Não há nenhuma área das políticas públicas em que seja tão pertinente a metáfora da casa em construção como na da política para a habitação. Não tanto pela óbvia referência pictórica da casa, mas pelo seu cariz de processo contínuo e concentracionário de esforços oriundos de vários setores..A casa, enquanto imagem, facilmente se associa a uma identidade cultural e civilizacional ou até a um determinado período histórico. A expressão "arquitetura Estado Novo" (o irónico "estilo Português Suave") aplicada a um determinado estilo arquitetónico ainda hoje sobrevive e ainda hoje se mantém funcional. A par da associação de uma imagem física a um determinado estilo arquitetónico (urbano e não só) no tempo, é também possível associar políticas de habitação a um regime político..Cumpre, hoje, que consigamos, em conjunto, que as políticas de habitação permaneçam associadas à prática da democracia..A habitação está constitucionalmente consagrada como direito e como algo indispensável à vida. Esta consagração exigiu a consciencialização de que priorizar preocupações com o acesso à habitação, com a harmonia na oferta habitacional e com a (re)qualificação do edificado é promover o desenvolvimento sustentável e a coesão socioterritorial..É inquestionável que a estrutura demográfica se transformou mercê de alterações nos modos de vida e nas condições socioeconómicas das populações. A própria dinâmica familiar, aliás, foi afetada por um leque díspar de fatores que vão desde novas mobilidades pendulares e profissionais a uma diferente conjuntura económica e financeira internacional..A atuação pública, toda ela, e também a nível da habitação e da reabilitação do edificado, é hoje confrontada com novas realidades e imperativos. Como responder a estes novos desafios? Sobretudo com respostas novas..Uma resposta possível - já promovida aliás pelo atual executivo, através da Nova Geração de Políticas de Habitação - é mesmo uma mudança de paradigma. Essa mudança passa por uma política orientada para a universalidade no acesso a uma habitação adequada e que privilegie não só instrumentos assentes na construção de novos alojamentos e no apoio à compra de casa, mas também a reabilitação e o arrendamento. Passa por uma política de habitação centrada não só na casa, mas nas pessoas que a habitam e no espaço urbano que os enquadra. Incontornável também será a perceção plena da diversidade da realidade do tecido social e do território. Temos como exemplo o turismo, que poderá ser entendido como pressão nos centros urbanos, mas como fator de desenvolvimento no interior. Por fim, temos o longo e complexo processo de alteração ao arrendamento urbano, já em curso..As estatísticas apontam para a existência de 26 mil famílias com carências habitacionais. Todas elas nos exigem um esforço de luta consensual para que à política de habitação e reabilitação fiquem associadas a democracia e a acessibilidade..Deputada do PS