Se não é de esquerda, não é legítima!

Quando não organiza, promove ou enquadra uma greve, um protesto ou uma manifestação, a esquerda reage prontamente com tentativas mais ou menos apuradas, mais ou menos descaradas, de deslegitimação, de relativização. Foi o que vimos, por exemplo, com a greve dos enfermeiros.

Rapidamente ouvimos, nos instruídos perfis nas redes sociais, sempre os primeiros a deixar correr a insinuação de que a greve não era justa, proporcional, adequada. Que era um abuso, que prejudicava os doentes, que as vítimas do protesto não eram os políticos, mas as pessoas.

Depois ouvimos, pela boca de quem sempre politizou tudo o que mexe quando está na oposição, que a greve estava politicamente motivada, que era obra de um partido político que, orquestrando, comandava os protestos dos profissionais. O protesto, afinal, não era bem genuíno, antes provocado, instrumentalizado.

E até ouvimos, pasme-se, que a greve estava a ser financiada por empresas, pelo patronato, por quem não devia. Ui, até se ouviu a expressão extrema-direita.

O objetivo de todas estas insinuações é manifesto: deslegitimar a greve, o protesto. E porquê? Porque desta vez ele não é organizado pelos do costume, pelos partidos do costume, pelos sindicatos do costume, pelos líderes do costume.

Há uma certa esquerda que não tolera o protesto quando o protesto não é por si controlado, que não suporta a queixa quando a queixa é contra si, que não admite a crítica quando a criticada é a esquerda.

E não tolerando, não suportando ou não admitindo, tudo faz para lhe retirar legitimidade.

Viu-se isso, aliás, com a fracassada e pífia manifestação dos coletes amarelos, que rapidamente foi tratada como sendo de extrema-direita com o único intuito de lhe retirar legitimidade. E a nossa extrema-direita oficial, com a inteligência que a caracteriza, mordeu o isco, foi a correr, fazendo triste figura, sem perceber a armadilha montada.

Ora, a verdade é que começa a haver protesto, indignação e revolta com as consequências das opções desta maioria de esquerda. E isso é a coisa mais natural do mundo ao fim de três anos de governação num quadro de escassez de recursos (escassez que é negada, é verdade, mas que é real).

É tão normal que sucede com todos os governos, sejam de esquerda ou de direita. É a vida.

Mas esta vida, que os socialistas conhecem bem, é uma estreia para comunistas e bloquistas, que nunca passaram pela experiência de serem eles os autores das leis e orçamentos que provocam revolta e indignação.

Comunistas e bloquistas estavam tão preparados para responder pela reposição de rendimentos que se esqueceram da própria prestação dos serviços públicos, da sua qualidade, da sua segurança.

E é vê-los, assustados, sem saber o que fazer ou dizer, nas áreas da saúde e dos transportes, quando os protestos e as críticas já não têm que ver apenas com rendimentos, mas com a própria prestação do serviço.

E é vê-los a fugir com o rabo à seringa, a assobiar para o lado, a falar de rendimentos quando as pessoas falam de qualidade e segurança, e a gritar por uma extrema-direita que inexiste e tanto jeito lhes dava.

Começa um ano complicado para esta maioria de esquerda, sim. Não é o diabo, expressão que aliás foi descontextualizada, mas é a normal consequência de uma política orçamental virada para a reposição de rendimentos através de contenção no investimento. E é bom que os partidos da esquerda se habituem a lidar com isso, ou vão ter algumas surpresas pelo caminho.

Advogado e vice-presidente do CDS

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