O outro lado da porta

Acontece-me muitas vezes ficar preso numa ideia a meio de um espetáculo, como se ele terminasse ali. As cenas continuam, os atores seguem, a história prossegue, mas eu fico cristalizado nessa ideia, nessa frase feliz ou desconcertante. Não é que me ausente, que abandone, mas há como que uma paragem pela berma de um texto, que depois perdura durante muito tempo. Será uma epifania, ou uma espécie de.

Há alguns anos, num espetáculo do Teatro Praga intitulado Israel, sucedeu-me isso. Ainda o texto mal tinha começado e ouvi algo que me desconcertou, que me chegou ao nervo, e que me deixou imobilizado. Foi tanto assim, que tive de ver o espetáculo de novo, não para voltar a ouvir a ideia, que me esforcei por evitar, mas para ver tudo o resto que deixara escapar.

Nunca mais esqueci essa frase, que tem vindo comigo nestes anos. Ter sido um grande amigo meu a dizê-la, um amigo daqueles por quem vamos ao outro lado do mundo, talvez tenha intensificado o sentido revelador que lhe encontrei, como se me tivessem oferecido uma explicação de mim. E porque lhe encontrei um sentido político, não terá sido indiferente que a tenha escutado em 2011, o ano em que fui eleito deputado.

Pedi ao Pedro que me enviasse o texto, porque não queria citá-lo de cor como de todos os milhares de vezes que o citei.

"Tentamos convencer o maior número máximo de pessoas possível de que a nossa interpretação dos factos é a correta, mas fazemo-lo por razões ideológicas, e não porque somos uma espécie de detetives da verdade. Ou seja: a agenda vem antes dos factos. A narrativa vem antes dos factos. Não há nada de surpreendente neste facto. Quando alguém entra numa porta por um dos lados, essa pessoa herda uma tradição política. Eu estive lá. Estive nos dois lados. Ouvi os dois lados. Mas só entrei por um."

Não há aqui, nesta afirmação, um qualquer elogio da parcialidade, uma espécie de desistência da possibilidade de acordo, de consenso. O que há, pelo menos para mim, é um alerta, um prenúncio, um convite à humildade na defesa de uma ideia, de um ponto de vista.

É que em política temos quase sempre a convicção de que as nossas opiniões vêm dos factos, a dos outros do preconceito, como se só o nosso lado estivesse impoluto e o outro corrompido, como se, dizendo de outra forma, as nossas ideias viessem do mais fundo que há em nós e as ideias dos que estão do outro lado viessem de qualquer outro sítio menos digno.

Isto em nada interfere com o acerto ou o desacerto das ideias que defendemos. Elas não estão erradas por termos entrado por um dos lados da porta. Isto apenas nos alerta para a circunstância de só encontrarmos terreno comum, de só conseguirmos chegar a políticas consequentes e duradouras, se conseguirmos perceber e conhecer o outro lado da porta - não como um degenerado lado, mas simplesmente como o outro lado da porta.

Talvez não vivamos tempos em que esta interpretação pareça motivadora. Mas tem sido essa a minha, e assim continuará.

Advogado

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