado fenício ou semita (uma conclusão que reforçou ao pretender que a madeira no local cheirava ao seu lápis de cedro e, por isso, deveria ter vindo do Líbano). Como resultado, muitas das nossas crenças mais acarinhadas sobre o passado são simplesmente testemunhos de erros do passado - um facto que me foi atirado à cara durante aquela visita ao Ashmolean..E, como no caso da escultura pintada, seria míope rejeitar mitos, erros e conceções erradas sobre o passado como algo de interesse exclusivamente profissional. Porque a história, talvez mais do que qualquer outra disciplina, é utilizada para explicar e justificar o mundo em que vivemos. Apelamos ao passado para mostrar quão progressistas ou retrógrados somos; quão pacíficos, violentos, interligados, isolados, educados e ignorantes nos tornámos. Em consequência, sempre que a sociedade é debatida ou escrutinada, as nossas representações do passado - quer impressas numa página ou esculpidas em pedra - tornam-se para-raios de emoção e ação. Quando o assassínio de George Floyd, um homem negro desarmado, pela polícia dos EUA em maio de 2020 provocou protestos mundiais contra a desigualdade racial, a atenção rapidamente se centrou em monumentos públicos de figuras históricas associadas a práticas racistas. Nos EUA, dezenas de estátuas do explorador Cristóvão Colombo, assim como memoriais aos dirigentes confederados, foram desde então vandalizadas ou demolidas. No Reino Unido, as representações de comerciantes de escravos e imperialistas receberam um tratamento semelhante..Os manifestantes australianos exigiram também que os memoriais aos arquitetos da política da "Austrália Branca", que tentaram impedir toda a imigração não-europeia para a Austrália, fossem retirados do espaço público. Estes apelos, por sua vez, incitaram outros a defender as estátuas contra o que consideram ser o "branqueamento histórico" pelos manifestantes..Independentemente da nossa posição sobre estes e outros debates, é impossível negar o papel da história na formação das nossas perceções da sociedade, tanto do passado como do presente. E, assim, quando erramos na nossa história, ela pode ter consequências de longo alcance, e inesperadas, na forma como nos vemos e damos sentido ao nosso mundo. A história, quer queiramos quer não, tem um hábito irritante de ser relevante..David Mountain Alma dos livros 302 páginas 22 euros