Putin e Zelensky. Retratos do "brutalíssimo ditador" e do líder que ajudou a criar

Quase em simultâneo foram publicados dois livros sobre o percurso dos líderes da Rússia e da Ucrânia. Os seus autores falaram ao DN sobre os visados e ambos coincidem na crítica sem reservas ao russo.

César Avó

Duas abordagens distintas ao género biográfico sobre dois protagonistas da atualidade são-nos oferecidas pelo jornalista ucraniano Sergii Rudenko e pelo artista gráfico inglês Darryl Cunningham. O primeiro, cujo título original - Zelensky sem Maquilhagem - foi obliterado na versão portuguesa para um direto Volodymyr Zelensky - Biografia, corresponde ao que se propõe. Através de 38 episódios, pinta um retrato que não se fica pelo ator transformado em dirigente, inserindo-o na paisagem pouco recomendável da política ucraniana, ainda e sempre dominada pelos oligarcas. O segundo, ao fundir texto com imagem, avança por um trilho ainda pouco explorado na área política (em Portugal, João Paulo Cotrim e Miguel Rocha criaram um mais artístico Salazar - Agora, na hora da sua morte), resultando numa forma eficaz e refrescante de ler sobre a vida de Vladimir Putin que, em nome de uma Rússia mitificada, privou os cidadãos das liberdades mais básicas enquanto deixou um rasto de sangue e acumulou possivelmente a maior riqueza do planeta.

Foi, aliás, esta última característica que levou o autor inglês a embrenhar-se no mundo do antigo agente do KGB. "O meu livro anterior, Billionaires: The Lives of the Rich and Powerful, era sobre o um por cento de pessoas mais ricas do planeta e composto por três biografias, de Rupert Murdoch, dos irmãos Koch e de Jeff Bezos. Enquanto fazia a promoção deste livro, gracejava que o meu próximo livro seria sobre Putin. Isto porque tinha ouvido uma estimativa da sua fortuna pessoal ser pelo menos de 200 mil milhões de dólares. Se isto fosse verdade, colocá-lo-ia no top das cinco pessoas mais ricas do mundo. Tornou-se óbvio para mim que escrever um livro de Putin (e portanto da Rússia) seria uma extensão natural do livro dos bilionários e que valeria a pena fazê-lo."

Se em A Rússia de Putin o leitor é conduzido às manigâncias do homem que começa a enriquecer com esquemas na autarquia de São Petersburgo - enquanto agente destacado da RDA não há, como seria de esperar, revelações -, na biografia de Zelensky é dado a perceber o fenómeno cultural em que o ator singrou, bem como o da sua equipa, e a transição de todos para a política, abandonando desde logo a promessa de que não haveria nepotismo. "Esperava-se que Zelensky destruísse o sistema que existia na Ucrânia", afirma Rudenko. "E o maior erro de Volodymyr é que não o fez nos primeiros dois anos da sua presidência. Claro, acabou por mudar o sistema, mas não tão fortemente quanto podia. Outro erro de Volodymyr foi o desejo de fazer estas mudanças apenas através de pessoas próximas. E estas nem sempre foram competentes, honestas e profissionais. O resultado foi uma série de escândalos que menciono no livro."

Putin e Zelensky partilham o facto de serem líderes dos respetivos países, de terem nascido na União Soviética e de falarem a mesma língua, através da qual o ator se tornou numa estrela no espaço pós-soviético. E pouco ou nada mais. "Achei os detalhes da educação [de Putin] bastante reveladores do seu caráter e do homem que acabou por se tornar. Ele é descrito por aqueles que o conheciam em criança como um lutador agressivo, que usaria qualquer método sujo para ganhar uma luta, incluindo morder e arranhar", diz o autor inglês. "Como adulto, adotou esta mesma atitude na política e na guerra, destruindo todas as normas habituais para ganhar a qualquer custo. Ele vê, penso eu, os adversários que se agarram a regras civilizadas como fracos e fáceis de derrotar." De Zelensky, natural de Kryvy Rih, a maior cidade do centro do país, ficamos a saber que 1995 é o ano decisivo na sua vida: começa o namoro com Olena, que veio a tornar-se sua mulher, e é quando conhece os irmãos Shefir, o seu passaporte para o mundo do espetáculo e da ida para Kiev, numa amizade que se mantém até hoje.

Erros de perceção

Quando o ucraniano chega à presidência, em 2019, a Crimeia tinha sido anexada por Moscovo há cinco anos e o leste da Ucrânia estava em guerra. "Zelensky há muito que tinha ilusões de que seria capaz de negociar a paz com Putin no Donbass. De facto, sobre esta convicção e sobre estas promessas venceu as eleições", diz Rudenko. "Penso que Volodymyr, como ídolo de milhões de telespetadores, estava convencido de que teria capacidade de ação e carisma suficientes para chegar a um acordo com Putin. E disse que, para que a guerra no Donbass termine, só é necessária uma coisa - parar de disparar. No entanto, Zelensky estava errado. Porque Putin esperava que ele se rendesse. Putin pensava que a cabeça de Zelensky estaria aos seus pés a 24 de fevereiro, mas estava enganado."

Os dois autores partem de posições muito diversas. Rudenko, como jornalista, acompanha a política ucraniana há muito, tendo já publicado livros sobre os bastidores dos ex-presidentes Yushchenko e Yanukovich e da antiga chefe do governo Yulia Tymoshenko, e testemunhou alguns dos momentos mais relevantes da atualidade ucraniana. Já Cunningham explica que escreve e desenha estes livros tanto para se educar como para expandir o conhecimento do leitor: "Escolho temas que me interessam e sobre os quais sei pouco, e no processo de pesquisa e escrita aprendo muito. Os temas dos meus livros tendem a estar em áreas mal explicadas pelos meios de comunicação social, porque normalmente são demasiado complexos para serem facilmente resumidos. Vejo o meu trabalho como pegar nestes assuntos e explicá-los de forma tão clara e concisa quanto possível."

No livro, Rudenko dá conta do nervosismo de Zelensky quando, ainda candidato, foi pela primeira vez ao Palácio do Eliseu encontrar-se com Emmanuel Macron, e depois ali também com Angela Merkel e Vladimir Putin em negociações inconsequentes, ou com Donald Trump em Washington. De como o seu primeiro-ministro Oleksiy Honcharuk comentou que Zelensky tem "uma neblina na cabeça", o que lhe custou o cargo a si e a outros altos funcionários que participaram na conversa. "O atual Zelensky é o resultado da evolução. Parece-me que a guerra nos mostrou o verdadeiro Zelensky. Durante três anos ele foi diferente. Mas agora tornou-se no líder de uma nação que luta pela sua liberdade e independência", diz.

"Os adversários de Zelensky criticaram-no repetidamente por não estar preparado para a guerra", prossegue. "Nas redes sociais, presumiu-se que, em caso de guerra, Zelensky e a sua equipa iriam fugir da Ucrânia. No entanto, isto não aconteceu. Desde os primeiros dias da invasão, vimos um presidente confiante. O supremo comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia que aceitou o desafio de Putin com dignidade. Notei que desde fevereiro, os discursos de Zelensky se tornaram menos teatrais, têm menos representação." E conclui: "Zelensky acabou por se revelar um tipo duro. Permaneceu no centro de Kiev quando grupos russos de sabotagem entraram na cidade. Volodymyr mostrou o seu caráter. Bem, e, claro, o apoio do Ocidente foi importante. Acredito que Zelensky se tornará no coveiro do regime de Putin."

Cunningham, que trabalha com "um esboço vago na mente", desenhando e escrevendo em simultâneo cada página, crê ser claro que "o regime de Putin não pode ser considerado como um Estado normal, mas sim um cartel de crimes brutais que tomou conta de um país". Se é verdade que "a maioria dos governos acordou para esta verdade", não o é menos que "há muitos apologistas de Putin inseridos na política ocidental, especialmente no Partido Republicano nos EUA".

O método de Darryl Cunningham passa por escrever o texto e ilustrá-lo em simultâneo.

Cunningham escreve no prefácio que o "brutalíssimo ditador" russo está na fase de megalomania paranoica. Ao DN explica: "Qualquer ditador que tenha estado no poder durante muito tempo acabará por chegar a um ponto em que estará isolado dos acontecimentos reais. Qualquer crítico do regime terá desaparecido há muito tempo. O líder estará rodeado de bajuladores e por isso provavelmente receberá apenas informações que quer ouvir. As más notícias serão omitidas. Isto certamente explicaria alguns dos erros colossais cometidos por Putin e pelas suas forças quando invadiram a Ucrânia." Sobre a campanha russa, Rudenko dá uma achega, ao dizer que o "maior erro de Putin" foi ter subestimado Zelensky, considerado um ator e artista "menor". "É devido a este menosprezo que a Rússia está a perder na Ucrânia", crê.

Uma bala na têmpora

Cunningham deixa um elogio ao líder ucraniano. "Zelensky mostrou-se claramente à altura da ocasião durante este conflito. O seu passado como ator deu-lhe uma compreensão real de como projetar tanto a sua imagem como a imagem do seu país. Mostra-se um homem ponderado, determinado e com objetivos morais claros." Já Rudenko tem dificuldade em falar de "um criminoso de guerra reincidente", isto é, Putin. "Vladimir procura entrar para a história como colecionador de terras russas. Foi esta obsessão que o transformou num assassino de sangue frio. É um proscrito. É odiado na Ucrânia. O mundo civilizado não o quer. E ele, como um verdadeiro maníaco, quer sempre provar a todos que ser seu amigo é muito melhor do que dar-lhe luta. Isto significa que Putin só pode ser detido por uma coisa - uma bala na têmpora."

A Rússia de Putin - A ascensão de um ditador

Darryl Cunningham

Lua de Papel

160 páginas



Volodymyr Zelensky - biografia

Sergii Rudenko

Casa das Letras

232 páginas

cesar.avo@dn.pt