O PT golpeia-se

Lula é convidado a escrever um artigo no The New York Times, principal jornal do planeta, onde acusa o juiz Sergio Moro, rosto da Operação Lava-Jato, de ser parte de um golpe da direita que visava derrubar Dilma Rousseff, primeiro, e impedi-lo de ir a votos, depois.

A seguir, o Comité de Direitos Humanos da ONU intima o Estado brasileiro a deixar o antigo presidente reunir-se com membros do seu partido, o PT, e a ter acesso à imprensa.

Economistas, juristas e intelectuais do mundo inteiro assinaram o manifesto Lula Livre, em maio deste ano.

Um Prémio Nobel da Paz, Pérez Esquivel, e um respeitado ex-chefe de Estado, José Mujica, visitaram o ex-sindicalista na cadeia. Além do genial Chico Buarque e de outros dos principais artistas do Brasil.

E o povo, esse contratempo, dá vantagem significativa a Lula em todas as sondagens.

Do outro lado, o que temos?

Em vez do The New York Times, os editoriais do jornal O Estado de S. Paulo, o último (e o único?) reduto de apoio ao governo de Michel Temer no Brasil, a fustigar diariamente Lula, a sua sucessora Dilma, o seu eventual substituto Fernando Haddad e todos os que aparentem ameaçar minimamente o statu quo, o establishment, a divisão eterna do país por castas.

E em vez dos intelectuais internacionais e dos génios musicais, o grotesco ator Alexandre Frota a assinar pedidos de impeachment de Dilma, antes, e a solicitar a impugnação da candidatura de Lula, agora.

Posta assim a questão, não há dúvida, pelo menos para quem observa à distância, de que lado está a razão, quem são os heróis e quem são os vilões desta história. Mas na política do Brasil não há heróis. Só vilões.

Lula é como o Fausto, de Goethe, que fez um pacto com o Diabo, na forma de Mefistóteles. Graças a esse pacto chegou ao auge do poder, da popularidade, do prestígio; hoje, sofre as consequências da imprudente amizade.

Lula é como o Fausto, de Goethe, que fez um pacto com o Diabo, na forma de Mefistóteles.

No passado, os "golpistas", como ele lhes chama hoje, foram parceiros de governo e de distribuição de dinheiros públicos no mensalão e no petrolão para ir facilitando a aprovação de projetos, oleando as campanhas de todos e garantindo a preservação dos mesmos no poder.

De terríveis e infames corruptos, quando o PT ainda era oposição, Michel Temer, Renan Calheiros, Romero Jucá ou Eunício de Oliveira, alguns caciques do MDB, ainda a mais fiel representação do Mefistóteles do Fausto na política brasileira, passaram a ser destinatários de palmadinhas nas costas, abraços e afagos de Lula e companhia. Até Paulo Maluf, veterano vigarista procurado pela Interpol, mereceu visita do chefe do PT aos jardins da sua mansão para selar acordo com vista à eleição para a prefeitura de São Paulo de Fernando Haddad, em 2012.

Argumenta o PT que sem esses acordos não teriam existido Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Prouni e tantos outros programas que, pela primeira vez na história, visaram diminuir a desigualdade do terceiro país mais desigual do mundo.

"É a realpolitik, estúpido", dizem os militantes do partido. "No Brasil, Jesus se coligaria até com Judas", resumiu um dia o próprio Lula.

No dia em que o dinheiro se retraiu como nunca, já sob Dilma Rousseff, uma presidente medíocre na economia, por um lado, e que nunca teve estômago para palmadinhas nas costas, abraços e afagos a quem desprezava, por outro, o preço a pagar pela aliança diabólica chegou em forma de impeachment. O resto já se sabe.

Mas será que o PT, com resultados catastróficos nas últimas eleições municipais, e Lula, entretanto preso em Curitiba, aprenderam a lição? Não: enquanto os seus militantes, no Brasil e além-mar, perdem os amigos e a saúde a chamar "golpistas" aos que derrubaram Dilma, o partido já se coligou com os partidos do "golpe" em 15 das 27 unidades federativas do país. A tal realpolitik.

PT e Lula golpeiam-se em nome do poder. E isso não apareceu no artigo do The New York Times.

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